{"id":3812,"date":"2009-12-15T00:00:00","date_gmt":"2009-12-14T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3812"},"modified":"2009-12-11T10:40:11","modified_gmt":"2009-12-11T09:40:11","slug":"o-governo-tem-que-dar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/o-governo-tem-que-dar\/","title":{"rendered":"O Governo tem que dar"},"content":{"rendered":"<p>Uma das frases mais repetidas em Angola ou, pelo menos, em Luanda \u00e9 que o Governo tem de dar. N\u00e3o sei o que pensa a maioria dos angolanos acerca disto, mas eu acho-a pouco condizente com o orgulho que se tem no pa\u00eds.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 problemas que as pessoas encarem como seus. A resolu\u00e7\u00e3o de tudo tem de passar pelas m\u00e3os do Governo. Para este estado de esp\u00edrito colectivo contribuiu, entre outros factores, um per\u00edodo de economia centralizada em que cada um era tratado como uma crian\u00e7a e apenas tinha de esperar que o Estado providenciasse trabalho, p\u00e3o e tecto.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px; display: inline; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px\" title=\"Boca de inc\u00eandio desactivada\" border=\"0\" alt=\"Boca de inc\u00eandio desactivada\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/12\/luanda03.jpg\" width=\"533\" height=\"400\" \/>    <br \/>O Governo tem de apagar os inc\u00eandios<\/p>\n<p>Os pescadores n\u00e3o t\u00eam barcos. Esperam que o Governo lhes d\u00ea uns, de prefer\u00eancia com motor. Passados alguns meses, o motor avariou, quer seja por falta de manuten\u00e7\u00e3o, quer seja por m\u00e1 utiliza\u00e7\u00e3o. Reclama-se e espera-se que o Governo ofere\u00e7a outro, sabe-se l\u00e1 a que custo para o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Se se constr\u00f3i uma casa no leito de um rio seco e ela \u00e9 destru\u00edda nas primeiras chuvas \u00e9 uma desgra\u00e7a, mas quem tem de resolver \u00e9 o Governo, porque o cidad\u00e3o construiu e o Governo n\u00e3o o avisou que era perigoso e agora n\u00e3o sabe onde vai morar. Se se encheu o rio de lixo e ele transbordou, tem de ser o Governo a limpar e a reparar as casas. Afinal de contas, a popula\u00e7\u00e3o tem muito orgulho no pa\u00eds e muito brio na obra do Governo. <\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px; display: inline; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px\" title=\"Lixo retirado do rio seco a cada dois meses\" border=\"0\" alt=\"Lixo retirado do rio seco a cada dois meses\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/12\/luanda02.jpg\" width=\"533\" height=\"400\" \/>    <br \/>Lixo retirado do rio<\/p>\n<p>Diz o Governo que quer apoiar os jovens, que \u00e9 a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o. D\u00e1-lhes ferramentas, m\u00e1quinas e motorizadas, geralmente sem contrapartidas. J\u00e1 se sabe que o quue n\u00e3o custa a ganhar n\u00e3o \u00e9 estimado como o que foi adquirido com o trabalho. Ali\u00e1s, quando for preciso, o Governo d\u00e1 novo.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 lixo nas ruas, n\u00e3o se pede caixotes, que seria a obriga\u00e7\u00e3o do Governo, pede-se que venha limpar, mas continua-se a atirar o lixo para qualquer canto.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px; display: inline; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px\" title=\"Contentor a transbordar\" border=\"0\" alt=\"Contentor a transbordar\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/12\/luanda05.jpg\" width=\"533\" height=\"400\" \/>    <br \/>Lixo<\/p>\n<p>O Governo tem que dar casas, carros e cabazes de Natal. Poucos s\u00e3o os que pedem aquilo que o Governo devia mesmo dar, que s\u00e3o escolas, pontes, saneamento b\u00e1sico e transportes p\u00fablicos. O Governo d\u00e1 gasolina barata em vez de transportes e electricidade. O Governo d\u00e1 est\u00e1dios em vez de pontes. O Governo d\u00e1 casas em vez de hospitais. As pessoas habituam-se a andar de m\u00e3o estendida para o Governo e passam a acreditar que a solu\u00e7\u00e3o para tudo \u00e9 pedir. <\/p>\n<p>Conhecemos um sujeito que anda num carro a cair de podre, que lhe gasta o sal\u00e1rio e mais alguma coisa em repara\u00e7\u00f5es e litros de \u00f3leo que vai pingando na estrada. A partir do pr\u00f3ximo ano o seguro autom\u00f3vel vai passar a ser obrigat\u00f3rio e ele n\u00e3o sabe como o h\u00e1-de pagar. A solu\u00e7\u00e3o por ele encontrada \u00e9 que deveria ser o Governo a ajudar os jovens e pagar-lhes o seguro. A desresponsabiliza\u00e7\u00e3o por tudo excepto parece demasiado arreigada.<\/p>\n<p>Quando ocorre um inc\u00eandio por causa das dezenas de geradores e dep\u00f3sitos de \u00e1gua que se acumulam promiscuamente nas traseiras dos pr\u00e9dios, \u00e9 uma desgra\u00e7a. Os bombeiros, quando chegam a tempo, contam apenas com a \u00e1gua que levam nos carros, porque a rede de inc\u00eandios h\u00e1 muito que deixou de funcionar. Muitas vozes se levantam depois pedindo geradores e dep\u00f3sitos novos ao Governo, em vez de exigirem bocas de inc\u00eandio a funcionar ou electricidade e \u00e1gua sem falhas que causem a necessidade de comprar os geradores e dep\u00f3sitos que fizeram arder o pr\u00e9dio.<\/p>\n<p>Diz uma zambiana mal vista por meia \u00c1frica que os africanos t\u00eam de perder o h\u00e1bito de estender a m\u00e3o e enfrentar os seus problemas em vez de esperar que algu\u00e9m os resolva por si. O desenvolvimento de \u00c1frica vai-se conseguir pela educa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o pelas ajudas humanit\u00e1rias que apenas adiam a resolu\u00e7\u00e3o das coisas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px; display: inline; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px\" title=\"&quot;Impulsos&quot; - carros de m\u00e3o em madeira\" border=\"0\" alt=\"&quot;Impulsos&quot; - carros de m\u00e3o em madeira\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/12\/luanda16.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Todo o trabalho \u00e9 digno<\/p>\n<p>Por este pa\u00eds fora tenho visto gente empreendedora, homens, mulheres e jovens a trabalhar para ganhar a vida, mas tamb\u00e9m tenho visto muitos desocupados, cujo \u00fanico prop\u00f3sito na vida \u00e9 espera que o Governo lhes d\u00ea alguma coisa, de prefer\u00eancia sem exigir nada em troca.<\/p>\n<p>Espero que os angolanos aprendam depressa que o Governo n\u00e3o tem de dar nada sen\u00e3o educa\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a, assist\u00eancia social e m\u00e9dica, infra-estruturas e incentivos \u00e0 economia. Tudo o resto depende de cada um.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das frases mais repetidas em Angola ou, pelo menos, em Luanda \u00e9 que o Governo tem de dar. N\u00e3o sei o que pensa a maioria dos angolanos acerca disto, mas eu acho-a pouco condizente com o orgulho que se tem no pa\u00eds. N\u00e3o h\u00e1 problemas que as pessoas encarem como seus. 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