{"id":3816,"date":"2009-12-28T00:00:00","date_gmt":"2009-12-27T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3816"},"modified":"2009-12-28T00:00:00","modified_gmt":"2009-12-27T23:00:00","slug":"a-balana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-balana\/","title":{"rendered":"A balan&ccedil;a"},"content":{"rendered":"<p>Para os estrangeiros, a vida em Luanda tem de ser encarada como se de uma balan\u00e7a se tratasse. Chegamos \u00e0 capital angolana com o fiel a indicar o equil\u00edbrio e, a partir da\u00ed, temos de procurar viver as coisas de modo a que os pratos n\u00e3o se movam desmesuradamente para nenhum lado.<\/p>\n<p>Problemas e alegrias t\u00eam de ser cuidadosamente pesados para que n\u00e3o vejamos tudo atrav\u00e9s de \u00f3culos cor-de-rosa ou pintado de negro.<\/p>\n<p>De in\u00edcio, as coisas m\u00e1s s\u00e3o insignificantes, relativamente ao peso das novidades, mas s\u00e3o s\u00f3lidas, ao contr\u00e1rio das outras, que se evaporam lentamente. Se n\u00e3o tivermos cuidado, o prato que compensa os amargos de boca fica vazio e amea\u00e7a tombar, arrastando consigo toda a balan\u00e7a. Se esse momento chegar, seremos incapazes de encontrar coisas boas que compensem as m\u00e1s e o fim da estadia em Luanda estar\u00e1 pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Balan\u00e7a\" border=\"0\" alt=\"Balan\u00e7a\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/12\/balanca.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>H\u00e1 que manter o fiel perto do equil\u00edbrio<\/p>\n<p>H\u00e1 dias em que damos por n\u00f3s a reclamar de pequenas coisas que, em circunst\u00e2ncias normais, seriam apenas isso, pequenas coisas. Quem estiver de fora e nos ouvir poder\u00e1 pensar que s\u00e3o exageros desmedidos ou que damos demasiada import\u00e2ncia a insignific\u00e2ncias. S\u00e3o essas insignific\u00e2ncias que acabam por fazer tombar a balan\u00e7a. Mais um insulto racista na rua, mais um dia de tr\u00e2nsito infernal ou voltar a faltar a electricidade durante o fim-de-semana inteiro, a impunidade de alguns e o sofrimento de outros, uma noite em claro por causa dos escapes das motas, um pol\u00edcia ou funcion\u00e1rio p\u00fablico compreensivo que quer arranjar solu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida para os nossos problemas, mais crian\u00e7as sem futuro a brincar descal\u00e7as no lixo, hospitais cheios de doentes e vazios de medicamentos, as <em>m\u2019baias<\/em> dos candongueiros, a corrup\u00e7\u00e3o pequena e a corrup\u00e7\u00e3o grande, jantes cromadas do jipe de \u00faltimo modelo a partilhar a po\u00e7a de \u00e1gua escura e cheiro a esgoto com os p\u00e9s da zungueira de filho \u00e0 costas, os pol\u00edcias a distribuir pauladas \u00e0s mulheres que vendem na rua em frente \u00e0s lojas de marcas de luxo, o encolher de ombros do \u00ab<em>Isso \u00e9 Angola!<\/em>\u00bb, o orgulho e a falta de brio, a mis\u00e9ria, a mis\u00e9ria absoluta e o sentimento de impot\u00eancia para lidar com tudo isto. Isoladamente seriam apenas pedacinhos, mas s\u00e3o pedacinhos atr\u00e1s de pedacinhos que se v\u00e3o juntando num s\u00f3 prato e que raramente conseguimos que saiam.<\/p>\n<p>Acabamos por viver num dilema, sem saber se devemos contar tudo e passar por exagerados ou mentirosos, ou continuar a relatar meias-verdades e mostrar os pratos da balan\u00e7a equilibrados ao mesmo tempo que escondemos o dedo que os segura no s\u00edtio.<\/p>\n<p>Felizmente que desabafar ajuda a reequilibrar as coisas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para os estrangeiros, a vida em Luanda tem de ser encarada como se de uma balan\u00e7a se tratasse. Chegamos \u00e0 capital angolana com o fiel a indicar o equil\u00edbrio e, a partir da\u00ed, temos de procurar viver as coisas de modo a que os pratos n\u00e3o se movam desmesuradamente para nenhum lado. 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