{"id":3834,"date":"2009-12-13T00:00:00","date_gmt":"2009-12-12T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3834"},"modified":"2009-12-13T00:00:00","modified_gmt":"2009-12-12T23:00:00","slug":"o-tpico-pagode-africano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/o-tpico-pagode-africano\/","title":{"rendered":"O t&iacute;pico pagode africano"},"content":{"rendered":"<p>Uma das coisas que os turistas procuram em \u00c1frica \u00e9 a autenticidade das coisas, fartos de viver num munda cada vez mais igual. Esperam que as cidades tenham alma, ao inv\u00e9s de grandes torres espelhadas espetadas como lan\u00e7as no ch\u00e3o. Grande parte dos visitantes sonha com animais selvagens como nos filmes, e paisagens e gentes retiradas dos di\u00e1rios dos grandes exploradores do s\u00e9c. XIX.<\/p>\n<p>Tal como a maioria dos sonhos, este tamb\u00e9m \u00e9 quase inating\u00edvel. As guerras e a gan\u00e2ncia do capitalismo ap\u00e1trida destruiram grande parte da \u00c1frica virgem. Os le\u00f5es e as cubatas forma sendo trocados por <em>i\u00e1ces<\/em> e casas com telhados de chapa.<\/p>\n<p>Angola surpreende-me todos os dias, \u00e0s vezes pela sua grandeza, outras pela sua pequenez. O deslumbramento inicial, natural em todas as coisas, acabou por desaparecer e deixar ver que nem tudo o parece t\u00edpico faz parte da tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por ser uma terra de contrastes abissais, facilmente a conseguimos dividir em Luanda e o resto. No resto de Angola somos confrontados com uma terra sofrida, mas com car\u00e1cter, com a <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1773\" target=\"_blank\">grandiosidade esperada<\/a> das coisas africanas e com as dificuldades que todos os dias s\u00e3o superadas, sabendo perfeitamente que no dia seguinte continuar\u00e3o l\u00e1, porque existem como parte integrante da vida. Em Luanda, chocamos de frente com mentalidades que ainda n\u00e3o sa\u00edram da guerra, com injusti\u00e7as tremendas, esp\u00edritos quebrados e um sentimento de impot\u00eancia avassalador. Se, no interior, ainda encontramos constru\u00e7\u00f5es e h\u00e1bitos que podemos considerar t\u00edpicos, na capital assistimos a uma homogeneiza\u00e7\u00e3o que a torna igual a quase todas as grandes cidades africanas.<\/p>\n<p>Mesmo em Luanda, n\u00e3o podemos desistir de procurar saber o que torna esta terra diferente. Fazemos de conta que n\u00e3o existem as torres reluzentes das petrol\u00edferas, diamant\u00edferas e outras <em>\u00edferas<\/em> s\u00edmbolos de riqueza desmesurada a nadar em mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Procuramos os produtos t\u00edpicos, nem que seja no mercado de arte, onde a maioria dos artes\u00e3os s\u00e3o congoleses. Olhamos para as fachadas em busca de pormenores que permitam definir a identidade de um povo. Falamos com as pessoas e descobrimos hist\u00f3rias e lendas.<\/p>\n<p>Mas um dia, ao virar a esquina, descobrimos que toda a individualidade de um povo se est\u00e1 a perder depressa. As torres que foram ocupando o lugar das casas que criaram a identidade da cidade j\u00e1 nem tentam disfar\u00e7ar a sua indiferen\u00e7a para com a terra que as acolhe e sustenta. Criam a sua pr\u00f3pria vers\u00e3o do que \u00e9 o t\u00edpico de \u00c1frica.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Torre CIF com imagem de pagode chin\u00eas na fachada\" border=\"0\" alt=\"Torre CIF com imagem de pagode chin\u00eas na fachada\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/12\/pagode.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>O pagode africano <\/p>\n<p>A torre da CIF tornou-se, gra\u00e7as \u00e0s suas <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2505\" target=\"_blank\">caracter\u00edsticas especiais<\/a>, um marco de refer\u00eancia na paisagem nocturna luandense. Querendo ou n\u00e3o, as imagens que passa na fachada v\u00e3o definir a identidade da cidade, pelo que, numa terra t\u00e3o ciosa da sua individualidade, pare\u00e7a estranho que se mostrem imagens de pagodes chineses. Ou ent\u00e3o, talvez o tal milh\u00e3o de casas venha reformular, de uma vez por todas, o que \u00e9 a habita\u00e7\u00e3o t\u00edpica angolana.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das coisas que os turistas procuram em \u00c1frica \u00e9 a autenticidade das coisas, fartos de viver num munda cada vez mais igual. Esperam que as cidades tenham alma, ao inv\u00e9s de grandes torres espelhadas espetadas como lan\u00e7as no ch\u00e3o. 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