{"id":3858,"date":"2009-12-26T00:00:00","date_gmt":"2009-12-25T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3858"},"modified":"2009-12-26T00:00:00","modified_gmt":"2009-12-25T23:00:00","slug":"a-saudade-e-as-mulatas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-saudade-e-as-mulatas\/","title":{"rendered":"A Saudade e as mulatas"},"content":{"rendered":"<p>Isto de ser Portugu\u00eas tem uma s\u00e9rie de implica\u00e7\u00f5es estranhas. A minha preferida \u00e9 usar uma l\u00edngua riqu\u00edssima que permite brincar com as ideias de uma forma que se aproxima da poesia, em que as mesmas palavras s\u00e3o capazes de dizer tudo e nada ou que reduzem conceitos indefin\u00edveis a uma \u00fanica palavra intraduz\u00edvel para qualquer outra l\u00edngua. Ao contr\u00e1rio de outras l\u00ednguas, como o Alem\u00e3o ou o Ingl\u00eas, mec\u00e2nicas e cheias de arestas; no Portugu\u00eas as palavras fundem-se umas nas outras sem aquela impress\u00e3o de malho na bigorna. Reconhe\u00e7o que a l\u00edngua falada n\u00e3o tem a musicalidade de outras, mas a l\u00edngua escrita \u00e9 linda.<\/p>\n<p>Estando fora de Portugal, somos obrigados, mais que nunca, a procurar a nossa identidade. Tentamos descobrir porque somos diferentes dos demais e, acima de tudo, porque raz\u00e3o nos identificamos como Portugueses.<\/p>\n<p>Portugal \u00e9 um pa\u00eds pequeno mas muito variado, onde se unem pessoas diferentes em torno de um ideal comum que nem eles sabem bem qual \u00e9, mas que definem como sendo <em>Ser Portugu\u00eas<\/em>.<\/p>\n<p>Os Portugueses s\u00e3o optimistas natos, embora muitos confundam isso com conforma\u00e7\u00e3o. Para o bem e para o mal, aceitam a vida como \u00e9 e tentam sempre ver um lado positivo em qualquer situa\u00e7\u00e3o, comparando o mal que lhes sucede com outros piores. Seguindo este racioc\u00ednio, o melhor exemplo de um Portugu\u00eas no cinema \u00e9 o Igor, assistente do Dr. Frankenstein no filme de Mel Brooks e Gene Wilder <em>Young Frankenstein<\/em>. O cientista reclama da vida e acha que bateu no fundo na noite em que d\u00e1 por si a roubar cad\u00e1veres num cemit\u00e9rio, com lama pelos joelhos. O assistente Igor acrescenta, com a maior despreocupa\u00e7\u00e3o, \u00abPodia ser pior. Podia estar a chover.\u00bb<\/p>\n<p>Esse optimismo natural resultou no maior factor de distin\u00e7\u00e3o dos outros povos. Os Portugueses sabem o que \u00e9 a <em>Saudade<\/em>. N\u00e3o a sabem explicar, mas sentem-na todos os dias. A dada altura, cada Portugu\u00eas apercebe-se que a <em>Saudade<\/em> demora uma vida inteira a compreender e, quando esse momento chega, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 tempo para a explicar a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>A <em>Saudade<\/em> \u00e9 o desespero da perda adiada e da efemeridade da vida. \u00c9 o aperto no cora\u00e7\u00e3o que sentimos porque sabemos que n\u00e3o temos tempo para tudo, mas que disfar\u00e7amos aproveitando o melhor de cada momento.<\/p>\n<p>Talvez tenha sido a demanda do significado da <em>Saudade<\/em> que levou os Portugueses a espalhar-se pelo mundo e serem bem aceites em quase todo o lado. Talvez tenha sido a <em>Saudade<\/em> que criou as mulatas\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Isto de ser Portugu\u00eas tem uma s\u00e9rie de implica\u00e7\u00f5es estranhas. 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