{"id":3983,"date":"2010-01-21T00:00:00","date_gmt":"2010-01-20T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3983"},"modified":"2010-01-21T00:00:00","modified_gmt":"2010-01-20T23:00:00","slug":"desconfiana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/desconfiana\/","title":{"rendered":"Desconfian&ccedil;a"},"content":{"rendered":"<p>Um dos maiores entraves ao desenvolvimento de Angola \u00e9 a desconfian\u00e7a que os angolanos t\u00eam deles pr\u00f3prios. N\u00e3o se trata de quest\u00f5es de racismo ou tribalismo que, talvez por serem mais evidentes, se conseguem ir corrigindo ou, pelo menos, mascarando.<\/p>\n<p>Modo geral, os angolanos s\u00e3o af\u00e1veis e tratam-se bem uns aos outros, a menos que detenham alguma forma de poder. A\u00ed, todos passam a ser inimigos e devem estar a conspirar para lhes ocupar o lugar. Diz o povo que cada um sabe como l\u00e1 se chegou. Todos aspiram chegar a chefe e olham com desconfian\u00e7a quem almeja o mesmo. Os rivais n\u00e3o s\u00e3o tolerados e quem est\u00e1 abaixo \u00e9 mantido no seu lugar e relembrado constantemente que n\u00e3o \u00e9 aconselh\u00e1vel exprimir as ambi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O clima do salve-se quem puder que a guerra civil trouxe marcou v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es e os angolanos habituaram-se a matar para n\u00e3o ser mortos em todas as ocasi\u00f5es. Vemos esse esp\u00edrito no tr\u00e2nsito, com manobras incr\u00edveis para ganhar um lugar, na pequena corrup\u00e7\u00e3o para poder ser atendido primeiro, nas cotoveladas nas filas ou nas motas a circular por onde calha. Corrup\u00e7\u00e3o, impunidade e falta de civismo s\u00e3o marcas da guerra.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px; display: inline; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px\" title=\"Candongueiro \u00abStaff dos Corruptos\u00bb\" border=\"0\" alt=\"Candongueiro \u00abStaff dos Corruptos\u00bb\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/corruptos.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Na boca do povo<\/p>\n<p>O cada vez maior fosso entre os que t\u00eam tudo e os que nada t\u00eam agrava ainda mais este clima de desconfian\u00e7a. Os chefes t\u00eam a certeza absoluta que est\u00e3o a ser roubados pelos empregados, quer sejam 50 Kz no t\u00e1xi ou um saco de lim\u00f5es no bar. \u00c0s vezes t\u00eam raz\u00e3o, porque os pr\u00f3prios empregados acham que o pequeno roubo n\u00e3o ser\u00e1 notado pelo patr\u00e3o, que j\u00e1 tem tanto. Infelizmente, o pequeno roubo acaba por se tornar h\u00e1bito e os que n\u00e3o o fazem acabam por se sentir idiotas ao ver os colegas faz\u00ea-lo sem repres\u00e1lias. Parte do problema resolver-se-ia dando condi\u00e7\u00f5es um pouco melhores aos empregados e punir com justi\u00e7a os menos honestos, mas grande parte dos patr\u00f5es prefere pagar muito mal e reclamar que os empregados n\u00e3o prestam.<\/p>\n<p>O clima de desconfian\u00e7a est\u00e1 t\u00e3o enraizado que at\u00e9 se desconfia das empregadas dom\u00e9sticas, figura na qual se deveria depositar inteira confian\u00e7a, uma vez que se lhe d\u00e1 acesso \u00e0 nossa casa. Ao inv\u00e9s de pedir refer\u00eancias, tranca-se os valores ou combina-se um hor\u00e1rio em que haja gente em casa. Novamente, paga-se muito mal, s\u00f3 para o caso da empregada n\u00e3o ser honesta. Como se desconfia que a senhora at\u00e9 roube comida, os frigor\u00edficos vendidos em Angola t\u00eam chaves e fechaduras, como os que h\u00e1 nos hot\u00e9is.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px; display: inline; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px\" title=\"Fechadura\" border=\"0\" alt=\"Fechadura\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/frigo.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Desconfian\u00e7a institucionalizada <\/p>\n<p>Se a empregada rouba comida, talvez seja para a comer, o que poderia significar que o sal\u00e1rio \u00e9 demasiado baixo. Em vez de se corrigir a situa\u00e7\u00e3o e pagar bem a uma empregada de confian\u00e7a, despede-se aquela e contrata-se outra pelo mesmo pre\u00e7o. Os patr\u00f5es continuar\u00e3o a desconfiar das empregadas e as empregadas a sentir-se exploradas pelos patr\u00f5es ao ponto de acharem l\u00edcito roub\u00e1-los.<\/p>\n<p>Todos estes problemas s\u00e3o mais evidentes em Luanda, porque aqui a guerra civil ainda n\u00e3o acabou. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 disparos nas ruas, mas o modo de funcionamento da cidade ainda est\u00e1 condicionado pela guerra. Talvez a situa\u00e7\u00e3o melhore com a gera\u00e7\u00e3o que cresceu depois da paz.<\/p>\n<p>N\u00e3o consigo deixar de pensar que \u00e9 um pouco triste que s\u00f3 se encontrem frigor\u00edficos com fechadura. \u00c9 a admiss\u00e3o da derrota numa rendi\u00e7\u00e3o incondicional. Os pr\u00f3prios angolanos acham que os demais s\u00e3o ladr\u00f5es. Mas l\u00e1 est\u00e1, tamb\u00e9m h\u00e1 quem diga que n\u00e3o se consegue ter um milh\u00e3o de d\u00f3lares de forma honesta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos maiores entraves ao desenvolvimento de Angola \u00e9 a desconfian\u00e7a que os angolanos t\u00eam deles pr\u00f3prios. N\u00e3o se trata de quest\u00f5es de racismo ou tribalismo que, talvez por serem mais evidentes, se conseguem ir corrigindo ou, pelo menos, mascarando. 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