{"id":3994,"date":"2010-01-25T00:00:00","date_gmt":"2010-01-24T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3994"},"modified":"2010-01-25T00:00:00","modified_gmt":"2010-01-24T23:00:00","slug":"a-terra-dos-pauprrimos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-terra-dos-pauprrimos\/","title":{"rendered":"A terra dos paup&eacute;rrimos"},"content":{"rendered":"<p>Antes de passar ao que interessa preciso de introduzir um pouco de teoria. Servir\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 para comp\u00f4r um bocadinho a estrutura do artigo, o que \u00e9 vulgarmente designado por encher chouri\u00e7os, mas tamb\u00e9m para ajudar a perceber as coisas estranhas que se passam nesta casa, para al\u00e9m dos ratos, mosquitos e baratas, claro.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria come\u00e7a h\u00e1 mais de um s\u00e9culo, no meio da casmurrice de dois senhores ligados ao progresso tecnol\u00f3gico da humanidade, de seus nomes Westinghouse e Edison. A rivalidade entre as suas empresas e, acima de tudo, sobre qual a norma de fornecimento de electricidade que vingaria, ditou manchetes de jornais, vingan\u00e7as, sabotagens e outras desventuras. Edison defendia que a forma mais vantajosa de usar electricidade era sob a forma de corrente directa, do mesmo tipo da que \u00e9 produzida por pilhas ou d\u00ednamos. Westinghouse apoiava a ideia da corrente alternada, sugerida por Tesla, o prot\u00f3tipo do cientista louco. A solu\u00e7\u00e3o mais segura e econ\u00f3mica acabou por ser a corrente alternada, para grande desconsolo de Edison.<\/p>\n<p>Uma das grandes vantagens da corrente alternada \u00e9 que s\u00f3 precisa um fio para levar energia at\u00e9 ao local de consumo, ao contr\u00e1rio dos dois da corrente directa. A electricidade, em vez de ir por um fio e voltar por outro, vai e volta por um s\u00f3 fio. Na verdade, a electricidade sai das centrais em tr\u00eas cabos, o que poderia parecer um desperd\u00edcio, mas estes tr\u00eas condutores equivalem a seis de corrente cont\u00ednua porque o retorno \u00e0 central n\u00e3o necessita de cabos.<\/p>\n<p>Para a mesma energia transportada, quanto maior a tens\u00e3o, menor \u00e9 a corrente que passa nos condutores. Por isso, quanto mais elevada for a tens\u00e3o de transporte, menor ser\u00e1 a corrente, menor o aquecimento que provocam e, portanto, menor o di\u00e2metro m\u00ednimo dos cabos para suportar esse calor, o que implica menos dinheiro investido em material. A corrente alterna facilita muito as mudan\u00e7as de tens\u00e3o, pelo que se produz electricidade a uma determinada tens\u00e3o, se transporte a uma tens\u00e3o muito mais elevada para evitar perdas e, finalmente, se converta para uma tens\u00e3o baixa e mais segura para utiliza\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas cabos, a que se d\u00e1 o nome de fases, ligam as centrais aos postos de transforma\u00e7\u00e3o. Em teoria, estes cabos apenas levam energia at\u00e9 ao transformador. O retorno do electr\u00f5es \u00e9 feito pela terra, embora ainda n\u00e3o me tenham dito como cada electr\u00e3o sabe para que central se h\u00e1-se dirigir\u2026 As cargas, isto \u00e9, os consumidores, s\u00e3o distribu\u00eddos de forma a equilibrar os consumos em cada fase. Por quest\u00f5es de seguran\u00e7a, do posto de transforma\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0s casas a energia segue em dois cabos, como aconteceria com a corrente cont\u00ednua. A um chama-se fase, que \u00e9 o que leva energia, e ao outro chama-se neutro, por onde se d\u00e1 o retorno e est\u00e1 ligado \u00e0 terra, dentro do posto de transforma\u00e7\u00e3o. Com o circuito aberto, um \u00e9 perigoso e o outro \u00e9 s\u00f3 um fio. Os mais perspicazes j\u00e1 devem ter percebido que podem ligar a tomada da televis\u00e3o \u00e0 terra e \u00e0 fase que, se tudo correr bem, trabalha na mesma. \u00c9 essa a magia que faz funcionar os busca-p\u00f3los. Tocamos na fase com a ponta da chave e o nosso corpo fecha o circuito com a terra, acendendo a luzinha.<\/p>\n<p>Alguns sistemas de protec\u00e7\u00e3o, chamados de diferenciais, comparam a quantidade de electricidade que passa em cada fio e, caso n\u00e3o seja a mesma, cortam a corrente, pois significa que h\u00e1 uma fuga em qualquer lado, quase sempre provocada por algu\u00e9m que meteu os dedos onde n\u00e3o devia. Porque nem sempre estes sistemas est\u00e3o dispon\u00edveis e pode haver avarias nos aparelhos que causem choques aos utilizadores, h\u00e1 instala\u00e7\u00f5es protegidas com circuitos de terra. No fundo, cria-se um atalho para a electricidade que, em vez de usar o nosso corpo para fazer liga\u00e7\u00e3o e nos dar um belo estic\u00e3o, segue um caminho mais f\u00e1cil, num circuito paralelo ao original que n\u00e3o regressa ao posto de transforma\u00e7\u00e3o, mas sim a um robusto el\u00e9ctrodo de cobre que se enterra algures. Nas instala\u00e7\u00f5es mais antigas, nem sempre \u00e9 f\u00e1cil instalar um el\u00e9ctrodo de terra. H\u00e1 solu\u00e7\u00f5es de recurso, uma das quais \u00e9 conhecida como terra dos pobres, que consiste em ligar o circuito de terra aos canos da \u00e1gua. Funciona bem quando s\u00e3o de ferro ou cobre mas, em instala\u00e7\u00f5es um pouco atabalhoadas, podem implicar que se apanhem choques quando se abre uma torneira.<\/p>\n<p>Depois desta introdu\u00e7\u00e3o que tomou vitaminas em pequenina, chegamos ao ponto em que come\u00e7a a ficar grande demais e tenho de come\u00e7ar o relato das coisas estranhas que sucedem c\u00e1 em casa antes que me perca.<\/p>\n<p>H\u00e1 uns meses, o fog\u00e3o come\u00e7ou a fazer disparar os disjuntores quando se utilizava a rede p\u00fablica, mas se us\u00e1ssemos o gerador tudo funcionava normalmente. Chamou-se o electricista, que mexeu nalgumas coisas, olhou de lado para outras, assobiou \u00e0s mulheres que passavam na rua, foi almo\u00e7ar e voltou para cobrar 100 d\u00f3lares. No final do dia deu o problema como resolvido. Desde essa altura que, quer de gerador, quer de electricidade p\u00fablica, as coisas funcionaram com normalidade. At\u00e9 que come\u00e7ou o tempo h\u00famido. Subitamente, com a rede p\u00fablica as coisas funcionavam, mas com o gerador havia uma sobrecarga no fog\u00e3o. Situa\u00e7\u00e3o incompreens\u00edvel a todos os n\u00edveis.<\/p>\n<p>Suspeit\u00e1vamos que, devido \u00e0 maior humidade no ar, houvesse uma pequena passagem de corrente para o circuito de terra no fog\u00e3o e que o electricista tenha trocado de posi\u00e7\u00e3o as fases que alimentam a casa, colocando o fog\u00e3o numa com menos perdas at\u00e9 ao posto transformador. Como o gerador da central el\u00e9ctrica \u00e9 muito mais potente que o nosso de emerg\u00eancia, \u00e9 capaz de alimentar esta perda sem notarmos quebra de tens\u00e3o apreci\u00e1vel. \u00c9 claro que se medirmos a tens\u00e3o numa tomada n\u00e3o temos nada parecido com os 230 V esperados, tantas s\u00e3o as perdas deste tipo ao longo da rede. Se tivermos sorte, 205 ou 210 V.<\/p>\n<p>Para satisfazer a curiosidade, resolvemos desligar o fog\u00e3o da tomada. O que descobrimos n\u00e3o nos deixou animados. O el\u00e9ctrodo de terra dos pobres acabou de se tornar numa j\u00f3ia cintilante ao lado desta maravilha da t\u00e9cnica e do improviso. Tr\u00eas pregafusos enfiados na parede a formar um tri\u00e2ngulo seguram um pedacinho de fio miseravelmente oxidado. A isto chama-se a terra dos paup\u00e9rrimos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px; display: inline; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px\" title=\"Circuito de terra\" border=\"0\" alt=\"Circuito de terra\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/terra.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Pesadelo electrot\u00e9cnico<\/p>\n<p>Talvez se trate de uma nova abordagem aos circuitos de seguran\u00e7a. Se h\u00e1 fuga de corrente, quer dizer que ela est\u00e1 a fugir. Se est\u00e1 a fugir \u00e9 porque est\u00e1 a correr e ent\u00e3o enfia-se pelo circuito de terra a alta velocidade, faz a primeira curva a voar, com algum esfor\u00e7o dobra a segunda esquina, na terceira quase perde o controlo e nem d\u00e1 por ter entrado numa armadilha. Ficar\u00e1 a dar voltas dentro do tri\u00e2ngulo at\u00e9 se cansar. No final do dia basta-nos ir buscar o arame e sacudi-lo para uma garrafa e recuperar a electricidade perdida, possivelmente para se ir revender no Roque Santeiro como se fosse nova. Ou ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nada disto e \u00e9 um verdadeiro mist\u00e9rio como ainda ningu\u00e9m morreu electrocutado nesta casa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes de passar ao que interessa preciso de introduzir um pouco de teoria. 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