{"id":4016,"date":"2010-01-04T00:00:00","date_gmt":"2010-01-03T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=4016"},"modified":"2010-01-04T00:00:00","modified_gmt":"2010-01-03T23:00:00","slug":"abutrenas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/abutrenas\/","title":{"rendered":"Abutrenas"},"content":{"rendered":"<p>A mais f\u00e1cil circula\u00e7\u00e3o no pais com o fim da guerra e a estabiliza\u00e7\u00e3o da inflac\u00e7\u00e3o, associada ao est\u00edmulo proveniente da falta de transportes p\u00fablicos eficientes e pela recupera\u00e7\u00e3o das estrada t\u00eam incentivado a procura de carro pr\u00f3prio por mais gente. A procura \u00e9 t\u00e3o grande que nem a crise conseguiu abrandar a enxurrada de carros usados que todos os meses chega aos portos angolanos.<\/p>\n<p>A melhoria das vias perif\u00e9ricas que ligam Luanda ao resto da prov\u00edncia tem reduzido muito o tempo necess\u00e1rio para chegar \u00e0 cidade. Longe v\u00e3o os tempos das odisseias de sete horas ao volante para percorrer os doze quil\u00f3metros que separam Luanda de Viana. Ao ser mais f\u00e1cil chegar a Luanda por meios pr\u00f3prios, viajar apertado dentro de um candongueiro \u00e9 cada vez menos convidativo.<\/p>\n<p>Se chegar \u00e0 cidade se tornou mais f\u00e1cil, circular dentro dela tornou-se um pesadelo que n\u00e3o mostra sinais de vir a melhorar. Por muitas estradas que se reparem ou avenidas que se alarguem, o centro econ\u00f3mico continua na cidade baixa.<\/p>\n<p>Os minist\u00e9rios, conservat\u00f3rias e outros organismos p\u00fablicos, os hospitais, as empresas de \u00e1gua e electricidade e grande parte das lojas especializadas est\u00e3o concentrados entre a ba\u00eda de Luanda, a fortaleza de S\u00e3o Miguel, o S\u00e3o Paulo e o alto da Maianga, mais ou menos dentro do limite urbano da Luanda colonial. Quem quer tratar de alguma coisa tem de ir l\u00e1.<\/p>\n<p>Com cada vez mais carros a circular e o mesmo espa\u00e7o para os estacionar, arranjar um lugar para deixar o carro enquanto se resolvem as coisas tornou-se uma tarefa quase imposs\u00edvel. Encontrar um lugar legal ainda \u00e9 mais dif\u00edcil, raz\u00e3o pela qual a grande maioria dos sinais de proibi\u00e7\u00e3o de estacionamento s\u00e3o encarados como decora\u00e7\u00e3o pelos condutores mais desesperados.<\/p>\n<p>Em Luanda n\u00e3o se deixam multas de estacionamento nos p\u00e1ra-brisas dos carros. A pol\u00edcia sabe que, se n\u00e3o apreender os documentos da viatura ou do condutor, a multa (ou <em>gasosa<\/em>) nunca ser\u00e1 paga. A \u00fanica solu\u00e7\u00e3o \u00e9 rebocar o carro e esperar que o dono o v\u00e1 buscar. Os condutores sabem que vale a pena arriscar. N\u00e3o h\u00e1 muitos reboques e, mesmo com batedores a abrir caminho, com o tr\u00e2nsito infernal da cidade n\u00e3o conseguem rebocar muitos carros por dia. As probabilidades de sair impune da transgress\u00e3o s\u00e3o elevadas. Um carro estacionado indevidamente respira mais impunidade que um candongueiro em contra-m\u00e3o, o que j\u00e1 de si aparenta ser um crime sem castigo.<\/p>\n<p>Os reboques de Luanda apresentam muitas semelhan\u00e7as com duas esp\u00e9cies de animais sobejamente conhecidas: os abutres e as hienas. Para al\u00e9m de necr\u00f3fagos, por se alimentarem de animais mortos ou carros parados, os reboques tamb\u00e9m atacam em bandos, da\u00ed ser uma quest\u00e3o de justi\u00e7a baptiz\u00e1-los de abutrenas.<\/p>\n<p>Em certas ruas estrat\u00e9gicas, escolhidas pela pol\u00edcia por permitirem um r\u00e1pido carregamento do reboque, surge um cortejo de abutrenas. Meia-d\u00fazia de reboques de cabina amarela seguem em filinha pirilau e param \u00e0 frente do primeiro carro mal estacionado. Depois, como uma cadeia de montagem, o \u00faltimo reboque carrega o primeiro carro da fila e parte, altura em que todo o cortejo recua uns metros e repete a opera\u00e7\u00e3o. Retira-se um carro de cada vez at\u00e9 que a rua esteja desimpedida ou se tenham acabado os reboques. Habitualmente \u00e9 o primeiro crit\u00e9rio que se usa porque entre descarregar o carro no parque da pol\u00edcia e regressar demora umas horas.<\/p>\n<p>Como tempo \u00e9 dinheiro e o dono do carro n\u00e3o est\u00e1 a ver, n\u00e3o h\u00e1 meiguice para ningu\u00e9m. Se o carro n\u00e3o sobe s\u00f3 com o guincho porque est\u00e1 travado e engatado, at\u00e9 se pode fazer marcha-atr\u00e1s com o reboque e tentar raspar o carro do ch\u00e3o. No final da opera\u00e7\u00e3o a rua est\u00e1 cheia de marcas de pneus arrastados e sulcos no asfalto onde o reboque raspou a rampa. Maltrata-se o carro e o pr\u00f3prio reboque, mas os necr\u00f3fagos n\u00e3o s\u00e3o conhecidos pela delicadeza com que tratam as v\u00edtimas. Quando o material partir, ningu\u00e9m vai saber como foi, sempre assim esteve, eu n\u00e3o fui e o estado depois d\u00e1 um novo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mais f\u00e1cil circula\u00e7\u00e3o no pais com o fim da guerra e a estabiliza\u00e7\u00e3o da inflac\u00e7\u00e3o, associada ao est\u00edmulo proveniente da falta de transportes p\u00fablicos eficientes e pela recupera\u00e7\u00e3o das estrada t\u00eam incentivado a procura de carro pr\u00f3prio por mais gente. 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