{"id":4048,"date":"2010-02-15T00:00:00","date_gmt":"2010-02-14T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=4048"},"modified":"2010-02-15T00:00:00","modified_gmt":"2010-02-14T23:00:00","slug":"frica-amarela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/frica-amarela\/","title":{"rendered":"&Aacute;frica amarela"},"content":{"rendered":"<p>A China resolveu sair das suas fronteiras e lan\u00e7ar-se no mundo capitalista em for\u00e7a. Estudou a fundo as regras do sistema para as poder dominar e contornar melhor que os outros. E est\u00e1 a sair-se muito bem.<\/p>\n<p>A abordagem que adoptou para \u00c1frica \u00e9 eficaz. Fecham os olhos a tudo o que n\u00e3o diga respeito ao neg\u00f3cio e deixam de lado eventuais escr\u00fapulos quando chega a altura de fazer contas aos lucros.<\/p>\n<p>Enquanto meio mundo reclama dos regimes ditatoriais africanos e tenta que as coisas mudem, os chineses optam por n\u00e3o se imiscuir na pol\u00edtica e aproveitam a situa\u00e7\u00e3o porque sabem que \u00e9 mais f\u00e1cil negociar com um ditador do que com um parlamento. Direitos Humanos s\u00e3o bonitos, mas nada t\u00eam a ver com neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>Os pa\u00edses ocidentais tentam estabelecer parcerias que d\u00eaem frutos a ambas as partes, tanto em termos econ\u00f3micos como em termos sociais. Quando se recusam a emprestar dinheiro ou a criar empresas sem contra-partidas de protec\u00e7\u00e3o do investimento s\u00e3o imediatamente acusados de adoptar atitudes neo-coloniais. Os chineses emprestam sempre e s\u00e3o adorados por isso.<\/p>\n<p>Os chineses s\u00e3o actualmente os maiores credores de \u00c1frica. H\u00e1 uns anos come\u00e7aram a emprestar dinheiro sem fazer muitas perguntas. Viram em \u00c1frica um excelente mercado e uma reserva infinita de mat\u00e9rias-primas de que cada vez mais necessitam. Emprestam centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares de cada vez, n\u00e3o exigindo pagamento imediato nem sequer garantias concretas. Como contrapartida, ter\u00e3o de ser empresas chinesas a fornecer materiais e servi\u00e7os ou a construir infra-estruturas.<\/p>\n<p>Sabem que grande parte desse dinheiro ser\u00e1 desviado para contas pessoais de dirigentes e administradores, que endividam o pa\u00eds sem quaisquer remorsos, aplicando o lema dos tempos modernos de capitalizar os lucros e socializar as d\u00edvidas. Os pol\u00edticos assumem a d\u00edvida com uma assinatura, recebem a sua comiss\u00e3o e o resto ficar\u00e1 para algu\u00e9m pagar.<\/p>\n<p>Ao aplicar a teoria de fazer tr\u00eas vezes por metade do pre\u00e7o, conseguem asfixiar a concorr\u00eancia, mas o pre\u00e7o final ser\u00e1 uma vez e meia o pre\u00e7o justo e o prazo de conclus\u00e3o tr\u00eas vezes o previsto. No entanto, uma vez que a <em>gasosa<\/em> foi paga t\u00eam a certeza de que n\u00e3o haver\u00e1 reclama\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Como o dinheiro que emprestam se destina a pagar as pr\u00f3prias obras que lhes s\u00e3o adjudicadas, \u00e9 \u00f3bvio que querem poupar o m\u00e1ximo poss\u00edvel na sua execu\u00e7\u00e3o. \u00c9 frequente enviarem trabalhadores sem qualquer experi\u00eancia para virem aprender fazendo. Quando dominarem a t\u00e9cnica regressam \u00e0 China e s\u00e3o substitu\u00eddos por outros aprendizes. A China arranjou quem lhes pagasse a forma\u00e7\u00e3o profissional dos seus t\u00e9cnicos fingindo que ajuda a financiar as obras.<\/p>\n<p>Obviamente que a factura ser\u00e1 apresentada mais tarde. Se n\u00e3o houver dinheiro para a pagar, todos sabem que se poder\u00e1 chegar a acordo e amortizar parte da d\u00edvida com contratos de explora\u00e7\u00e3o exclusiva de florestas, concess\u00f5es mineiras ou jazidas petrol\u00edferas.<\/p>\n<p>Angola ainda est\u00e1 a pagar as d\u00edvidas da <em>solidariedade prolet\u00e1ria<\/em> dos seus aliados durante a guerra civil. \u00c9 uma d\u00edvida que nunca se extinguir\u00e1, como conv\u00e9m \u00e0s partes interessadas. Agora lan\u00e7ou-se nas m\u00e3os dos chineses, que emprestaram muito dinheiro sem olhar a quest\u00f5es de pol\u00edtica interna ou a d\u00edvidas pendentes, ao contr\u00e1rio do que faz o FMI.<\/p>\n<p>O pa\u00eds podia aproveitar a oportunidade para negociar contratos com as empresas chinesas em que fosse obrigat\u00f3ria a integra\u00e7\u00e3o de um n\u00famero m\u00ednimo de trabalhadores angolanos, como faz com outras empresas. Podia at\u00e9 ser para as tarefas menores, que n\u00e3o exigissem qualifica\u00e7\u00f5es especiais, enquanto n\u00e3o houvesse quadros suficientes. Aprenderiam e ganhariam experi\u00eancia na obra, tal como os chineses fazem com os seus trabalhadores.<\/p>\n<p>Infelizmente, as empresas chinesas encaram a contrata\u00e7\u00e3o de angolanos como uma despesa adicional a evitar. O dinheiro quer-se a entrar, n\u00e3o a sair. Por cada angolano a trabalhar, h\u00e1 um sal\u00e1rio a pagar. Por cada chin\u00eas a trabalhar, h\u00e1 um pagamento a receber. Como n\u00e3o h\u00e1 dinheiro para pagar este trabalhador, emprestam-no e acrescentam uma pequena comiss\u00e3o, tamb\u00e9m emprestada, para que n\u00e3o haja muitas d\u00favidas qual a solu\u00e7\u00e3o mais vantajosa. Acabamos no c\u00famulo de ver varredores de rua chineses em Luanda. Os chineses fazem tudo e ainda pagam. Deve ser um excelente neg\u00f3cio para todos os envolvidos, excepto para os angolanos desempregados.<\/p>\n<p>Quando a crise chegou a Angola e o Estado deixou de pagar aos seus empreiteiros, algumas empresas de constru\u00e7\u00e3o civil despediram milhares de angolanos e repatriaram algumas centenas de quadros seus. As obras pararam at\u00e9 que as d\u00edvidas fossem saldadas. N\u00e3o h\u00e1 not\u00edcia de que alguma empresa chinesa tenha repatriado funcion\u00e1rios ou que tenha despedido angolanos em t\u00e3o grandes n\u00fameros. Nas obras de chineses quase s\u00f3 trabalham chineses. Continuaram a emprestar dinheiro para que as obras n\u00e3o parassem. A d\u00edvida aumenta, mas esse \u00e9 um problema da pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Sondagem\" border=\"0\" alt=\"Sondagem\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/02\/chineses.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>\u00danicos trabalhadores<\/p>\n<p>O que perde Angola e \u00c1frica em geral, \u00e9 que \u00e9 uma terra rica. Enquanto houver recursos que cubram a gan\u00e2ncia dos que a gerem e dos que a cobi\u00e7am, quem l\u00e1 nasceu com a sina de ser pobre, estar\u00e1 condenado a sofrer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A China resolveu sair das suas fronteiras e lan\u00e7ar-se no mundo capitalista em for\u00e7a. Estudou a fundo as regras do sistema para as poder dominar e contornar melhor que os outros. E est\u00e1 a sair-se muito bem. 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