{"id":4130,"date":"2010-03-02T00:00:00","date_gmt":"2010-03-01T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=4130"},"modified":"2010-03-02T00:00:00","modified_gmt":"2010-03-01T23:00:00","slug":"amargo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/amargo\/","title":{"rendered":"Amargo"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 dias em que n\u00e3o se deve escrever. O que nos vai na alma \u00e9 demasiado negro para que saia alguma coisa de agrad\u00e1vel ou positivo.<\/p>\n<p>Parece que a Depress\u00e3o do Cacimbo ataca um pouco mais cedo este ano. Fico na d\u00favida se \u00e9 s\u00f3 a mim ou se apenas estou a reparar mais nas pequenas arrelias e discuss\u00f5es a que assisto na rua. Talvez os muitos meses seguidos em Luanda, com todas as suas pequenas contrariedades que se acumulam e pesam cada vez mais, tenham levado a melhor. A contagem decrescente para o fim do contrato tamb\u00e9m n\u00e3o ajuda nada, porque os dias custam a passar e as saudades de casa v\u00e3o-se acumulando at\u00e9 que parecem transbordar. N\u00e3o tenho alma que as contenha. Os \u00faltimos meses parecem mais longos que os dois anos acordados pareciam \u00e0 partida.<\/p>\n<p>Cumprindo a promessa que fiz a mim mesmo de terminar o Aerograma quando me deixasse de dar prazer, estive por um fio para entrar em sab\u00e1tica e interromper os artigos di\u00e1rios. Sem nada de construtivo para acrescentar, repetir o que j\u00e1 tinha escrito ou apenas dizer mal para desopilar o f\u00edgado n\u00e3o faria sentido nenhum.<\/p>\n<p>Mas escrever exorciza os fantasmas e escrever sobre o medo que se tem do que saia da pena, neste caso teclado, \u00e9 uma boa maneira de confrontar as nuvens negras que me atacam nesta mudan\u00e7a de esta\u00e7\u00e3o. Tenho de pensar no que ainda me falta descobrir, no que quero aprender.<\/p>\n<p>H\u00e1 que voltar ao Huambo, h\u00e1 que voltar a Massangano, h\u00e1 que me despedir de Angola, que \u00e9 um pa\u00eds fant\u00e1stico assombrado por uma Luanda ainda em clima de guerra. <\/p>\n<p>N\u00e3o quero ficar amargo e desiludido s\u00f3 por causa da cidade e dos insultos que toda a gente troca pela m\u00ednima coisa. N\u00e3o quero ficar marcado de vez com as coisas negativas que me rodeiam e \u00e0s vezes me fazem odiar Luanda, que n\u00e3o \u00e9 Angola, mas \u00e0s vezes se confundem. N\u00e3o quero descarregar as frustra\u00e7\u00f5es nos amigos, que n\u00e3o o merecem. Quero ser capaz de sorrir at\u00e9 ao \u00faltimo dia e poder dizer um adeus j\u00e1 com saudades da porta do avi\u00e3o de regresso.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px; display: inline; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px\" title=\"C\u00e3o virando lixo\" border=\"0\" alt=\"C\u00e3o virando lixo\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/02\/amargo.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Amargura<\/p>\n<p>H\u00e1 dois anos terminava as negocia\u00e7\u00f5es com a empresa angolana que me contratou. At\u00e9 \u00e0 partida vivi na expectativa de vir conhecer um pa\u00eds sobre o qual j\u00e1 tinha ouvido falar muito e que me enchia a imagina\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o fazia a m\u00ednima ideia do que iria encontrar. Depois vieram as consultas de medicina tropical, os vistos, as burocracias e os receios naturais nestas alturas.<\/p>\n<p>Os balan\u00e7os finais ficar\u00e3o para depois, para quando as mem\u00f3rias m\u00e1s se esbaterem e ficarem apenas as que costumam aparecer nos \u00e1lbuns de fotografias, com rostos conhecidos a sorrir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 dias em que n\u00e3o se deve escrever. O que nos vai na alma \u00e9 demasiado negro para que saia alguma coisa de agrad\u00e1vel ou positivo. Parece que a Depress\u00e3o do Cacimbo ataca um pouco mais cedo este ano. 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