{"id":4245,"date":"2010-04-01T00:00:00","date_gmt":"2010-03-31T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=4245"},"modified":"2010-03-20T13:23:45","modified_gmt":"2010-03-20T12:23:45","slug":"o-666-no-anuncia-coisa-boa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/o-666-no-anuncia-coisa-boa\/","title":{"rendered":"O 666 n\u00e3o anuncia coisa boa"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 dias em que Luanda nos convence que a \u00fanica rela\u00e7\u00e3o que se pode ter com Angola \u00e9 a de amor-\u00f3dio. Amor pelo pa\u00eds e \u00f3dio pela capital. N\u00e3o que a cidade o mere\u00e7a, mas h\u00e1 um acumular de situa\u00e7\u00f5es aborrecidas que v\u00e3o desgastando o pouco \u00e2nimo que resta.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastando as contrariedades que afectam todos, como o tr\u00e2nsito, a lama nas ruas e os cortes de \u00e1gua e luz di\u00e1rios, h\u00e1 tamb\u00e9m uma grande parte da cidade a viver sem condi\u00e7\u00f5es ou dignidade. Tudo isto afecta o estado de esp\u00edrito dos luandenses, que sentem que a guerra ainda n\u00e3o acabou, pelo&#160; menos a julgar pelas condi\u00e7\u00f5es em que se vive.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Arm\u00e1rio el\u00e9ctrico\" border=\"0\" alt=\"Arm\u00e1rio el\u00e9ctrico\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/electricidade.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>As falhas que saturam<\/p>\n<p>Aquilo que talvez seja mais dif\u00edcil de suportar \u00e9 a corrup\u00e7\u00e3o dos pol\u00edcias e fiscais. Em certas alturas acreditamos que se comportam como verdadeiros ladr\u00f5es, usando a farda para intimidar as v\u00edtimas. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o flagrante que \u00e9 f\u00e1cil adivinhar que os ordenados est\u00e3o atrasados quando as opera\u00e7\u00f5es de fiscaliza\u00e7\u00e3o se multiplicam nos primeiros dias do m\u00eas.<\/p>\n<p>As situa\u00e7\u00f5es v\u00e3o-se repetindo, com pedidos de <em>gasosa<\/em> ou venda de facilidades quase di\u00e1rios por parte de quem devia perseguir os bandidos mas ganha a vida com estes esquemas. S\u00e3o t\u00e3o frequentes que acabamos por n\u00e3o contar a metade deles, para n\u00e3o passar por exagerados. Mas o de hoje merece relato.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s chegar do trabalho, fomos a p\u00e9 ao est\u00e1dio dos Coqueiros, aproveitando a \u00faltima luz do dia. No regresso, ao passar uma esquina, ouvimos uma interpela\u00e7\u00e3o habitual.<\/p>\n<p>\u00ab<em>Amigo\u2026 Amigo\u2026<\/em>\u00bb<\/p>\n<p>J\u00e1 nem fazemos caso, tantos s\u00e3o os <em>amigos<\/em> desconhecidos que nos pedem \u00ab<em>s\u00f3 cem kwanzas<\/em>\u00bb a cada passo que damos. Tenho pena, mas n\u00e3o sou um mealheiro com pernas para andar a sustentar desocupados com bons corpinhos para trabalhar em outras coisas que n\u00e3o sejam o levantamento Cuca. Mas o chamamento continuou.<\/p>\n<p>\u00ab<em>Amigo\u2026 Senhor\u2026<\/em>\u00bb<\/p>\n<p>A varia\u00e7\u00e3o foi estranha e olh\u00e1mos para tr\u00e1s, tentando perceber quem era. Era um pol\u00edcia de giro, com a sua farda azul. Como de costume, anotei o n\u00famero da bra\u00e7adeira &#8211; 666. Para quem acredita nessas coisas, n\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de boas not\u00edcias. Pediu-nos os documentos. Perguntei-lhe porqu\u00ea.<\/p>\n<p>\u00ab<em>Porque \u00e9 hora morta e voc\u00eas andam na rua.<\/em>\u00bb<\/p>\n<p>Olhei em volta. Por todo o lado se via gente a andar de um lado para o outro, ou n\u00e3o fosse esta uma das pra\u00e7as mais movimentadas da cidade. H\u00e1 menos de quinze minutos atr\u00e1s era de dia e o c\u00e9u ainda mostrava nuvens avermelhadas. Se esta \u00e9 a hora morta, custa-me a conceber como ser\u00e1 descrita a madrugada. Mas qualquer coisa o levou a achar que o nosso comportamento era suspeito e merecedor de mais aten\u00e7\u00e3o por parte da autoridade. A inten\u00e7\u00e3o era \u00f3bvia, assegurar fundos para o jantar. Fingiu que leu os dados dos passaportes e, desconsolado por estar tudo em ordem, mandou-nos seguir.<\/p>\n<p>Quero acreditar que nos quis controlar os documentos de forma aleat\u00f3ria, mas o certo \u00e9 que os \u00fanicos dois brancos na rua \u00e9ramos n\u00f3s e n\u00e3o andou a incomodar mais ningu\u00e9m. Cada vez tenho mais saudades dos <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=4219\" target=\"_blank\">pol\u00edcias da prov\u00edncia<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 dias em que Luanda nos convence que a \u00fanica rela\u00e7\u00e3o que se pode ter com Angola \u00e9 a de amor-\u00f3dio. Amor pelo pa\u00eds e \u00f3dio pela capital. N\u00e3o que a cidade o mere\u00e7a, mas h\u00e1 um acumular de situa\u00e7\u00f5es aborrecidas que v\u00e3o desgastando o pouco \u00e2nimo que resta. 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