{"id":43,"date":"2008-06-18T00:00:31","date_gmt":"2008-06-17T23:00:31","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=43"},"modified":"2010-05-25T21:42:34","modified_gmt":"2010-05-25T20:42:34","slug":"rota-turistica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/rota-turistica\/","title":{"rendered":"Rota tur\u00edstica"},"content":{"rendered":"<p>Hoje fui fazer uma visita tur\u00edstica pela capital angolana.<\/p>\n<p>A descri\u00e7\u00e3o oficial poderia ser algo assim: &#8220;Passei nos pontos mais importantes. Fui \u00e0 Fortaleza, vi o Pal\u00e1cio Presidencial, o Porto de Luanda, a f\u00e1brica da cerveja Cuca, os mercados populares, etc.&#8221;<\/p>\n<p>Mas a verdadeira hist\u00f3ria n\u00e3o tem palavras que a descrevam.<\/p>\n<p>Grande parte da visita foi nos bairros de lata (de tijolo e chapa zincada) que estrangulam Luanda. Estava \u00e0 espera de um panorama mau. Nalguns casos fui pessimista, como no amontoado das casas e na utiliza\u00e7\u00e3o de qualquer recanto para se desenvolver uma actividade econ\u00f3mica que permita subsistir. Noutros casos fui demasiado optimista. O lixo \u00e9 o maior problema de Luanda.<\/p>\n<p>A vida nos musseques \u00e9 de uma mis\u00e9ria conformada. Os bairros crescem ao longo de uma <em>vala<\/em> intranspon\u00edvel. As linhas de \u00e1gua do terreno surgem vincadas na paisagem com um tra\u00e7o escuro, na maior parte das vezes cinzento ou verde, ladeado de duas faixas claras, garridas \u00e0s vezes. Nasce um rio que separa os musseques em duas margens. \u00c9 um rio de \u00e1guas da <em>mucanha<\/em> (a \u00e1gua com que se lava os pratos e o corpo), de efluentes v\u00e1rios, de \u00f3leos e gas\u00f3leos, de restos de comida e de muito pl\u00e1stico esfarrapado. De vez em quando h\u00e1 uma liga\u00e7\u00e3o entre as margens. Na maior parte dos casos uma travessia improvisada com sucatas que j\u00e1 ningu\u00e9m quer (o que \u00e9 quase impens\u00e1vel porque aqui tudo se aproveita at\u00e9 \u00e0 completa inutilidade), que nos permite percorrer aquela meia-d\u00fazia de metros em equil\u00edbrio inst\u00e1vel sobre uma chapa com pouco mais que a largura dos p\u00e9s e chegar ao terreno seco da outra margem. Na outra margem o ch\u00e3o seco parece pantanoso. Depois percebemos que n\u00e3o pisamos terra. Caminha-se sobre uma massa de pl\u00e1sticos rasgados que se foram misturando com a lama e o p\u00f3. A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 estranha a princ\u00edpio, porque parece que se enfiou o p\u00e9 numa po\u00e7a cheia de alguma coisa muito mal-cheirosa\u2026<\/p>\n<p>As ruelas s\u00e3o tortuosas. Algumas n\u00e3o permitem o cruzamento de duas pessoas lado a lado, outras j\u00e1 s\u00e3o suficientemente largas para que n\u00e3o se consiga tocar com as m\u00e3os nas paredes e as avenidas j\u00e1 permitem a passagem de um carro.<\/p>\n<p>Crian\u00e7as brincam com garrafas de \u00f3leo e v\u00e3o-nas enchendo com a \u00e1gua que escorre no meio da rua. Todas t\u00eam um aspecto sadio e vigoroso. N\u00e3o se v\u00eaem gatos por lado nenhum. C\u00e3es h\u00e1 alguns. Todos com o habitual aspecto de rafeiro e muitos com sarna e tinha. Normalmente dormem no meio da rua, completamente desinteressados dos jogos e correrias dos putos. H\u00e1 galinhas com pintos em todos os cantos. De vez em quando aparece um pato com um ar miser\u00e1vel. Perto do aeroporto vi uma cabra e dois cabritos a pastar numa ilha de pl\u00e1stico no meio da <em>vala<\/em>. N\u00e3o sei o que comiam. N\u00e3o consigo imaginar. Ao fim do dia, perto da f\u00e1brica da Cuca, vi uma porca e dois leit\u00f5es a fo\u00e7ar no meio de um monte de lixo. A mis\u00e9ria tamb\u00e9m se v\u00ea nos animais.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o de dois brancos no meio do musseque espoleta discuss\u00f5es entre os mi\u00fados acerca de qual dos brancos \u00e9 o mais bonito. &#8220;O branco mais bonito \u00e9 o dos \u00f3culos negros!&#8221;. Na verdade o que \u00e9 mesmo bonito s\u00e3o os \u00f3culos. O branco \u00e9 indiferente\u2026<\/p>\n<p>As obras por todo o lado, que cortam estradas ao meio e interrompem liga\u00e7\u00f5es, causam o caos numa cidade j\u00e1 de si ca\u00f3tica. &#8220;Dizem que para Agosto est\u00e1 pronta\u2026 mas n\u00e3o deve ser deste ano&#8221;.<\/p>\n<p>Tirando algumas (poucas) estradas principais, todas as outras s\u00e3o uma sucess\u00e3o de buracos onde n\u00e3o se consegue distinguir muito bem onde termina um e come\u00e7a outro. No meio daquela superf\u00edcie encarquilhada vai-se navegando e progredindo sempre a passo de caracol, colado ao carro da frente, do lado, de tr\u00e1s e do outro lado. \u00c0s vezes surge uma lomba, mas \u00e9 quase chover no molhado. Nas bermas das estradas acumula-se lixo. Se houvesse asfalto quase se poderia dizer que era uma imita\u00e7\u00e3o do aspecto das <em>valas<\/em> dos musseques.<\/p>\n<p>No entanto, no meio de tanto lixo, h\u00e1 quem n\u00e3o desista. H\u00e1 varredores cuja tarefa ingl\u00f3ria \u00e9 limpar dez metros de estrada e ver que assim que acabam \u00e9 preciso recome\u00e7ar. O lixo que varreram foi substitu\u00eddo por outro fresquinho.<\/p>\n<p>Em cada rua h\u00e1 uma oficina de mec\u00e2nica e bate-chapas. Especialistas na repara\u00e7\u00e3o de tudo o que se assemelhe a um maquinismo. Por vezes usam ferramentas improvisadas, na maioria dos casos nem ferramentas usam. Um carro \u00e9 reparado, reconstru\u00eddo, transformado at\u00e9 se tornar num peda\u00e7o de chapa ferrugenta que j\u00e1 n\u00e3o se pode usar para nada. Nessa altura \u00e9 abandonado onde estiver.<\/p>\n<p>Ontem tinha falado dos vendedores de rua, que fornecem tudo. Hoje, no mercado dos congoleses, tive um panorama melhor do que \u00e9 a venda informal. Vende-se absolutamente de tudo. Vi uma banca com pregos usados\u2026 e mais n\u00e3o digo.<\/p>\n<p>Notei diferen\u00e7as marcadas entre os musseques do Sul e os do Norte. No Norte de Luanda h\u00e1 mais gente, mais confus\u00e3o. Mais candongueiros a berrar o destino e o pre\u00e7o da viagem. Mais lixo.<\/p>\n<p>Seria de esperar que as pessoas andassem sujas, mas n\u00e3o, na grande maioria andam bem arranjadas. Modestas mas arranjadas. Tirando os carregadores, oper\u00e1rios e mec\u00e2nicos, as pessoas andam limpas. Tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que aprenderam a desviar-se dos salpicos de lama, das po\u00e7as fundas e dos encostos nos carros e que o fazem de uma forma t\u00e3o autom\u00e1tica que nem se d\u00e1 por isso. Acho que se atravessasse duas ou tr\u00eas dessas ruas dava por mim coberto de lama dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a. E com lama quero dizer aquela pasta de urina, \u00f3leo e terra que corre nas ruas.<\/p>\n<p>N\u00e3o tirei fotografias. Talvez o venha a fazer. Mas nunca fariam jus ao que vi. Mas houve uma imagem que me ficou na mem\u00f3ria. Em v\u00e1rios s\u00edtios vi um mi\u00fado a correr \u00e0 frente do carro. Umas vezes descal\u00e7o, outras vezes de t\u00e9nis. Ora de cal\u00e7as, ora de cal\u00e7\u00f5es. De cabelo curto ou comprido. Pareceu-me ser uma boa imagem da vida dos angolanos das gera\u00e7\u00f5es p\u00f3s-guerra. \u00c9 preciso correr \u00e0 frente da mis\u00e9ria, n\u00e3o deixar que ela nos apanhe. Mas j\u00e1 apanhou.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais para dizer, mas desta vez fico por aqui\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje fui fazer uma visita tur\u00edstica pela capital angolana. A descri\u00e7\u00e3o oficial poderia ser algo assim: &#8220;Passei nos pontos mais importantes. Fui \u00e0 Fortaleza, vi o Pal\u00e1cio Presidencial, o Porto de Luanda, a f\u00e1brica da cerveja Cuca, os mercados populares, etc.&#8221; Mas a verdadeira hist\u00f3ria n\u00e3o tem palavras que a descrevam. 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