{"id":4360,"date":"2010-05-05T00:00:37","date_gmt":"2010-05-04T23:00:37","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=4360"},"modified":"2010-05-05T10:12:53","modified_gmt":"2010-05-05T09:12:53","slug":"o-general-a-amante-dele-e-a-casa-da-morta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/o-general-a-amante-dele-e-a-casa-da-morta\/","title":{"rendered":"O General, a amante dele e a casa da morta"},"content":{"rendered":"<p>Quando relatamos hist\u00f3rias de Angola enfrentamos um grande problema, porque quase todas se enquadram na categoria do <em>&quot;Contado, ningu\u00e9m acredita&quot;<\/em>. As que assistimos fazem-nos duvidar dos sentidos e as que ouvimos levam-nos a julgar n\u00e3o ser mais que excertos de romances rebuscados que algu\u00e9m recita tentando fazer passar por sua e ver\u00eddica a hist\u00f3ria inventada. Por isso temos de adaptar o velho ditado e, para os contos angolanos, retirar uma m\u00e3o-cheia de pontos, arriscando mesmo assim a passar por mentirosos, tamanha \u00e9 a estranheza dos epis\u00f3dios.<\/p>\n<p>Como todas as hist\u00f3rias rebuscadas, esta tem de ter um titulo sugestivo. O General, a sua amante e a casa da morta pareceu-me perfeito, uma vez que \u00e9 um bom resumo do que se passou e permite aos mais incr\u00e9dulos ou apressados passar \u00e0 frente dos detalhes, terminar a leitura por aqui e tentar imaginar uma aventura rocambolesca com estas personagens. Ficariam desiludidos por saber que nem assim, com toda a liberdade art\u00edstica poss\u00edvel, conseguiriam um conto t\u00e3o original quanto este. Mas passemos \u00e0 historia, que j\u00e1 \u00e9 velha de 35 anos e o seu estatuto de <em>mais-velha<\/em> talvez a torne menos suspeita.<\/p>\n<p>No rescaldo da ponte a\u00e9rea e com os \u00faltimos cartuchos do Kifangondo a sonorizar os dias de Luanda, a D. Rita viu-se a bra\u00e7os com uma vivenda no Bairro Oper\u00e1rio. As minhas fontes s\u00e3o omissas quanto aos anteriores propriet\u00e1rios, mas tudo me leva a crer que a casa fosse mesmo dela, de papel passado e tudo, mas que se tivesse mudado para outra mais espa\u00e7osa noutro bairro. Para n\u00e3o a deixar abandonada e convidativa a uma ocupa\u00e7\u00e3o selvagem, arrendou-a a uma fam\u00edlia, que fez da moradia o seu lar at\u00e9 aos dias de hoje.<\/p>\n<p>A ordem natural da vida ditou que a D. Rita fosse ocupar um pequeno apartamento de pinho no cemit\u00e9rio do Alto das Cruzes no princ\u00edpio da d\u00e9cada seguinte. Era uma cave, sem grandes vistas, mas a senhora j\u00e1 n\u00e3o estava em estado de reclamar muito e aceitou a situa\u00e7\u00e3o com resigna\u00e7\u00e3o. N\u00e3o deixando herdeiros directos, a casa e respectivas rendas passaram para as m\u00e3os de uma prima ou sobrinha, n\u00e3o sei bem, mas tamb\u00e9m esta, sentindo-se sozinha, mudou de resid\u00eancia para o cemit\u00e9rio sem herdeiros alguns anos mais tarde. A fam\u00edlia da moradia deixou pagar a renda, mas n\u00e3o se preocupou muito com isso, porque ningu\u00e9m a veio reclamar e herdeiros do senhorio eram t\u00e3o raros quanto as obras de conserva\u00e7\u00e3o da casa. Filhos nasceram, pais morreram, irm\u00e3os, sobrinhos e cunhados multiplicaram-se at\u00e9 uma vintena de pessoas encher a casa cada vez mais degradada. Os anos passaram-se e a guerra terminou.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"An\u00fancio para venda de casa\" border=\"0\" alt=\"An\u00fancio para venda de casa\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/conto02.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Ag\u00eancia imobili\u00e1ria<\/p>\n<p>Subitamente, um general reclamou a casa da morta como sua e queria despejar os inquilinos. N\u00e3o tinha documentos que provassem a pretens\u00e3o, mas a palavra de um militar deveria bastar, segundo exemplos do passado. Como parecia mal aplicar as t\u00e9cnicas antigas e ocupar militarmente a habita\u00e7\u00e3o, mostrou ser um homem moderno, confiante no sistema democr\u00e1tico em vigor e levou o caso a tribunal, onde o processo marinou por quase uma d\u00e9cada. Durante esse per\u00edodo, para grande al\u00edvio da fam\u00edlia, o general foi fazer companhia \u00e0s duas anteriores propriet\u00e1rias, o que leva a desconfiar de uma eventual maldi\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada pelo feiticeiro do bairro do Pau Grande aos senhorios da casa em quest\u00e3o. Desconhe\u00e7o se o feiticeiro faz parte da trama original, mas um bocadinho de mist\u00e9rio e <em>suspense<\/em> adicionais nunca fizeram mal a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria teria ficado por aqui, n\u00e3o fosse a amante do general falecido reclamar ser herdeira do mesmo e manter a causa na barra do tribunal at\u00e9 \u00e0 senten\u00e7a final. Ningu\u00e9m sabe ao certo que argumentos foram invocados, mas o juiz acabou por dar raz\u00e3o ao general, ou melhor, \u00e0 sua amante que, curiosamente, mora na casa ao lado da desta hist\u00f3ria, tornando-a muito mais emocionante. Se tiver herdeiros, o que seria uma novidade nesta hist\u00f3ria, aconselho-a vivamente a fazer um seguro de vida chorudo, porque o feiticeiro j\u00e1 come\u00e7ou a dan\u00e7ar e a recitar o feiti\u00e7o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Governam os que c\u00e1 est\u00e3o\" border=\"0\" alt=\"Governam os que c\u00e1 est\u00e3o\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/conto01.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/><em>X\u00ea, feiti\u00e7o poderoso!<\/em><\/p>\n<p>O tribunal ditou que a fam\u00edlia fosse despejada. Dizem que v\u00e3o cumprir a ordem e abandonar a casa onde muitos deles viveram desde sempre. Sentem-se injusti\u00e7ados porque, apesar de concordarem que a casa n\u00e3o \u00e9 deles, suspeitam das decis\u00f5es de um sistema que teima em beneficiar os mais ricos em detrimento dos mais pobres. Esta parte da hist\u00f3ria est\u00e3o eles fartos de ouvir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando relatamos hist\u00f3rias de Angola enfrentamos um grande problema, porque quase todas se enquadram na categoria do &quot;Contado, ningu\u00e9m acredita&quot;. As que assistimos fazem-nos duvidar dos sentidos e as que ouvimos levam-nos a julgar n\u00e3o ser mais que excertos de romances rebuscados que algu\u00e9m recita tentando fazer passar por sua e ver\u00eddica a hist\u00f3ria inventada. 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