{"id":4403,"date":"2010-05-15T00:00:00","date_gmt":"2010-05-14T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=4403"},"modified":"2010-05-15T00:00:00","modified_gmt":"2010-05-14T23:00:00","slug":"a-minha-me-negra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-minha-me-negra\/","title":{"rendered":"A minha M&atilde;e negra"},"content":{"rendered":"<p>A minha M\u00e3e negra n\u00e3o \u00e9 minha m\u00e3e, mas por um ser\u00e3o s\u00f3 e ainda que emprestada, foi minha M\u00e3e.<\/p>\n<p>A <em>m\u00e3e<\/em> L\u00facia, por um ser\u00e3o apenas e ainda que emprestada, foi minha M\u00e3e. Dizem que M\u00e3e h\u00e1 s\u00f3 uma, mas agora tenho duas, que me olham com os mesmos olhos. Tenho de as distinguir e por isso, \u00e0 <em>m\u00e3e<\/em> L\u00facia chamo minha M\u00e3e negra, mesmo sabendo que a minha M\u00e3e negra n\u00e3o tem cor, ou tem a cor da outra, sei l\u00e1. A minha M\u00e3e negra n\u00e3o tem cor, porque \u00e9 inaudito que M\u00e3e tenha cor aos olhos dos filhos. M\u00e3e \u00e9 M\u00e3e e tem cor de M\u00e3e.<\/p>\n<p>A minha M\u00e3e negra e m\u00e3e de muitos filhos, mas nenhum deles lhe chama m\u00e3e negra. Chamam-lhe apenas M\u00e3e porque \u00e9 a \u00fanica que t\u00eam.<\/p>\n<p>Conheci a <em>m\u00e3e<\/em> L\u00facia na Gabela, onde iria pernoitar numa viagem de regresso do Huambo. O meu companheiro de aventuras e grande amigo chama \u00e0 minha M\u00e3e negra apenas M\u00e3e, n\u00e3o s\u00f3 porque o trouxe ao mundo, mas tamb\u00e9m porque sente que ela \u00e9 M\u00e3e de verdade. Cheg\u00e1mos ao cair da noite e fomos-lhe fazer uma visita antes que fosse muito tarde. Acab\u00e1mos por s\u00f3 nos separar no dia seguinte, depois de recusar terminantemente que dormisse na pens\u00e3o ao mesmo tempo que me perfilhava \u2018\u2019<em>Eu sou M\u00e3e e M\u00e3e n\u00e3o deixa que os filhos durmam em casa de estranhos. As condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o muitas, mas h\u00e1 s\u00edtio para dormires.\u2019\u2019<\/em><\/p>\n<p>A minha M\u00e3e negra diz que gosta de umas <em>biricocas<\/em> ao fim do dia, especialmente nos mais quentes, que na Gabela s\u00e3o s\u00f3 no Ver\u00e3o. Diz que lhe solta a l\u00edngua e a gargalhada, porque para tristezas basta a vida. Abra\u00e7a-me com olhos brilhantes e mostra-me as fotografias dos filhos, aqueles que olha com os mesmos olhos que me olha a mim. Ri-se quando repara que tenho um sinal na cara igual ao da filha mais velha e continua \u00e0 procura de mais fotografias.<\/p>\n<p>Em mais de seis d\u00e9cadas de vida, ficou vi\u00fava duas vezes por causa de outros tantos desastres de autom\u00f3vel, um em 1967 e outro em 1994. Fala das carreiras dos filhos, desde o mais novo, a terminar a universidade, \u00e0 mais velha, a sua mulatinha que est\u00e1 no Brasil, filha do primeiro marido, que era branco. O meu Irm\u00e3o \u00e9 o filho mais velho da minha M\u00e3e e vai acenando ao ouvir falar da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Enquanto me julga distra\u00eddo com a paisagem l\u00e1 fora, manda um dos netos comprar um sabonete e ele reclama que ainda h\u00e1.<\/p>\n<p>\u2018\u2019<em>Vai comprar um novo. V\u00e1, vai depressa.\u2019\u2019<\/em><\/p>\n<p><em>\u2018\u2019\u2019T\u00e1, d\u00e1 cem.<\/em>\u2019\u2019<\/p>\n<p><em>\u2019\u2019N\u00e3o, desse n\u00e3o. Traz do outro.\u2019\u2019<\/em><\/p>\n<p>Minutos depois, o neto voltou e correu para a casa de banho onde deixou um <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=381\" target=\"_blank\">sabonete Lux<\/a> no canto da banheira. Fui nomeado como o primeiro a tomar banho. Julguei que para ter a honra de estrear o sabonete, mas depois percebi que teria a honra de estrear a \u00e1gua. \u2018\u2019<em>A guerra\u2019\u2019<\/em>, diz a minha M\u00e3e, \u2018\u2019<em>estragou tudo, mas n\u00e3o olhes \u00e0 pobreza.\u2019\u2019<\/em>. N\u00e3o olhei \u00e0 pobreza de ter de levar a \u00e1gua \u00e0 cabe\u00e7a para casa, mas olhei \u00e0 riqueza de a partilhar comigo.<\/p>\n<p>A minha M\u00e3e da Gabela continuou a contar a sua hist\u00f3ria e as hist\u00f3rias que lhe entraram pela casa adentro quando havia tiros nas ruas e todos se refugiavam na primeira porta que encontravam. Explica tamb\u00e9m que tem pena de n\u00e3o poder dar mais, mas n\u00e3o sobrou muito. D\u00e1 mais do que tem, asseguro-lhe. Sorri-me e olha para o filho, cada vez mais parecido com o pai, que lhe sorri de volta porque a gosta de ver contente.<\/p>\n<p>Entretanto, surge um colch\u00e3o no ch\u00e3o da sala. \u00c9 para mim. Alguma coisa se havia de arranjar, diz a minha M\u00e3e, com um brilho nos olhos. Parte das bananas e abacates que troux\u00e9mos connosco fazem de jantar, porque alguma coisa se havia de arranjar, rimos uns para os outros.<\/p>\n<p>Pergunta-me pela fam\u00edlia, pela minha outra M\u00e3e, pela mulher. Quando sabe que est\u00e1 do outro lado do mundo avisa-me que tenho de voltar depressa \u2018\u2019<em>Olha que as pretinhas gostam muito dos brancos!<\/em>\u2019\u2019 e depois desatou a rir com gosto enquanto me piscava o olho.<\/p>\n<p>Fez-se tarde. O meu irm\u00e3o ficou com o sof\u00e1. Eu fiquei com o colch\u00e3o e os dois netos adormeceram em frente \u00e0 televis\u00e3o que j\u00e1 s\u00f3 passava chuva, enroscados nos sof\u00e1s mais pequenos.<\/p>\n<p>No dia seguinte despedimo-nos com um abra\u00e7o apertado e sentido, um abra\u00e7o de M\u00e3e. Agradeceu-me por ter aceite partilhar o pouco que t\u00eam, mas eu \u00e9 que me sinto grato por ter encontrado outra M\u00e3e, coisa que dizem n\u00e3o haver mais que uma. Deixei a Gabela com o cora\u00e7\u00e3o apertado, cheio de vontade de n\u00e3o partir nunca.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A minha M\u00e3e negra n\u00e3o \u00e9 minha m\u00e3e, mas por um ser\u00e3o s\u00f3 e ainda que emprestada, foi minha M\u00e3e. A m\u00e3e L\u00facia, por um ser\u00e3o apenas e ainda que emprestada, foi minha M\u00e3e. Dizem que M\u00e3e h\u00e1 s\u00f3 uma, mas agora tenho duas, que me olham com os mesmos olhos. 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