{"id":4427,"date":"2010-05-23T00:00:00","date_gmt":"2010-05-22T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=4427"},"modified":"2013-06-05T10:45:46","modified_gmt":"2013-06-05T09:45:46","slug":"bonga-o-soba-do-mercado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/bonga-o-soba-do-mercado\/","title":{"rendered":"O mais-velho do mercado"},"content":{"rendered":"<p>Desta vez, quem pagou as cervejas foi o <a title=\"Artigo: O esquivo mexerico\" href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1885\" target=\"_blank\">pr\u00f3prio Soba<\/a>, para continuar a conversa com mais calma.<\/p>\n<p>Em frente \u00e0 banca do sobrinho, onde estiv\u00e9mos a ver as \u00faltimas novidades nas est\u00e1tuas produzidas na oficina familiar, come\u00e7\u00e1mos a falar das terras de onde vinham. A fam\u00edlia do <em>mais-velho<\/em> B. era quase toda de M&#8217;Banza Congo &#8211; antigamente chamada S\u00e3o Salvador do Zaire, fez quest\u00e3o de frisar. Vieram para Luanda pelas mesmas raz\u00f5es que tantos outros e montaram uma oficina no Sambizanga, \u00ab<em>um quintal com umas mesas, para se trabalhar \u00e0 sombra<\/em>\u00bb. A madeira vem toda da prov\u00edncia, em troncos grandes e depois trabalham-na c\u00e1.<\/p>\n<p>Ele e o sobrinho ainda n\u00e3o se habituaram aos h\u00e1bitos alimentares de Luanda. Aqui at\u00e9 comem as ramas das batatas e das ab\u00f3boras. Nem mesmo a <em>jimboa<\/em>, que tem uma folha parecida com o que o <em>mais-velho<\/em> me desenhou no ch\u00e3o, sabe ao mesmo. A de Luanda \u00e9 amarga, por causa da \u00e1gua cheia de lixo com que a regam. E n\u00e3o queriam acreditar quando viram gente a comer a <em><del>gingueja<\/del> gajaja<\/em> com <em>jindungo<\/em>. O meu amigo G. j\u00e1 me avisou que tem um sabor horroroso e que lhe costuma chamar a fruta das gajas, porque s\u00f3 as gr\u00e1vidas \u00e9 que comem daquilo quando est\u00e3o com os apetites.<\/p>\n<p>Perguntei-lhe pelos <a title=\"Artigo: Artes\u00e3os\" href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3847\" target=\"_blank\">artes\u00e3os<\/a> que conheci no final do ano, que trabalham nas traseiras do mercado do S\u00e3o Paulo. S\u00e3o refugiados das Lundas, de onde veio o s\u00edmbolo do <em>Pensador<\/em>, e est\u00e3o \u00e0 espera que o <a title=\"Artigo: O Governo tem que dar\" href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3812\" target=\"_blank\">Governo lhes d\u00ea casa<\/a>, mas s\u00f3 fazem coisas simples, como os batuques e os pil\u00f5es, para n\u00e3o morrerem de fome enquanto esperam. Artistas, garante, s\u00e3o os povos do norte. A sul apenas admite a excep\u00e7\u00e3o das gentes do Lubango, porque os restantes n\u00e3o sabem esculpir bem.<\/p>\n<p>Pelo que conhe\u00e7o, os povos do sul n\u00e3o sabem trabalhar madeiras tropicais porque n\u00e3o as t\u00eam, mas fazem pe\u00e7as escult\u00f3ricas impressionantes com outros materiais.<\/p>\n<p>J\u00e1 sentados \u00e0 sombra e com tr\u00eas Cucas \u00e0 frente, daquelas em garrafa de xarope, continuou a falar da sua terra. Antigamente tinham at\u00e9 um Rei do Congo em M&#8217;Banza Congo, que recebia os impostos do Gab\u00e3o at\u00e9 ao Congo da B\u00e9lgica &#8211; \u00ab<em>Democr\u00e1tico<\/em>\u00bb corrigiu.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"display: inline; border: 0px;\" title=\"Cuca\" alt=\"Cuca\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/Soba1.jpg\" width=\"400\" height=\"600\" border=\"0\" \/><br \/>\nCuca fresquinha<\/p>\n<p>Lembra-se do princ\u00edpio dos anos sessenta, quando tinha catorze ou quinze anos e havia farras sempre que o Benfica ou o Belenenses ganhavam. O Benfica porque era o Benfica e o Belenenses porque havia um patrocionador da equipa na cidade que dava emprego a muita gente. Lembra-se de quase todas as equipas portuguesas da \u00e9poca, mas garante que \u00e9 do Benfica, porque antes, essas equipas do Petro e do 1\u00ba de Agosto n\u00e3o existiam. \u00ab<em>Depois veio o MPLA e acabou-se as farras&#8230;\u00bb<\/em> acrescentou, desgostoso.<\/p>\n<p>Gosta de ouvir kuduro, mas deixa a dan\u00e7a para as crian\u00e7as, com aquela coisa de dar \u00e0s pernas e aos bra\u00e7os sem jeito. Depois ainda come\u00e7avam a falar \u00ab<em>Olha o <\/em>mais-velho<em> a dan\u00e7ar kuduro&#8230;<\/em>\u00bb Nas festas, gosta \u00e9 de dan\u00e7ar kizombas, sembas e tarrachinhas. M\u00fasica boa para dan\u00e7ar \u00e9 a do Bonga e tamb\u00e9m a l\u00e1 do sul, que tem o ritmo certo, o ritmo que pede para puxar a catorzinha contra o peito \u00ab<em>Catorzinha, \u00e9 como quem diz&#8230; dan\u00e7ar com uma <\/em>m&#8217;boa<em> contra o peito&#8230;<\/em>\u00bb<\/p>\n<p>Enquanto pede mais uma rodada \u00e0 mo\u00e7a, diz que bebe uma grade de cerveja por dia. Duas ou tr\u00eas de cada vez, porque se beber todas juntas come\u00e7a a falar \u00e0 toa e a ver filmes. Mas n\u00e3o s\u00e3o os filmes de agora, dos chineses, com os karat\u00e9s. S\u00e3o os filmes com o Alain Delon, que o deixou muito triste saber que tinha morrido, os do Cantinflas, porque o Mario Moreno era um artista e os do Trinit\u00e1, que comia os feij\u00f5es com a colher de pau e o Bud Spencer que estava sempre a partir as cabe\u00e7as dos bandidos.<\/p>\n<p>Naquela altura, eram filmes para maiores de 16 anos e n\u00e3o os deixavam entrar no clube nem mesmo pedindo com jeito. O \u00fanico rem\u00e9dio era subir \u00e0s \u00e1rvores para ver a fita por cima do muro, porque o filme era projectado num ecr\u00e3 montado sobre o campo de futebol de sal\u00e3o. Havia sempre o problema de serem apanhados pelos pol\u00edcias, que j\u00e1 lhes conheciam as manhas e os mandavam descer da \u00e1rvore e os levavam para a esquadra enquanto o filme n\u00e3o terminasse. Mas eles j\u00e1 tinham a li\u00e7\u00e3o estudada e o primeiro a descer sabia que tinha de se deixar cair em cima do pol\u00edcia, para que conseguissem todos fugir no meio da confus\u00e3o. Outras vezes, aproveitavam um buraco debaixo do muro do clube e entravam. Depois diziam que iam \u00e0 casa de banho, mesmo ao lado da plateia do cinema, e ficavam at\u00e9 ao fim.<\/p>\n<p>O <em>mais-velho<\/em> gosta de reviver esses filmes com quem os conhece, mas os amigos da idade dele come\u00e7am a escassear e contar os filmes da meninice aos mais novos n\u00e3o tem piada nenhuma porque eles n\u00e3o viram, nem sabem como era. Nem a mulher, com 38 anos se lembra deles. Bem procura esses filmes antigos, mas agora j\u00e1 s\u00f3 h\u00e1 dos chineses e dos outros, os pornogr\u00e1ficos, que eram proibidos. Ele acha mal que se vendam assim, mas j\u00e1 \u00e9 velho e os novos t\u00eam outras vidas e aprendem outras coisas. A prop\u00f3sito de aprender, lembrou-se ainda de tempos mais antigos, de quando andava na escola e lamenta-se \u00ab<em>No meu tempo, as crian\u00e7as iam para a escola e davam-lhes leite e um p\u00e3o com manteiga, mas agora, os netos v\u00e3o \u00e0 escola do Governo e, se n\u00e3o lhes dermos cinquenta kwanzas para chupar um gelado ou comer um p\u00e3o sem nada, passam fome.<\/em>\u00bb<\/p>\n<p>Calhou em conversa falar de tabaco e de haver poucas pessoas a fumar. Garante que h\u00e1 muitas, mas \u00ab<em>n\u00e3o fumam a toda a hora, como os chineses, que devem fumar dez ma\u00e7os por dia<\/em>\u00bb. Fumam muito e trabalham muito, mas n\u00e3o gosta deles, que vieram tirar os trabalhos todos aos angolanos. Quando passam pela banca, manda-os seguir para outra. \u00ab<em>O Z\u00e9 D\u00fa \u00e9 que gosta de chineses. Eu n\u00e3o.<\/em>\u00bb<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"display: inline; border: 0px;\" title=\"Mais-velho fumando cachimbo\" alt=\"Mais-velho fumando cachimbo\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/Soba2.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" border=\"0\" \/><br \/>\nO <em>mais-velho<\/em> a fumar<\/p>\n<p>Continuando a conversa em torno dos v\u00edcios, disse que tem saudades do vinho de barril, daquele que se tirava com a torneirinha, mas agora j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1. O de pacote n\u00e3o sabe ao mesmo e \u00e9 mais caro. Lembra-se de quando se mudou para o N&#8217;Zeto, alguns anos depois de ver os filmes pendurado nas \u00e1rvores, e dos pescadores que voltavam do mar e paravam na loja para comprar meio litro de vinho por meio tost\u00e3o, porque na altura tudo se comprava nas lojas e um escudo valia muito.<\/p>\n<p>\u00ab<em>Queria-se farinha, ia-se na loja. Queria-se sab\u00e3o, ia-se na loja. Queria-se vinho, ia-se na loja. Tudo na loja. N\u00e3o era como agora, que se tem de ir nos mercados das esquinas. Era tudo na loja. S\u00f3 a fruta se comprava fora.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>A prop\u00f3sito do dinheiro dessa altura, enumera algumas moedas, como quem imagina o que comprava com elas, mas quando fala em vinte escudos, at\u00e9 se inclina para tr\u00e1s com os olhos bem abertos para dizer que era \u00ab<em>muuuito dinheiro!<\/em>\u00bb. \u00ab<em>E cinquenta escudos era tanto, que se encontrassem um rapaz de catorze ou quinze anos com uma nota de 50$00, levavam-no para a cadeia at\u00e9 l\u00e1 ir o pai dele explicar de onde tinha vindo todo aquele dinheiro&#8230;<\/em>\u00bb<\/p>\n<p>Como nos v\u00ea a beber devagarinho, diz que isso se cura bem com pau-de-cabinda, que d\u00e1 for\u00e7a em tudo, at\u00e9 no beber cerveja. De vez em quando surpreende a mulher, mais nova trinta anos, quando chega a casa e lhe pergunta \u00ab<em>Diz que o pau de cabinda \u00e9 bom para dar for\u00e7a. Queres experimentar e depois ir no quarto ver se faz efeito?<\/em>\u00bb Ri-se e garante que ela gosta da diferen\u00e7a!<\/p>\n<p>(nota: correc\u00e7\u00e3o da ortografia de gajaja em 05\/06\/2013 &#8211; fonte blog <a title=\"Angola - Debates e Ideias\" href=\"http:\/\/angodebates.blogspot.pt\/2013\/06\/flash.html\" target=\"_blank\">Angola &#8211; Debates e Ideias<\/a>, de Gociante Patissa)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desta vez, quem pagou as cervejas foi o pr\u00f3prio Soba, para continuar a conversa com mais calma. Em frente \u00e0 banca do sobrinho, onde estiv\u00e9mos a ver as \u00faltimas novidades nas est\u00e1tuas produzidas na oficina familiar, come\u00e7\u00e1mos a falar das terras de onde vinham. A fam\u00edlia do mais-velho B. era quase toda de M&#8217;Banza Congo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1,14,859,254,360,858],"tags":[110,688,3,9,658,119,160,812],"class_list":["post-4427","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-angola","category-luanda","category-mbanza_congo","category-mercado-de-arte","category-provincia-de-luanda","category-prov-zaire","tag-arte","tag-artesaos","tag-gentes","tag-historia","tag-historias","tag-mais-velho","tag-marcas-do-passado","tag-sobas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4427","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4427"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4427\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4431,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4427\/revisions\/4431"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4427"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4427"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4427"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}