{"id":444,"date":"2008-08-03T00:00:15","date_gmt":"2008-08-02T23:00:15","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=444"},"modified":"2009-08-08T22:32:05","modified_gmt":"2009-08-08T21:32:05","slug":"guerra-de-cobardes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/guerra-de-cobardes\/","title":{"rendered":"Guerra de cobardes"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0 medida que me afastava da costa de Benguela, subindo lentamente para os planaltos da prov\u00edncia e penetrava no que foi uma das frentes mais importantes da \u00faltima guerra, come\u00e7ou a descer um cacimbo sobre tudo. N\u00e3o era s\u00f3 o cacimbo f\u00edsico, com as brumas que escondem os montes e as estradas. Era tamb\u00e9m um cacimbo espiritual, que embrutece as pessoas na sua rela\u00e7\u00e3o com a terra. Numa terra com paisagens t\u00e3o grandes que nem cabem nos olhos e muito menos em descri\u00e7\u00f5es justas por n\u00e3o haver palavras t\u00e3o abrangentes, nem sei bem como descrever a sensa\u00e7\u00e3o de ver um horizonte quase infinito ser subitamente amputado. Sim, amputado. Esta \u00e9 a palavra correcta. De que outro modo posso explicar o que significa aquele muro invis\u00edvel sinalizado apenas por um pequeno e triste letreiro branco e vermelho que anuncia a terra de ningu\u00e9m?<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1304-guerradecob1.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nAlto!<\/p>\n<p>S\u00e3o apenas duas pequenas palavras que nos roubam tudo. Toda aquela paisagem est\u00e1 do lado de fora do nosso universo. N\u00e3o lhe podemos tocar, n\u00e3o a podemos deixar entrar em n\u00f3s. \u00c9 apenas uma miragem. Uma miragem particularmente perigosa por ser muito real e nos seduzir com o fruto proibido.<\/p>\n<p>As gentes que convivem com este drama j\u00e1 se habituaram a ter \u00e1reas vazias na paisagem. S\u00e3o locais cuja dist\u00e2ncia f\u00edsica \u00e9 min\u00fascula, mas ficam t\u00e3o longe\u2026 Os seus mapas mentais apresentam vastas \u00e1reas em que se poderia escrever <em>Hic Sunt Leones<\/em>, como nos mapas romanos. Nas serras angolanas ficamo-nos por um <em>Hic Sunt Minae<\/em>.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1304-guerradecob2.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nCuidado<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1304-guerradecob3.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nAten\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A toda a volta da cidade h\u00e1 marcos brancos a indicar zonas livres de minas, com o s\u00edmbolo da <em>The Halo Trust<\/em>. Ao longo das estradas v\u00e3o aparecendo avisos acerca dos progressos e dos cuidados a ter durante a viagem.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1304-guerradecob4.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nZona segura<\/p>\n<p>A caveira que aparece desenhada nalguns avisos mostra um sorriso sarc\u00e1stico que n\u00e3o percebemos ser para dar um ar simp\u00e1tico \u00e0quele cr\u00e2nio de olhos vazios ou a vangloriar-se pelas minas que l\u00e1 deixou\u2026<\/p>\n<p>Mas at\u00e9 mesmo nas zonas minadas h\u00e1 trilhos usados para aceder \u00e0s lavras. N\u00e3o conv\u00e9m pisar fora do caminho, n\u00e3o v\u00e1 ficar l\u00e1 uma perna ou uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1304-guerradecob5.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nUm p\u00e9 atr\u00e1s do outro<\/p>\n<p>Em todas as guerras, quem fica no meio \u00e9 que sofre. Mas na guerra de minas, revestida de camadas espessas de hipocrisia e ego\u00edsmo, os \u00fanicos que sofrem verdadeiramente s\u00e3o os que nunca tiveram nada a ver com as motiva\u00e7\u00f5es da guerra. Quem coloca as minas f\u00e1-lo sempre em terra alheia porque o seu quintal \u00e9 sagrado. Colocam-se minas por interesses estrat\u00e9gicos, por repres\u00e1lia ou s\u00f3 porque sim. Paga-se um sentimento de seguran\u00e7a militar com os p\u00e9s, as pernas e as vidas de quem da terra tirava o sustento e agora colhe a morte.<\/p>\n<p>Uma vez minada, uma \u00e1rea passa a ser a terra de ningu\u00e9m. Os inimigos n\u00e3o a v\u00e3o reclamar, com medo de perder for\u00e7as. A localiza\u00e7\u00e3o das minas vai sendo esquecida \u00e0 medida que o tempo passa e at\u00e9 mesmo os ocupantes perdem acesso \u00e0 terra que queriam sua. Os lavradores passam a arriscar a vida sempre que tentam cultivar a terra dos seus antepassados.<\/p>\n<p>A localiza\u00e7\u00e3o de uma \u00fanica mina vai-se diluindo com o passar dos anos e os poucos cent\u00edmetros perigosos iniciais acabam por crescer e tornar suspeitas \u00e1reas imensas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1304-guerradecob6.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nVis\u00e3o recorrente<\/p>\n<p>Mesmo nas \u00e1reas marcadas como seguras paira no ar a pergunta &#8220;E se deixaram escapar alguma?&#8221;. Damos por n\u00f3s a procurar instintivamente as pegadas de quem nos antecede, com a esperan\u00e7a de que isso nos salve de um perigo amplificado pela d\u00favida e pela imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1304-guerradecob7.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nZonas seguras, acho<\/p>\n<p>Aldeias inteiras sucumbiram \u00e0 amea\u00e7a das minas. Com as lavras interditas, as estradas cortadas e os caminhos sempre sob suspeita, as casas acabaram por ser abandonadas. Entre perder a casa ou um membro, a escolha \u00e9 simples.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo os Caminhos de Ferro de Benguela pereceram \u00e0s minas, estrangulados e dominados por pequenas caixas enterradas.<\/p>\n<p>Mas a guerra de cobardes n\u00e3o se faz s\u00f3 com minas, faz-se tamb\u00e9m com a destrui\u00e7\u00e3o de pontes e estradas, com a demoli\u00e7\u00e3o de infra-estruturas essenciais como centrais el\u00e9ctricas ou dep\u00f3sitos de \u00e1gua ou linhas de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1304-guerradecob8.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nDeita-se a ponte abaixo e mina-se as margens do rio<\/p>\n<p>O que define este tipo de guerra \u00e9 que as consequ\u00eancias de todos os actos, pouco ou nenhum efeito t\u00eam sobre as for\u00e7as do advers\u00e1rio, mas s\u00e3o devastadores sobre as popula\u00e7\u00f5es das \u00e1reas ocupadas. Aquelas que o ocupante deveria proteger e acarinhar\u2026<\/p>\n<p>O pior \u00e9 que quem alimentou a guerra, fornecendo meios para que as partes em conflito pudessem continuar a lutar em prol de um sonho de hegemonia imperial de uma qualquer super-pot\u00eancia, nem se preocupou com o que se passava c\u00e1. As minas est\u00e3o longe, l\u00e1 na \u00c1frica e os p\u00e9s em falta s\u00e3o de gente sem dinheiro e da cor errada. Tanto sofrimento s\u00f3 para decidir quem bebe vodka e quem bebe cola.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1304-guerradecob9.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nNo fim do horizonte<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0 medida que me afastava da costa de Benguela, subindo lentamente para os planaltos da prov\u00edncia e penetrava no que foi uma das frentes mais importantes da \u00faltima guerra, come\u00e7ou a descer um cacimbo sobre tudo. 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