{"id":4450,"date":"2010-05-16T00:00:00","date_gmt":"2010-05-15T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=4450"},"modified":"2010-05-11T21:15:14","modified_gmt":"2010-05-11T20:15:14","slug":"catato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/catato\/","title":{"rendered":"Catato"},"content":{"rendered":"<p>Os japoneses s\u00e3o um povo com h\u00e1bitos t\u00e3o arreigados que, mesmo quando saem do Jap\u00e3o, procuram n\u00e3o sair da zona de conforto. Viajam em grupo, com outros japoneses, com quem podem falar Japon\u00eas e partilhar refei\u00e7\u00f5es japonesas. S\u00e3o conhecidos por tirar muitas fotografias aos s\u00edtios por onde passam. Julgo que os \u00e1lbuns fotogr\u00e1ficos que levam para casa apenas demonstrem que o resto do mundo fervilha de japoneses vestidos de cores garridas e ar espantado. Salvo <a title=\"Di\u00e1rio da \u00c1frica: Tem japon\u00eas no fado\" href=\"http:\/\/www.diariodaafrica.com\/2010\/04\/tem-japones-no-fado.html\" target=\"_blank\">raras excep\u00e7\u00f5es<\/a>, mesmo que viajados, pouco mais conhecem que peda\u00e7os do Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem venha para Angola e se sinta como em casa, sem nunca notar as desigualdades sociais, a falta de infra-estruturas ou na sombra dos embondeiros. S\u00e3o os que vivem nas bolhas de ar condicionado e motorista que os leva da bolha do condom\u00ednio privado at\u00e9 \u00e0 bolha do escrit\u00f3rio na torre de vidro. Nunca chegam a entender o preg\u00e3o das peixeiras, por seguirem o exemplo nip\u00f3nico da interac\u00e7\u00e3o com outras culturas.<\/p>\n<p>Vir para um pa\u00eds diferente e n\u00e3o fazer sequer um esfor\u00e7o para perceber quem s\u00e3o as suas gentes e provar a sua comida, \u00e9 um atentado \u00e0 intelig\u00eancia. Sem viver as coisas, \u00e9 dif\u00edcil perceb\u00ea-las.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem leve o provar a comida e a interac\u00e7\u00e3o cultural a outros extremos, provando a fruta que n\u00e3o cresce nas \u00e1rvores e <a title=\"Artigo: Quem prova a \u00e1gua do Bengo\" href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=245\" target=\"_blank\">bebendo a \u00e1gua do Bengo<\/a> sem modera\u00e7\u00e3o, acabando por se aculturar de tal maneira que j\u00e1 n\u00e3o regressa a casa.<\/p>\n<p>Como as coisas se devem apreciar com conta, peso e medida e no meio \u00e9 que est\u00e1 a virtude, tenho procurado que a minha experi\u00eancia seja suficientemente abrangente para que perceba quem s\u00e3o os angolanos. Na vertente gastron\u00f3mica da terra, <a title=\"Artigo: Batendo o funge\" href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1677\" target=\"_blank\">provei os funges<\/a> de <em>bomb\u00f3<\/em>, de milho branco e amarelo, o cabrit\u00e9, as muambas, os mufetes e os calulus, as carnes e peixes secos, o veado e a paca, entre muitas outras coisas que j\u00e1 esqueci. De uns gostei mais, de outros menos, mas provei-os e posso emitir a minha opini\u00e3o.<\/p>\n<p>O esfor\u00e7o exigido para esta tarefa foi maior ou menor consoante o grau de familiaridade com a terra e as gentes, as expectativas ou, nalguns casos, o n\u00famero de moscas em volta. Mas h\u00e1 dias em que o morrer est\u00fapido quase vence a curiosidade. O verdadeiro teste chegou no dia em que provei Catato, coisa que, antes de provar, me disseram que sabia a Catato, e depois de provar, apenas sou capaz de repetir a resposta. Catato sabe a Catato e, se ajudar, \u00e9 um pouco gorduroso.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"display: inline; border-width: 0px;\" title=\"Catato, larvas fritas\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/Catato.jpg\" border=\"0\" alt=\"Catato, larvas fritas\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nCatato<\/p>\n<p>Catato s\u00e3o larvas carnudas fritas. H\u00e1 que p\u00f4r de lado algumas pr\u00e9-concep\u00e7\u00f5es para as experimentar e, para algumas pessoas, ser\u00e1 certamente um salto de f\u00e9 prov\u00e1-las. N\u00e3o \u00e9 um prato particularmente saboroso, mas \u00e9 nutritivo e, em caso de necessidade, come-se sem pensar duas vezes.<\/p>\n<p>O dia em que comi larvas em Angola ser\u00e1 mais uma hist\u00f3ria colorida para contar \u00e0 fam\u00edlia, mas j\u00e1 imagino algumas pessoas a fugir s\u00f3 de imaginar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os japoneses s\u00e3o um povo com h\u00e1bitos t\u00e3o arreigados que, mesmo quando saem do Jap\u00e3o, procuram n\u00e3o sair da zona de conforto. Viajam em grupo, com outros japoneses, com quem podem falar Japon\u00eas e partilhar refei\u00e7\u00f5es japonesas. S\u00e3o conhecidos por tirar muitas fotografias aos s\u00edtios por onde passam. 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