{"id":4472,"date":"2010-05-22T00:00:00","date_gmt":"2010-05-21T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=4472"},"modified":"2010-05-15T11:04:14","modified_gmt":"2010-05-15T10:04:14","slug":"o-carro-do-tio-de-luanda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/o-carro-do-tio-de-luanda\/","title":{"rendered":"O carro do tio de Luanda"},"content":{"rendered":"<p>Luanda, durante muitos anos, foi ref\u00fagio de guerra mais ou menos volunt\u00e1rio para os angolanos. Uns fugiram para a capital, outros foram para l\u00e1 empurrados, juntando milh\u00f5es de refugiados a algumas centenas de milhar de habitantes originais. A cidade foi crescendo em c\u00edrculos conc\u00eantricos, com as casas a apertarem-se cada vez mais umas nas outras \u00e0 medida que se aproximam das avenidas asfaltadas.<\/p>\n<p>A guerra acabou h\u00e1 quase uma d\u00e9cada, mas as pessoas n\u00e3o deixaram de vir para Luanda. A reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 instant\u00e2nea e entre ficar numa terra desolada na prov\u00edncia ou aproveitar a circula\u00e7\u00e3o mais facilitada pelas estradas sem patrulhas militares e partir para a cidade grande, a escolha \u00e9 \u00f3bvia. Por muito mal que se viva em Luanda, \u00e9 melhor que no interior, com minas e abandono, pensam as gentes.<\/p>\n<p>O fasc\u00ednio que Luanda exerce nos angolanos, apesar de todos saberem que \u00e9 desumana, suja e corrupta, \u00e9 t\u00e3o forte que a trocam por tudo. Luanda \u00e9 sin\u00f3nimo de dinheiro e oportunidades para todas as classes sociais.<\/p>\n<p>H\u00e1 tempos ouvi a hist\u00f3ria de Evandro, um jovem desempregado que morava nas terras do sul, no munic\u00edpio de &#8216;Njiva. A sua aldeia era das mais pequenas da regi\u00e3o e n\u00e3o podia crescer mais, pois as \u00faltimas casas estavam no limite da chana que todos os Ver\u00f5es se alaga durante umas semanas. Numa terra sem oportunidades, nem sequer para construir uma casa, esperava apenas um motivo para partir.<\/p>\n<p>Tinha um tio em Luanda que h\u00e1 v\u00e1rios anos n\u00e3o dava sinais de vida, de tal forma que o tomavam como morto. Certo dia souberam que estavam enganados e que o tio tinha estado vivo at\u00e9 \u00e0 semana anterior, altura em que foi atropelado por um candongueiro na estrada de Viana.<\/p>\n<p>Nem tudo eram m\u00e1s not\u00edcias, porque tinha deixado uma heran\u00e7a substancial &#8211; um carro e um neg\u00f3cio de entregas. Evandro, apesar de n\u00e3o ser o herdeiro mais directo, foi o que se mostrou mais entusiasmado e resolveu partir para tomar conta do neg\u00f3cio e, acima de tudo, do carro, que at\u00e9 lhe fazia brilhar os olhos. O pai aconselhou-o a que vendesse tudo e regressasse, mas o fasc\u00ednio de Luanda foi mais forte. O tio tinha ido para a cidade e a vida correu-lhe t\u00e3o bem que at\u00e9 j\u00e1 tinha um carro. Ele, mais novo, havia de conseguir ser ainda mais bem-sucedido.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Jantes com cifr\u00f5es\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/12\/jantescifrao.jpg\" border=\"0\" alt=\"Jantes com cifr\u00f5es\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nO carro do tio<\/p>\n<p>Partiu para Luanda, gastando todas as economias da fam\u00edlia em passagens de autocarro e t\u00e1xis. Na altura, as estradas estavam em t\u00e3o mau estado que demorou mais de uma semana a cruzar o Kwanza e entrar na cidade pela curva do Morro dos Veados, de olhos esbugalhados. Seguindo as indica\u00e7\u00f5es pouco precisas dadas na descri\u00e7\u00e3o da heran\u00e7a, acabou por encontrar a rua certa, no bairro da Terra Nova, encostada \u00e0 linha de comboio.<\/p>\n<p>De pergunta em pergunta encontrou a casa do tio. N\u00e3o era a casa luxuosa que tinha imaginado, nem t\u00e3o grande. Na verdade, era mais pequena que a da aldeia. Pedras grandes seguravam um telhado de chapa com muitos furos e as paredes de blocos velhos come\u00e7avam a entortar. A not\u00edcia da morte do tio tinha resultado num verdadeiro saque da casa das coisas mais pequenas no tempo que o Evandro demorou a chegar. Dormiu na cama sem colch\u00e3o, com um len\u00e7ol emprestado pela vizinha. No dia seguinte trataria de ver o carro que lhe enchia os sonhos. J\u00e1 se imaginava a conduzir o b\u00f3lide vermelho com uma risca preta na porta e umas rodas bonitas.<\/p>\n<p>Acordou e perguntou pelo carro do tio. Apontaram-lhe para umas t\u00e1buas pregadas com uma roda na ponta. Julgou que estavam a gozar com ele. O tio estava em Luanda h\u00e1 muitos anos e j\u00e1 era rico. Queria ver o carro. Era aquilo, diziam-lhe, de madeira e com uma roda s\u00f3. N\u00e3o era vermelho, nem tinha portas para ter riscas. Era s\u00f3 o carro de m\u00e3o com que o tio ganhava a vida a entregar cimento do armaz\u00e9m do liban\u00eas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Carros de m\u00e3o\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/12\/luanda16.jpg\" alt=\"Carros de m\u00e3o\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nO carro do tio<\/p>\n<p>Desesperado com a sua sorte e n\u00e3o sendo capaz de enfrentar a fam\u00edlia ao regressar de Luanda de m\u00e3os a abanar depois de tanto investimento, pegou no carro do tio e continuou o seu neg\u00f3cio de carregador. Percebia agora que tinha sido a vergonha de ter sido iludido por Luanda que fez o tio deixar de dar not\u00edcias. Seria tamb\u00e9m por isso que ele n\u00e3o as daria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luanda, durante muitos anos, foi ref\u00fagio de guerra mais ou menos volunt\u00e1rio para os angolanos. 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