{"id":4491,"date":"2010-05-26T00:00:00","date_gmt":"2010-05-25T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=4491"},"modified":"2010-05-26T00:00:00","modified_gmt":"2010-05-25T23:00:00","slug":"a-estiga-do-sotaque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-estiga-do-sotaque\/","title":{"rendered":"A estiga do sotaque"},"content":{"rendered":"<p>Tenho-me esfor\u00e7ado para conseguir transmitir a minha experi\u00eancia de Angola da maneira mais fiel poss\u00edvel. Nem sempre tem sido f\u00e1cil, porque h\u00e1 assuntos que custa a traduzir em palavras sem as poder acompanhar com m\u00edmica e onomatopeias inventadas na altura. Vou adiando abordar o tema, primeiro buscando inspira\u00e7\u00e3o, mas depois como solu\u00e7\u00e3o improvisada para esconder a incapacidade de o descrever. Uma emenda mal amanhada, digna de figurar ao lado das <a title=\"Artigo: Ciurgi\u00f5es\" href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3155\" target=\"_blank\">deriva\u00e7\u00f5es de esgotos<\/a> em Luanda.<\/p>\n<p>Um destes temas dif\u00edceis \u00e9 a passagem \u00e0 forma escrita dos sotaques. A menos de muita criatividade ortogr\u00e1fica, que resultaria numa salganhada incompreens\u00edvel at\u00e9 para o leitor mais interessado, s\u00f3 a transcri\u00e7\u00e3o fon\u00e9tica permitiria alguma aproxima\u00e7\u00e3o. Mas esta abordagem implicava retirar o sotaque do seu meio natural e dissec\u00e1-lo num laborat\u00f3rio est\u00e9ril, onde perderia toda a sua piada, qual animal em cativeiro.<\/p>\n<p>Hoje tento o imposs\u00edvel, porque \u00e9 melhor tentar e falhar redondamente do que ficar sentado \u00e0 espera que a ideia fuja. Vou falar dos sotaques dos angolanos vistos por eles pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>As conversas mais divertidas que tenho com os colegas angolanos acontecem quando todos nos esquecemos de que terra somos e eles, os angolanos, come\u00e7am a gozar com outros angolanos que falam como n\u00f3s, os portugueses.<\/p>\n<p>Infelizmente, sou perfeitamente incapaz de descrever a maneira absolutamente deliciosa como imitam os que estiveram em Portugal. Com ar de riso, falam baixinho e devagar, com as s\u00edlabas bem marcadas e ditas com muita solenidade, enquanto inclinam a cabe\u00e7a de um lado para o outro. \u00ab<em>Boa noite. Como est\u00e1 a senhora?<\/em>\u00bb &#8211; risada &#8211; \u00ab<em>L\u00e1 em Pertug\u00e1le, a gente bebe binho&#8230;<\/em>\u00bb &#8211; muitas risadas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Venenosos\" border=\"0\" alt=\"Venenosos\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/venenosos.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>S\u00e3o uns venenosos <\/p>\n<p>Gozam indecentemente com os que perdem o sotaque de Luanda. Dizem que n\u00e3o os percebem, que t\u00eam de falar alto porque s\u00e3o africanos e n\u00e3o h\u00e1 africano que se preze que fale baixo. Os outros afinam e insistem em manter o sotaque lusitano. Riem-se uns dos outros a falar ao telefone e dizem que os que t\u00eam o sotaque \u00ab<em>L\u00e1 de Pertug\u00e1le&#8230;<\/em>\u00bb gastam mais <a title=\"Artigo: Os saldos\" href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=4253\" target=\"_blank\">saldo<\/a> porque falam muito devagar.<\/p>\n<p>Eu s\u00f3 os posso felicitar pelas imita\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o mesmo muito boas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho-me esfor\u00e7ado para conseguir transmitir a minha experi\u00eancia de Angola da maneira mais fiel poss\u00edvel. Nem sempre tem sido f\u00e1cil, porque h\u00e1 assuntos que custa a traduzir em palavras sem as poder acompanhar com m\u00edmica e onomatopeias inventadas na altura. 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