{"id":4499,"date":"2010-05-27T00:00:00","date_gmt":"2010-05-26T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=4499"},"modified":"2010-05-27T00:00:00","modified_gmt":"2010-05-26T23:00:00","slug":"macanga-do-marufo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/macanga-do-marufo\/","title":{"rendered":"Macanga do Marufo"},"content":{"rendered":"<p>No planalto entre Porto Ambo\u00edm e a foz do rio Longa conheci <em>mais-velho<\/em> Macanga Ventura, <em>xar\u00e1<\/em> do seu bisav\u00f4 e cheio de vontade de conversar. Para al\u00e9m do nome, partilha com o seu antepassado a velha casa de paredes de terra vermelha, cujo telhado de chapa \u00e9 inova\u00e7\u00e3o recente, e tamb\u00e9m a profiss\u00e3o, produtor artesanal de Marufo.<\/p>\n<p>Marufo \u00e9 a bebida alco\u00f3lica obtida a partir da fermenta\u00e7\u00e3o de seiva de palmeira e, neste pedacinho de Angola, apenas as garrafas de pl\u00e1stico em que \u00e9 vendido fogem \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o. Macanga faz como aprendeu com os seus <em>mais-velhos<\/em> e os seus filhos h\u00e3o-de continuar a tradi\u00e7\u00e3o. Hoje estava sozinho, com o resto da fam\u00edlia no hospital de Porto Ambo\u00edm. Uns doentes e outros a fazer companhia.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Macanga Ventura\" border=\"0\" alt=\"Macanga Ventura\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/marufo4.jpg\" width=\"400\" height=\"600\" \/>    <br \/>Macanga Ventura<\/p>\n<p>Tive a sorte de me cruzar com ele no momento em que tratava de uma palmeira junto \u00e0 estrada. Parei e perguntei se me explicava como se fazia o Marufo. Orgulhoso de poder mostrar o seu saber, escolheu at\u00e9 os \u00e2ngulos das fotografias, para que tudo ficasse perfeito. Mostrou-me as suas ferramentas. Resumem-se a duas facas muito usadas, um anel de corda de folha de palmeira e um pequeno martelo de madeira dura.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Fazendo um novo golpe\" border=\"0\" alt=\"Fazendo um novo golpe\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/marufo2.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Preparando um novo p\u00e9<\/p>\n<p>Todos os dias trata de cinquenta Cassoneiras, as palmeiras do marufo, e cada uma tem de dois a seis p\u00e9s. Ocupam uma \u00e1rea grande, desde este lado da estrada at\u00e9 \u00e0 casa onde mora, quase l\u00e1 no horizonte. \u00c9 uma terra pobre, de solo arenoso onde apenas as palmeiras e alguns arbustos espinhosos crescem isolados. A erva secou h\u00e1 muito e \u00e1gua \u00e9 coisa que s\u00f3 no Ver\u00e3o abunda. O p\u00f3 claro que se levanta a cada passo contrasta com os riscos negros deixados pelo carv\u00e3o da casca das palmeiras, que s\u00e3o queimadas para a limpar dos espinhos grossos que se espetam at\u00e9 nos p\u00e9s mais calejados.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Ferramenta\" border=\"0\" alt=\"Ferramenta\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/marufo1.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Martelo de madeira para cravar as estacas<\/p>\n<p>Com uma faca afiada corta-se o topo de cada p\u00e9 da palmeira, expondo o cerne de onde come\u00e7a a surgir um l\u00edquido transparente. Depois do golpe preparado, algumas folhas de capim dobradas levam a seiva para uma garrafa com muito p\u00f3 colado. Duas pequenas estacas s\u00e3o marteladas contra as paredes do buraco para segurar o capim no lugar. Esta tarefa \u00e9 efectuada ao final da manh\u00e3 e a meio da tarde, para que a seiva n\u00e3o pare de correr.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Recolhendo a seiva\" border=\"0\" alt=\"Recolhendo a seiva\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/marufo3.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Recolhendo a seiva<\/p>\n<p>Ao fim de algumas horas o golpe seca e \u00e9 necess\u00e1rio cortar uma lasca fininha do topo para que volte a correr. A palmeira \u00e9 produtiva durante algumas semanas, at\u00e9 que o p\u00e9 seca definitivamente. Nessa altura espera-se que brote um novo rebento, que se deixa crescer at\u00e9 ao tamanho apropriado, altura em que \u00e9 queimado e explorado.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Recolhendo o Marufo\" border=\"0\" alt=\"Recolhendo o Marufo\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/marufo5.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>A colheita<\/p>\n<p>As palmeiras mais produtivas reconhecem-se \u00e0 dist\u00e2ncia, com moscas e abelhas a rondar os golpes. Os muitos cabelos brancos de Macanga dizem que j\u00e1 perdeu o medo das ferroadas enquanto enxota os insectos e sobe pelo tronco para verificar as garrafas.<\/p>\n<p>Acabada de colher, a seiva da palmeira \u00e9 transparente e muito doce. Ao fim de algumas horas, come\u00e7a a fermentar e torna-se uma bebida leitosa ligeiramente alco\u00f3lica um pouco mais azeda. Macanga vende-a em garrafas de \u00e1gua que pendura numa corda feita de folhas de palmeira, tal como o cinto que usa para trepar \u00e0s \u00e1rvores mais altas. Mant\u00e9m as garrafas destapadas porque, enquanto fermenta, o vinho de palmeira produz muito g\u00e1s.<\/p>\n<p>Depois das \u00faltimas palmeiras da manh\u00e3 tratadas, deixei-o na sua sombra ao p\u00e9 do expositor de marufo, esperando pela altura de recome\u00e7ar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No planalto entre Porto Ambo\u00edm e a foz do rio Longa conheci mais-velho Macanga Ventura, xar\u00e1 do seu bisav\u00f4 e cheio de vontade de conversar. 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