{"id":4811,"date":"2010-08-31T00:00:00","date_gmt":"2010-08-30T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=4811"},"modified":"2010-08-31T12:09:26","modified_gmt":"2010-08-31T11:09:26","slug":"memria-destruda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/memria-destruda\/","title":{"rendered":"Mem&oacute;ria destru&iacute;da"},"content":{"rendered":"<p>Estava para escrever este artigo desde finais de Junho, altura em que me deparei com os arquivos da Quinta Nova abertos e o seu esp\u00f3lio a ser carregado para um grande contentor verde prenunciador de destrui\u00e7\u00e3o. Fui adiando, at\u00e9 que uma reportagem do <a title=\"Not\u00edcia do jornal P\u00fablico\" href=\"http:\/\/jornal.publico.pt\/noticia\/25-08-2010\/estradas-de-portugal-diz-que-os-arquivos-de-queluz-tem-vindo-a-ser-alvo-de-tratamento-20080213.htm\" target=\"_blank\">P\u00fablico<\/a>, relatando o facto consumado, o tornou inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>A Quinta nova foi, durante anos, o viveiro da Junta Aut\u00f3noma das Estradas (JAE). Na altura em que o Estado cuidava das estradas, era daqui que se transplantavam os loendros para os separadores das auto-estradas e as \u00e1rvores para as bermas das estradas nacionais. Depois veio a febre das privatiza\u00e7\u00f5es, de fazer dinheiro r\u00e1pido ao concessionar a manuten\u00e7\u00e3o das estradas a privados por v\u00e1rias d\u00e9cadas, a um custo muito superior ao real e, acima de tudo, superior ao recebido.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"display: inline; border: 0px;\" title=\"Arquivos da Quinta Nova\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/quintanovajae1.jpg\" border=\"0\" alt=\"Arquivos da Quinta Nova\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nAbandono<\/p>\n<p>Pode-se argumentar de que assim a entidade estatal respons\u00e1vel pelas infra-estruturas rodovi\u00e1rias \u00e9 menos vulner\u00e1vel \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, situa\u00e7\u00e3o que levou \u00e0 extin\u00e7\u00e3o da JAE e cria\u00e7\u00e3o de tr\u00eas novos organismos, com as mesmas pessoas e id\u00eanticos v\u00edcios. Na verdade, a corrup\u00e7\u00e3o a esse n\u00edvel triplicou e foi acompanhada por corrup\u00e7\u00e3o mais refinada, em esferas mais altas, como pr\u00e9mio pelos excelentes neg\u00f3cios que as empresas fazem \u00e0 custa do patrim\u00f3nio estatal e que depois se orgulham de ter como presidentes honor\u00e1rios e directores de topo antigos ministros.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"display: inline; border: 0px;\" title=\"Arquivos da Quinta Nova\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/quintanovajae5.jpg\" border=\"0\" alt=\"Arquivos da Quinta Nova\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nAbandono<\/p>\n<p>Com a extin\u00e7\u00e3o da JAE, a Quinta Nova passou para as m\u00e3os das Estradas de Portugal (EP). O edif\u00edcio principal sofreu obras profundas, para albergar a sede distrital da EP. Isto passou-se em 2007. Menos de dois anos volvidos e a propriedade foi abandonada, com a transfer\u00eancia da referida sede para Almada, numa manobra que s\u00f3 se pode chamar de criminosa para a Fazenda P\u00fablica.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"display: inline; border: 0px initial initial;\" title=\"Fevereiro de 1937\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/quintanovajae3.jpg\" border=\"0\" alt=\"Fevereiro de 1937\" width=\"400\" height=\"600\" \/><br \/>\nPeda\u00e7o de mem\u00f3ria<\/p>\n<p>Para tr\u00e1s ficou um arquivo que remontava aos prim\u00f3rdios do Estado Novo, com documentos da d\u00e9cada de 1930, onde se guardaram documentos importantes e outros, que talvez o pare\u00e7am menos agora, mas que seriam preciosos para historiadores futuros.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"display: inline; border: 0px;\" title=\"Arquivos da Quinta Nova\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/quintanovajae8.jpg\" border=\"0\" alt=\"Arquivos da Quinta Nova\" width=\"400\" height=\"600\" \/><br \/>\nRela\u00e7\u00e3o de material abatido em Fevereiro de 1937<\/p>\n<p>Poder\u00e1 parecer um preciosismo f\u00fatil, desejar que se arquivem as requisi\u00e7\u00f5es de material, os relat\u00f3rios de acidentes de trabalho ou os mapas de trabalho de h\u00e1 um s\u00e9culo, mas esta \u00e9 a \u00fanica maneira de preservar a mem\u00f3ria e de poder rebater aqueles que dizem &#8220;Nunca antes se fez assim&#8221;. Destruir a mem\u00f3ria \u00e9 reescrever a Hist\u00f3ria. Preservando apenas parte dos documentos, apaga-se parte do Passado, as funda\u00e7\u00f5es do Futuro.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"display: inline; border: 0px;\" title=\"Arquivos da Quinta Nova\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/quintanovajae7.jpg\" border=\"0\" alt=\"Arquivos da Quinta Nova\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nPortugal enxovalhado<\/p>\n<p>Talvez um relat\u00f3rio de abate de material possa parecer demasiado insignificante para se preservar, mas h\u00e1 que relembrar um epis\u00f3dio que mostra como as mem\u00f3ria mais insuspeitas podem ser cruciais para a compreens\u00e3o da Hist\u00f3ria. Com a destrui\u00e7\u00e3o da Casa da \u00cdndia no terramoto de 1755, perdeu-se grande parte dos documentos que relatavam as primeiras viagens ao longo da costa africana da expans\u00e3o Portuguesa. Com base nos registos restantes, acreditava-se que o n\u00famero de viagens fosse muito reduzido, mas tal no\u00e7\u00e3o foi desmentida quando se encontrou uma nota encomenda de v\u00e1rias toneladas de biscoito (bolachas grandes e duras para consumo no mar em viagens longas). Tamanha encomenda s\u00f3 pode significar que o n\u00famero de expedi\u00e7\u00f5es era muito maior que o indicado pelos documentos sobreviventes.<\/p>\n<p>Dizem que parte dos documentos foi destru\u00edda e outra preservada. Que parte restou? Que crit\u00e9rios usaram? Quanto empobreceu a nossa mem\u00f3ria?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estava para escrever este artigo desde finais de Junho, altura em que me deparei com os arquivos da Quinta Nova abertos e o seu esp\u00f3lio a ser carregado para um grande contentor verde prenunciador de destrui\u00e7\u00e3o. Fui adiando, at\u00e9 que uma reportagem do P\u00fablico, relatando o facto consumado, o tornou inevit\u00e1vel. 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