{"id":4877,"date":"2010-09-25T00:00:00","date_gmt":"2010-09-24T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=4877"},"modified":"2010-09-25T00:00:00","modified_gmt":"2010-09-24T23:00:00","slug":"desertificao-rural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/desertificao-rural\/","title":{"rendered":"Desertifica&ccedil;&atilde;o rural"},"content":{"rendered":"<p>Muito se tem dito acerca do progressivo abandono a que o interior do pa\u00eds tem sido votado. Cada vez mais as pessoas se mudam para o litoral onde, se diz, h\u00e1 mais empregos e condi\u00e7\u00f5es de vida, mas h\u00e1 sempre relut\u00e2ncia em abandonar a terra onde se cresceu e onde est\u00e3o todas as refer\u00eancias. A liga\u00e7\u00e3o com os lugarem onde se vive nunca \u00e9 instant\u00e2nea e s\u00e3o precisos anos at\u00e9 que tudo volte a fazer sentido.<\/p>\n<p>A grande verdade \u00e9 que n\u00e3o foram as pessoas que abandonaram o interior. As pessoas foram, literalmente, abandonadas no interior. O encerramento de linhas de caminho-de-ferro, esta\u00e7\u00f5es de correios, centros de sa\u00fade e escolas afastou as vilas e aldeias do mundo, marginalizando-as economicamente. A crescente tentativa de rentabiliza\u00e7\u00e3o daquilo que, por natureza, n\u00e3o \u00e9 rent\u00e1vel, seguindo uma linha de pensamento neo-liberal, redunda sempre no encerramento, <a title=\"Artigo: Mem\u00f3ria destru\u00edda\" href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=4811\" target=\"_blank\">desmembramento e abandono<\/a> daquilo que s\u00e3o os servi\u00e7os p\u00fablicos essenciais.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Esta\u00e7\u00e3o de Correios de Crato\" border=\"0\" alt=\"Esta\u00e7\u00e3o de Correios de Crato\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/Crato.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Esta\u00e7\u00e3o de Correios de Crato, fechada<\/p>\n<p>Com a justifica\u00e7\u00e3o de que cada vez h\u00e1 menos gente no interior, os investimentos em equipamentos diminuem, levando a que cada vez menos gente se fixe l\u00e1, num verdadeiro ciclo vicioso. Ainda por cima, os poucos incentivos para a fixa\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es s\u00e3o iniciativas avulsas, sem qualquer fio condutor que fa\u00e7a transparecer uma pol\u00edtica continuada.<\/p>\n<p>Mais chocante que a falta de investimento, \u00e9 o desperd\u00edcio a que se assiste quando se abandona algo que j\u00e1 existia, para que se degrade at\u00e9 ruir. Fazer algo de novo sai sempre mais caro que manter o que j\u00e1 existe. Abandonar equipamentos \u00e9 quase que gozar com o esfor\u00e7o e capital investidos anteriormente e todos suspeitamos que depois haja algu\u00e9m a ganhar um concurso para fornecer o mesmo servi\u00e7o, mas mais caro.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Esta\u00e7\u00e3o de Chan\u00e7a\" border=\"0\" alt=\"Esta\u00e7\u00e3o de Chan\u00e7a\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/chanca.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Abandono na esta\u00e7\u00e3o de Chan\u00e7a<\/p>\n<p>Um exemplo s\u00e3o as dezenas de silos abandonados que h\u00e1 por todo o Sul do pa\u00eds. Na altura representaram um investimento consider\u00e1vel, mas que permitiu centralizar a armazenagem e envio de cereais por via f\u00e9rrea. Actualmente, com produ\u00e7\u00f5es cereal\u00edferas mais reduzidas, n\u00e3o defendo que se mantivessem a funcionar em pleno ou com as mesmas fun\u00e7\u00f5es, mas tinham todas as caracter\u00edsticas necess\u00e1rias para se tornarem em centros de distribui\u00e7\u00e3o log\u00edstica ou entrepostos, com armaz\u00e9ns, parques de manobras e terminais ferrovi\u00e1rios, reduzindo o custo com transportes rodovi\u00e1rios, que apenas s\u00e3o economicamente vantajosos para os percursos mais curtos. As estruturas existem, mas est\u00e3o abandonadas. As empresas de camionagem n\u00e3o ficariam sem servi\u00e7o, porque a distribui\u00e7\u00e3o final teria sempre de passar por elas, e nestes entrepostos gerar-se-iam muitos mais postos de trabalho, pagos com a redu\u00e7\u00e3o de custo no transporte.<\/p>\n<p>Infelizmente, tamb\u00e9m as linhas de caminho-de-ferro que passam nestes silos v\u00e3o sendo encerradas por falta de uso, afastando a possibilidade de aproveitar o que, a grande custo, foi criado ao longo dos anos.<\/p>\n<p>Numa \u00e9poca em que os Estado gasta mais do que nunca, \u00e9 estranho como cada vez mais se esquiva de fazer aquilo que devia. E at\u00e9 as empresas estatais, reduzem o quadro de pessoal para conter custos, mas acabam por gastar mais dinheiro ao <a title=\"Artigo: As mentiras dos bilhetes\" href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=4792\" target=\"_blank\">contratar empresas externas<\/a> para executar as fun\u00e7\u00f5es dos trabalhadores despedidos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muito se tem dito acerca do progressivo abandono a que o interior do pa\u00eds tem sido votado. Cada vez mais as pessoas se mudam para o litoral onde, se diz, h\u00e1 mais empregos e condi\u00e7\u00f5es de vida, mas h\u00e1 sempre relut\u00e2ncia em abandonar a terra onde se cresceu e onde est\u00e3o todas as refer\u00eancias. 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