{"id":495,"date":"2008-08-07T00:00:02","date_gmt":"2008-08-06T23:00:02","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=495"},"modified":"2009-12-01T11:50:02","modified_gmt":"2009-12-01T10:50:02","slug":"desenrascanco-rodoviario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/desenrascanco-rodoviario\/","title":{"rendered":"Desenrascan\u00e7o rodovi\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p>A expedi\u00e7\u00e3o \u00e0 prov\u00edncia de Benguela n\u00e3o decorreu sem incidentes. Numa viagem t\u00e3o grande \u00e9 natural que haja um ou outro percal\u00e7o que tem de ser resolvido com as ferramentas que estiverem dispon\u00edveis porque, em Angola, n\u00e3o h\u00e1 uma oficina bem equipada ao virar da esquina. Nem sequer h\u00e1 oficinas dignas de nome nalgumas das cidades mais importantes.<\/p>\n<p>H\u00e1, no entanto, muito mestres disto e daquilo que, \u00e0 boa maneira africana, v\u00e3o desenrascando solu\u00e7\u00f5es para os problemas que surgem.<\/p>\n<p>Um bom exemplo s\u00e3o as oficinas de repara\u00e7\u00e3o de pneus que aqui t\u00eam o nome de recauchutagens, embora possam ser identificadas como <em>recachotagem<\/em>, <em>recautagem<\/em>, <em>rechutagem<\/em> ou s\u00f3 <em>pneus<\/em>. O seu \u00fanico servi\u00e7o \u00e9 instalar e remendar c\u00e2maras-de-ar. Por estes lados os pneus <em>tubeless<\/em> n\u00e3o s\u00e3o a melhor escolha. Com tantos buracos, as jantes andam sempre empenadas e a vazar ar.<\/p>\n<p>A falta de ferramentas apropriadas \u00e9 cr\u00f3nica e os pneus t\u00eam de ser desmontados \u00e0 m\u00e3o, como se fossem pneus de bicicleta. S\u00f3 que um pneu de autom\u00f3vel tem um selo muito mais duro e \u00e9 necess\u00e1rio fazer muita for\u00e7a para o fazer saltar da jante.<\/p>\n<p>Em quase 2000 km de viagem s\u00f3 tivemos um furo, o que foi uma sorte, pois s\u00f3 t\u00ednhamos uma roda suplente. Mas cruz\u00e1mo-nos com uns sujeitos num RAV4 que tinham furado dois pneus ao mesmo tempo, \u00e0 sa\u00edda de Benguela.<\/p>\n<p>No nosso caso, havia uma recauchutagem uns quil\u00f3metros \u00e0 frente, pelo que se p\u00f4de remendar a c\u00e2mara rapidamente. O pneu foi desmontado \u00e0 for\u00e7a de picareta e alavancas, a c\u00e2mara foi sacudida e encontrou-se o furo. O mestre colou um remendo, tirou o lixo maior de dentro do pneu e instalou a c\u00e2mara. Depois teve o trabalho de voltar a encaixar o pneu na jante. Foi preciso um p\u00e9-de-cabra, uma marreta, algum \u00f3leo e muito suor.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080408-1345-desenrasque1.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nPicareta para abrir o pneu, p\u00e9 de cabra para fechar<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o fic\u00e1mos por aqui em termos de problemas. A caminho dos planaltos, j\u00e1 longe das cidades principais, o n\u00edvel de combust\u00edvel no dep\u00f3sito come\u00e7ava a aproximar-se dos n\u00edveis de miss\u00e3o suicida, isto \u00e9, dava para ir, mas voltar seria complicado. As bombas da Sonangol n\u00e3o tinham uma gota de gasolina e at\u00e9 mesmo o gas\u00f3leo estava nas \u00faltimas em todas. Em cada bomba nos diziam que na pr\u00f3xima cidade ainda poderia haver um resto, mas que ali j\u00e1 estava esgotada. O cami\u00e3o de abastecimento n\u00e3o passava por l\u00e1 h\u00e1 uns dias\u2026 Mas quando recebem combust\u00edvel os candongueiros a\u00e7ambarcam-no todo.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o curiosa. Em frente a cada bomba seca h\u00e1 um candongueiro com tamboretes de gasolina cheios. Obviamente que n\u00e3o \u00e9 vendida ao mesmo pre\u00e7o. Em m\u00e9dia custa mais 50%, mas pode bem chegar aos 125% nas zonas mais remotas.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o quer\u00edamos arriscar chegar ao destino e depois n\u00e3o poder regressar e voltar a Benguela para abastecer estava fora de quest\u00e3o, teve mesmo de ser na candonga que se abasteceu o <em>Jimny<\/em>. Ainda se regateou o pre\u00e7o, mas a escolha n\u00e3o era muita\u2026<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080408-1345-desenrasque2.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nMesmo em frente \u00e0 bomba oficial, a barraca <em>Ponto de Em Contro<\/em><\/p>\n<p>\u00c0 semelhan\u00e7a do que se passa na bomba de gasolina de Ganda, aqui tamb\u00e9m se tem de encher os dep\u00f3sitos \u00e0 m\u00e3o. Neste caso basta colocar o <em>jerrycan<\/em> em cima do carro e usar uma mangueira para come\u00e7ar um sif\u00e3o. O gosto a gasolina fica na boca do candongueiro, claro.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080408-1345-desenrasque3.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n25 litros de uma assentada<\/p>\n<p>No dia seguinte passou um comboio de cami\u00f5es-cisterna e abasteceram as bombas todas. Estragaram o neg\u00f3cio aos candongueiros. Foi o fim das nossas preocupa\u00e7\u00f5es em termos de combust\u00edvel.<\/p>\n<p>Entretanto, e porque as estradas s\u00e3o m\u00e1s, avariou-se a transmiss\u00e3o do Land Rover, que ficou a fazer a imita\u00e7\u00e3o de um tijolo no meio da estrada. Arranjou-se maneira de o fazer chegar \u00e0 cidade mais pr\u00f3xima, onde passou o dia seguinte a ver o diferencial traseiro ser montado e desmontado. Tudo em ordem, mas continuava sem andar. J\u00e1 era noite cerrada quando, naquela oficina sem telhado e sem luz, se descobriu que era um semi-eixo gasto que nos deixava apeados. A falta de pe\u00e7as obrigou a que se resolvesse o problema com uma solu\u00e7\u00e3o de recurso. Este esp\u00edrito de desenrasque \u00e9 aquilo que mais une os portugueses aos angolanos, ainda mais que a l\u00edngua.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080408-1345-desenrasque4.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nVamos l\u00e1 ver se \u00e9 desta<\/p>\n<p>Apesar de estarmos dentro de uma oficina que j\u00e1 teve muitas condi\u00e7\u00f5es, hoje em dia apenas o port\u00e3o grande e o fosso denunciam o prop\u00f3sito daquele edif\u00edcio que sofreu as marcas do tempo e da guerra. N\u00e3o deixa de ser po\u00e9tico ter um c\u00e9u estrelado como tecto.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080408-1345-desenrasque5.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nEra uma oficina muito engra\u00e7ada, n\u00e3o tinha telhado, n\u00e3o tinha nada<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080408-1345-desenrasque6.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nNoite dentro e ainda sem andar<\/p>\n<p>Mas aquilo que mais impress\u00e3o faz \u00e9 ver despejar os \u00f3leos usados directamente para o ch\u00e3o e ter os mec\u00e2nicos e aprendizes a andar descal\u00e7os dentro do fosso cheio de massa consistente, \u00f3leo velho e aparas de metal. Ou at\u00e9 o facto de se ter usar os dentes para retirar uma mangueira cheia de \u00f3leo do tubo onde est\u00e1 encaixada.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080408-1345-desenrasque7.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nDescal\u00e7o no meio do \u00f3leo<\/p>\n<p>Mas este fosso ainda proporcionou umas boas risadas. Na oficina estava um <em>mais-velho<\/em>, com a provecta idade de 66 anos. Passa l\u00e1 os dias e conhece tudo como a palma da m\u00e3o. Um pouco depois do p\u00f4r-do-Sol ouvimos um ru\u00eddo surdo na frente do carro, seguido de um resmungo.<\/p>\n<p>&#8220;Que foi, <em>mais-novo<\/em>?&#8221; perguntou o mestre mec\u00e2nico ao <em>mais-velho<\/em>.<\/p>\n<p>&#8220;Escorreguei e ca\u00ed no fosso\u2026&#8221; respondeu uma voz abafada.<\/p>\n<p>&#8220;Como \u00e9 que fez isso, o fosso j\u00e1 a\u00ed est\u00e1 desde sempre.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o contava\u2026&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Magoou-se?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o, estou bem. N\u00e3o contava\u2026 escorreguei\u2026 deixa-me passar\u2026&#8221; respondeu pausadamente, enquanto sa\u00eda do fosso com uma agilidade surpreendente.<\/p>\n<p>Tudo correu bem, mas depois foi uma risada geral.<\/p>\n<p>Depois de se conversar um pouco acerca dos novos e dos velhos e do que nos reserva o futuro, o <em>mais-velho<\/em> virou-se para n\u00f3s e disse &#8220;Angola \u00e9 vossa! Angola \u00e9 dos jovens!&#8221;<\/p>\n<p>Quando ouvi a primeira frase estremeci. Pareceu-me algo vindo de uma outra era. Do tempo em que Angola era parte do Imp\u00e9rio\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A expedi\u00e7\u00e3o \u00e0 prov\u00edncia de Benguela n\u00e3o decorreu sem incidentes. Numa viagem t\u00e3o grande \u00e9 natural que haja um ou outro percal\u00e7o que tem de ser resolvido com as ferramentas que estiverem dispon\u00edveis porque, em Angola, n\u00e3o h\u00e1 uma oficina bem equipada ao virar da esquina. 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