{"id":5022,"date":"2010-11-05T01:00:00","date_gmt":"2010-11-05T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5022"},"modified":"2010-11-06T02:14:10","modified_gmt":"2010-11-06T01:14:10","slug":"o-caderninho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/o-caderninho\/","title":{"rendered":"O caderninho"},"content":{"rendered":"<p>Desabituei-me de trazer o caderninho no bolso desde que regressei de Angola. C\u00e1 uso menos camisas com bolsos e parece que tenho menos tempo e mais distrac\u00e7\u00f5es para tomar notas. Sinto falta do bloco sempre por perto para fixar as ideias que j\u00e1 sei serem demasiado fugazes para se incrustarem na mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Talvez seja por isso que me custa come\u00e7ar a escrever um novo artigo sem ter um rabisco a dar o mote ou a marcar um ritmo. Antes tinha o trabalho quase alinhavado e agora n\u00e3o h\u00e1 nada para al\u00e9m de uma folha vazia. Pior, a folha vazia nem sequer \u00e9 real, e limita-se a um pequeno espa\u00e7o negro no ecr\u00e3.<\/p>\n<p>As notas tomadas \u00e0 m\u00e3o emanam uma ess\u00eancia de incompletude, de algo que apenas ser\u00e1 dado por terminado ap\u00f3s ser traduzido, limpo e passado a letra de forma. Escrever directamente no computador \u00e9 doloroso. \u00c9 martelar as letras no lugar, ao passo que \u00e0 m\u00e3o as vou arrumando a toques de pena, por assim dizer. O desaparecimento da caligrafia \u00e9 caracter\u00edstica do produto acabado, facto rid\u00edculo quando admiro a letra horrorosa com que escrevo. As imperfei\u00e7\u00f5es das notas manuscritas perdoam-se, pois s\u00e3o apenas apontamentos e o conte\u00fado \u00e9 o mais importante. As imperfei\u00e7\u00f5es de um texto batido \u00e0 m\u00e1quina s\u00e3o sempre falta de qualidade, de aten\u00e7\u00e3o; s\u00e3o desmazelo. Ou talvez n\u00e3o estejam camufladas pelo aspecto artesanal das notas no caderninho.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Bloco-notas\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/blog-bichado.jpg\" border=\"0\" alt=\"Bloco-notas\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nUm dos cadernos angolanos<\/p>\n<p>Regressei ao bloco de notas. Desta vez mais bonito e com uma capa dura que o torna inapto para dobrar ao meio e enfi\u00e1-lo no bolso da camisa, que agora n\u00e3o uso. Percebi que era isso que me faltava para dar continuidade \u00e0s muitas hist\u00f3rias que comecei, mas que nunca terminei porque cometi o erro de as rascunhar directamente no computador. O aspecto exterior era o de obra acabada, imut\u00e1vel, mas n\u00e3o condizia com o que lia &#8211; era feio e estava mal escrito. Tinha de recome\u00e7ar pelo princ\u00edpio dos princ\u00edpios e fazer os artigos estagiar um pouco no papel, rabiscar ideias, ligar assuntos com tra\u00e7os apressados e riscar tolices de maneira a que ainda as conseguisse ler para a elas n\u00e3o tornar.<\/p>\n<p>Reparei que os rascunhos feitos no computador ou passam a obra definitiva no espa\u00e7o de poucos dias, ou entram no limbo perp\u00e9tuo dos artigos inacabados onde definham enquanto n\u00e3o me atrevo a apag\u00e1-los de vez. Na maioria das vezes perco a coragem de os retomar, mas n\u00e3o ganho a de os apagar.<\/p>\n<p>Por uma qualquer raz\u00e3o sem nexo, sinto que o escrito \u00e0 m\u00e3o tem muito mais probabilidade de ser convertido em texto final do que o rascunhado no computador. Se calhar \u00e9 o medo de deixar de compreender a minha pr\u00f3pria caligrafia&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desabituei-me de trazer o caderninho no bolso desde que regressei de Angola. 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