{"id":5048,"date":"2010-11-12T01:00:00","date_gmt":"2010-11-12T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5048"},"modified":"2010-11-12T01:00:00","modified_gmt":"2010-11-12T00:00:00","slug":"o-inferno-portugus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/o-inferno-portugus\/","title":{"rendered":"O Inferno Portugu&ecirc;s"},"content":{"rendered":"<p>Com a crise, as medidas de austeridade e a discuss\u00e3o de Or\u00e7amentos de Estado na ordem do dia, h\u00e1 quem diga que a vida se vai tornar num inferno. Pelo andar da carruagem, at\u00e9 \u00e9 capaz de ser uma melhoria. Afinal de contas, estamos a falar de Portugal, onde nada parece ser levado a s\u00e9rio. Se calhar \u00e9 do clima, mas o certo \u00e9 que as coisas se v\u00e3o desenrascando e da\u00ed n\u00e3o se passa.<\/p>\n<p>\u00c0 semelhan\u00e7a dos Infernos das anedotas que envolvem personagens de v\u00e1rias nacionalidades, o Inferno Portugu\u00eas seria, pelo menos em papel, algo terr\u00edvel, como nunca antes visto em lado algum mas, na pr\u00e1tica, acaba por ser bastante confort\u00e1vel. \u00c9 uma tradi\u00e7\u00e3o de muitos s\u00e9culos, que remonta, pelo menos, ao reinado de D. Dinis, quando a Ordem do Templo foi extinta, mas acabou por s\u00f3 mudar de nome.<\/p>\n<p>Voltemos ao hipot\u00e9tico Inferno Portugu\u00eas, tamb\u00e9m conhecido como o mais Infernal Inferno do Mundo e Arredores &#8211; IIMA, para abreviar. Para assegurar uma verdadeira infernalidade deste novo inferno, seguramente se nomearia uma comiss\u00e3o ou duas para redigir um caderno de encargos digno de Mefist\u00f3feles, muito provavelmente escrito com o sangue de d\u00fazia e meia de virgens &#8211; contratadas por concurso p\u00fablico internacional, seguindo directivas comunit\u00e1rias. As sucessivas revis\u00f5es do caderno de encargos estipulariam torturas cada vez mais elaboradas, como nunca antes vistas ou at\u00e9 mesmo sonhadas no mundo civilizado. Fariam parte dos cartazes de apresenta\u00e7\u00e3o as mais quentes labaredas dos infernos, os diabos com os cornos mais afiados, as chicotadas aplicadas com mais vigor, os torcion\u00e1rios mais s\u00e1dicos e, acima de tudo, a incompar\u00e1vel qualidade dos acabamentos das suites privadas dos quadros dirigentes do Inferno, com janelas panor\u00e2micas para as piscinas de lava e piri-piri.<\/p>\n<p>A concurso p\u00fablico iriam os projectos das empresas de constru\u00e7\u00e3o civil e consultoria dirigidas por antigos ministros, e seria seleccionado o mais caro ou o que garantisse mais hip\u00f3teses de integra\u00e7\u00e3o na vice-presid\u00eancia do conselho de administra\u00e7\u00e3o da empresa de grande parte dos elementos do j\u00fari.<\/p>\n<p>O Inferno, propriamente dito, seria constru\u00eddo pelo Estado, a expensas da Fazenda P\u00fablica e, assim que terminado, estabelecer-se-ia uma parceria p\u00fablico-privada para a sua gest\u00e3o, em que o Estado arcasse com as despesas, atribu\u00edsse uma indemniza\u00e7\u00e3o compensat\u00f3ria pela explora\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o e a empresa privada ficasse com os lucros, como vem sendo costume nestes casos.<\/p>\n<p>O Diabo, essa figura central do Inferno, seria, tamb\u00e9m ele, um antigo ministro, actualmente auferindo uma principesca reforma de um banco estatal que acumularia com um chorudo vencimento e carro com motorista. Seria auxiliado na sua desagrad\u00e1vel tarefa de torturar as almas por um verdadeiro cortejo de diabretes sorridentes, todos eles ligados \u00e0s m\u00e1quinas partid\u00e1rias.<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui, este Inferno promete ser o melhor do mundo, ou o pior, dependendo do ponto de vista, mas \u00e9 preciso n\u00e3o esquecer que se trata de um Inferno Portugu\u00eas. Com o Estado falido, n\u00e3o haver\u00e1 verba para pagar o aquecimento das piscinas de lava e n\u00e3o ser\u00e1, seguramente, a gest\u00e3o privada a adiantar dinheiro do seu bolso. Ali\u00e1s, caso n\u00e3o sejam pagas as indemniza\u00e7\u00f5es compensat\u00f3rias pela presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o p\u00fablico infernal, os chicotes e a roda nem sequer sair\u00e3o dos arm\u00e1rios.<\/p>\n<p>Finalmente, o Diabo, que goza de isen\u00e7\u00e3o de hor\u00e1rio, aproveita as despesas de representa\u00e7\u00e3o ilimitadas e muda-se para o Para\u00edso enquanto metade dos diabretes aparece pela manh\u00e3, assina o livro de ponto e s\u00f3 volta no dia seguinte. A metade restante mete baixa invocando motivos psiqui\u00e1tricos, por n\u00e3o se sentirem bem com o pranto dos condenados ou desgostarem da ementa da cantina.<\/p>\n<p>Aos condenados resta apenas chicotearem-se uns aos outros, porque algu\u00e9m tem de fazer o trabalho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com a crise, as medidas de austeridade e a discuss\u00e3o de Or\u00e7amentos de Estado na ordem do dia, h\u00e1 quem diga que a vida se vai tornar num inferno. 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