{"id":5181,"date":"2010-12-23T01:00:00","date_gmt":"2010-12-23T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5181"},"modified":"2010-12-23T01:00:00","modified_gmt":"2010-12-23T00:00:00","slug":"a-tradio-j-no-o-que-era","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-tradio-j-no-o-que-era\/","title":{"rendered":"A tradi&ccedil;&atilde;o j&aacute; n&atilde;o &eacute; o que era"},"content":{"rendered":"<p>Por esta altura, todos os anos, o talho do bairro costuma oferecer calend\u00e1rios de parede aos clientes. \u00c9 habitual terem mais do que uma vers\u00e3o, de forma a agradar todas as sensibilidades, porque aquele talho \u00e9 frequentado n\u00e3o s\u00f3 pelas septuagen\u00e1rias que compram meio peito de frango e uma isca, mas tamb\u00e9m pelos trolhas e serralheiros que encomendam febras e entremeadas aos quilos para o almo\u00e7o.<\/p>\n<p>O calend\u00e1rio com a cena pastoral, de cordeirinho nas ervas tenras e montes alpinos, rodeado de queijos e frascos de compota \u00e9 oferecido \u00e0 clientela feminina com mais de oitenta primaveras. \u00c0s gera\u00e7\u00f5es mais novas calha o que tem o b\u00e9b\u00e9, ou cachorrinho, para apelar ao instinto maternal ou vontade de ver os netinhos.<\/p>\n<p>Mas havia sempre um tipo de calend\u00e1rio reservado ao gajo da obra ou ao mec\u00e2nico da praceta, que era entregue no canto do balc\u00e3o com um piscar de olho. Invariavelmente, era pendurado mesmo por cima da bancada de trabalho, ao lado dos calend\u00e1rios dos anos anteriores, que l\u00e1 ficavam at\u00e9 o Sol desbotar definitivamente as mamas da senhora encalorada que se espraiava sobre o rect\u00e2ngulo de papel a dizer <strong>\u00abJaneiro &#8211; 1987 &#8211; Fevereiro\u00bb <\/strong>&#8211; n\u00e3o havia necessidade de mudar a p\u00e1gina do calend\u00e1rio, porque servia apenas para alegrar a loja.<\/p>\n<p>Este ano pude entrever um certo ar de desilus\u00e3o quando o pedreiro da obra em frente recebeu o calend\u00e1rio e, curioso, deu uma espreitadela antes de sair. Foi surpreendido, n\u00e3o pela mo\u00e7a de fartos seios, sorriso rasgado e pouca roupa do costume, que poderia assegurar a qualidade das carnes do talho pelo ar saud\u00e1vel que demonstrava, mas por uma fotografia em s\u00e9pia, melosa demais at\u00e9 para as reformadas que t\u00eam na parede da sala um retrato do Marco Paulo em ponto-cruz. Acredito piamente que, n\u00e3o fosse estar o talho cheio de gente, o talhante teria ouvido uma reclama\u00e7\u00e3o em vern\u00e1culo redobrado.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se \u00e9 da crise ou do fim da tradi\u00e7\u00e3o, mas o certo \u00e9 que algo est\u00e1 mal quando o talho deixa de oferecer calend\u00e1rios de fulanas com as mamas ao l\u00e9u e carneirinhos buc\u00f3licos, para agradar aos diferentes cliente, e opta por um que n\u00e3o agrada a nenhum&#8230; pior ainda, onde v\u00e3o os mec\u00e2nicos encontrar quem lhes forne\u00e7a a companhia feminina do pr\u00f3ximo ano. A deste ano come\u00e7a a ficar azulada e, sinceramente, j\u00e1 est\u00e3o fartos de a ver sempre com o mesmo sorriso. Ainda por cima, toda a gente sabe que oficina sem estes calend\u00e1rios \u00abt\u00edpicos\u00bb n\u00e3o \u00e9 de confian\u00e7a &#8211; \u00e9 sinal que o mec\u00e2nico tem pouco ap\u00eago \u00e0 casa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por esta altura, todos os anos, o talho do bairro costuma oferecer calend\u00e1rios de parede aos clientes. \u00c9 habitual terem mais do que uma vers\u00e3o, de forma a agradar todas as sensibilidades, porque aquele talho \u00e9 frequentado n\u00e3o s\u00f3 pelas septuagen\u00e1rias que compram meio peito de frango e uma isca, mas tamb\u00e9m pelos trolhas e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[364,25,60],"tags":[1084,423,1086,1085,28],"class_list":["post-5181","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-distrito-de-lisboa","category-portugal","category-queluz","tag-calendarios","tag-mecanicos","tag-pedreiros","tag-talho","tag-tradicoes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5181","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5181"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5181\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5181"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5181"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5181"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}