{"id":5272,"date":"2011-03-15T00:00:00","date_gmt":"2011-03-14T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5272"},"modified":"2011-03-14T20:36:54","modified_gmt":"2011-03-14T19:36:54","slug":"a-frente-ribeirinha-dos-ricos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-frente-ribeirinha-dos-ricos\/","title":{"rendered":"A frente ribeirinha (dos ricos)"},"content":{"rendered":"<p>Lisboa nada seria sem o Tejo, que a abra\u00e7a e molda desde tempos imemoriais. Foi o rio que ditou a sua Hist\u00f3ria, e \u00e9 ele que hoje lhe empresta a luz indiscrit\u00edvel que prende os aguarelistas aos miradouros e os fot\u00f3grafos aos constrastes dos telhados e azuis do c\u00e9u.<\/p>\n<p>Noutras \u00e9pocas, o rio foi a porta da cidade, com caravelas a partir para terras distantes e as faluas do Tejo a trazer gentes e carga da margem oposta. Hoje quase s\u00f3 navegam as das mem\u00f3rias dos mais velhos ou as poucas resistentes na margem sul, usadas em passeios tur\u00edsticos. E se o Tejo era a porta de entrada, o Cais das colunas era a sua passadeira vermelha, como aconteceu na visita da Rainha Isabel II.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de estranhar que toda a costa da cidade se tenha convertido num longo cais de mercadorias. Quem n\u00e3o vivia ligado ao rio apenas o podia apreciar nalguns pontos. O resto fazia parte do motor da cidade.<\/p>\n<p>Com a inaugura\u00e7\u00e3o da ponte sobre o Tejo na d\u00e9cada de 1960 e a constru\u00e7\u00e3o de cada vez mais estradas, a import\u00e2ncia do Tejo na vida da cidade foi diminu\u00edndo. O porto de Lisboa passou a receber quase exclusivamente mercadorias do estrangeiro e muitas zonas ao longo da margem foram ficando esquecidas, abandonadas e decr\u00e9pitas.<\/p>\n<p>Alguns projectos de revitaliza\u00e7\u00e3o transformaram estas \u00e1reas em jardins \u00e0 beira-rio. A zona industrial oriental foi reabilitada para a Exposi\u00e7\u00e3o Mundial&#160; de 1998. O espa\u00e7o entre a doca de Alc\u00e2ntara e o Museu da electricidade tornou-se um jardim, dando continuidade ao da Torre de Bel\u00e9m e Mosteiro dos Jer\u00f3nimos, permitindo um passeio de alguns quil\u00f3metros muito agrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>Como quase sempre acontece, estes projectos &quot;para todos&quot; acabam por se transformar em projectos &quot;para alguns&quot;. A devolu\u00e7\u00e3o do Tejo \u00e0 cidade terminou quando se constru\u00edu um horroroso e milion\u00e1rio mastodonte de m\u00e1rmore, qual tapume em frente ao Museu de Marinha &#8211; o Centro Cultural de Bel\u00e9m (CCB). Mais tarde foi a Ag\u00eancia Europeia de Seguran\u00e7a Mar\u00edtima a nascer no Cais Sodr\u00e9 e a esconder mais um pouco do rio. Mais recentemente, foi o centro Champalimaud a crescer junto \u00e0s ru\u00ednas na lota de Lisboa, desalojada para local incerto sob pretexto de uma hipot\u00e9tica regata internacional que nunca se chegou a realizar. Na mesma \u00f3ptica, chegou-se a ponderar demolir o Museu de Arte Popular e libertar o espa\u00e7o para um hotel.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Tapume CCB - Berardo\" border=\"0\" alt=\"Tapume CCB - Berardo\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/ricos2.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Algures l\u00e1 atr\u00e1s h\u00e1 um planet\u00e1rio e um museu<\/p>\n<p>Quem atravessa o Tejo em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 Trafaria e se lembra de voltar os olhos para Bel\u00e9m tem um choque. De um lado, os Jer\u00f3nimos s\u00e3o o pano de fundo do tapume CCB, adornado com o s\u00edmbolo da Funda\u00e7\u00e3o Berardo. Do outro, a Torre de Bel\u00e9m passa a ter como moldura o Centro Champalimaud. De um momento para o outro, a zona ribeirinha foi devolvida n\u00e3o \u00e0 cidade ou aos seus habitantes, mas apenas aos ricos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Centro Champalimaud\" border=\"0\" alt=\"Centro Champalimaud\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/ricos1.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Pano de fundo curvil\u00edneo<\/p>\n<p>Quanto ao CCB, pouco mais h\u00e1 a acrescentar ao que foi dito nas \u00faltimas d\u00e9cadas, mas sobre o Centro Champalimaud pouco se tem falado. H\u00e1 outras preocupa\u00e7\u00f5es na vida das pessoas. A forma como foi instalado em terrenos do Porto de Lisboa e o enquadramento da arquitectura do edif\u00edcio com as estruturas existentes, apesar de n\u00e3o afectar o m\u00e9rito do projecto cient\u00edfico, n\u00e3o deixa de nos fazer pensar que o dinheiro resolve todos os problemas de consci\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lisboa nada seria sem o Tejo, que a abra\u00e7a e molda desde tempos imemoriais. Foi o rio que ditou a sua Hist\u00f3ria, e \u00e9 ele que hoje lhe empresta a luz indiscrit\u00edvel que prende os aguarelistas aos miradouros e os fot\u00f3grafos aos constrastes dos telhados e azuis do c\u00e9u. 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