{"id":5284,"date":"2011-03-22T01:00:00","date_gmt":"2011-03-22T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5284"},"modified":"2011-03-22T01:00:00","modified_gmt":"2011-03-22T00:00:00","slug":"po-de-pernas-para-o-ar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/po-de-pernas-para-o-ar\/","title":{"rendered":"P&atilde;o de pernas-para-o-ar"},"content":{"rendered":"<p>Uma das mais antigas inven\u00e7\u00f5es humanas \u00e9 o p\u00e3o. Deve ter surgido na Mesopot\u00e2mia pouco depois da descoberta agricultura e a alimenta\u00e7\u00e3o humana nunca mais foi a mesma desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Tal como na olaria, em que o barro endurecia por uma misteriosa ac\u00e7\u00e3o do fogo, o fabrico do p\u00e3o era uma estranha alquimia. A partir de uma massa mole e el\u00e1stica obtinha-se um novo alimento, mais f\u00e1cil de comer e transportar que o cereal do qual era feita a farinha.<\/p>\n<p>A descoberta do fogo, da moagem e da agricultura foram saltos civilizacionais sem compara\u00e7\u00e3o poss\u00edvel com \u00e9pocas mais recentes. Autom\u00f3veis e electricidade, as inova\u00e7\u00f5es mais significativas dos \u00faltimos s\u00e9culos, apenas vieram permitir fazer o mesmo de forma ligeiramente diferente.<\/p>\n<p>Mas voltemos ao p\u00e3o. C\u00e1 em casa costumamos faz\u00ea-lo n\u00f3s mesmos. Umas vezes com a m\u00e1quina, o que se resume a medir \u00e1gua e farinha e esperar algumas horas, e outras vezes \u00e0 m\u00e3o, que \u00e9 um pouco mais trabalhoso, mas o resultado final \u00e9 muito melhor.<\/p>\n<p>Obviamente que, gra\u00e7as aos confortos do mundo moderno, nos podemos dar ao luxo de cozer um p\u00e3o de cada vez. As grandes fornadas dos fornos comunit\u00e1rios das aldeias justificavam-se pelo grande investimento em lenha para se desamuar o forno. Cozia-se p\u00e3o com alguns dias de intervalo e em grandes quantidades. Cada um reconhecia o seu quer por uma qualquer marca especial que lhe tenha feito ou pela pr\u00f3pria forma de o moldar depois de amassado.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"P\u00e3o\" border=\"0\" alt=\"P\u00e3o\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/pao1.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Amassando<\/p>\n<p>Tal como o barro ganhava uma alma, facilmente atestado pelo som que as pe\u00e7as ganham depois de cozidas, o p\u00e3o tamb\u00e9m se tornava uma entidade nova. Esta cren\u00e7a subsiste at\u00e9 aos dias de hoje, com o p\u00e3o a ocupar um lugar central em muitas religi\u00f5es. O p\u00e3o, como entidade, \u00e9 respeitado. Simboliza a vida, afinal de contas.<\/p>\n<p>Diz a tradi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se deve virar um p\u00e3o de pernas-para-o-ar, n\u00e3o s\u00f3 porque n\u00e3o \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o em que melhor se equilibra ou aquela em que fica mais bonito, mas porque \u00e9 uma falta de respeito. Apesar de tudo, nunca vi ningu\u00e9m reclamar com o padeiro por ter os p\u00e3es num monte dentro de um cesto de verga.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"P\u00e3o\" border=\"0\" alt=\"P\u00e3o\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/pao2.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Acabado de fazer<\/p>\n<p>H\u00e1 quem diga que esta tradi\u00e7\u00e3o se prenda n\u00e3o s\u00f3 com considera\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas ou por respeito para com a entidade p\u00e3o, mas por raz\u00f5es mais pr\u00e1ticas. Uma poss\u00edvel explica\u00e7\u00e3o \u00e9 a lenda do p\u00e3o do carrasco, que ouvi ou li onde a mem\u00f3ria j\u00e1 n\u00e3o me sabe dizer.&#160; <\/p>\n<p>Reza, mais ou menos assim: h\u00e1 muitos s\u00e9culos, nas cidades e vilas onde a maioria dos habitantes n\u00e3o trabalhavam a terra, os fornos comunit\u00e1rios n\u00e3o existiam, cabia aos padeiros fazer e vender o p\u00e3o a quem o pudesse comprar. Uma profiss\u00e3o bem paga, tida como necess\u00e1ria, mas muito mal vista era a de carrasco. A associa\u00e7\u00e3o entre o p\u00e3o, s\u00edmbolo da vida, e o carrasco, s\u00edmbolo da morte, era estranha e, por isso, o p\u00e3o do carrasco era posto de parte e, para n\u00e3o se confundir com nenhum outro, era virado ao contr\u00e1rio, tornando-se, tamb\u00e9m ele, morte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das mais antigas inven\u00e7\u00f5es humanas \u00e9 o p\u00e3o. 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