{"id":5288,"date":"2011-03-30T00:00:00","date_gmt":"2011-03-29T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5288"},"modified":"2011-03-30T00:00:00","modified_gmt":"2011-03-29T23:00:00","slug":"para-ingls-ler","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/para-ingls-ler\/","title":{"rendered":"Para Ingl&ecirc;s ler"},"content":{"rendered":"<p>Com uma estrutura simples, facilitadora da cria\u00e7\u00e3o de neologismos de muito f\u00e1cil compreens\u00e3o, o Ingl\u00eas tornou-se a l\u00edngua t\u00e9cnica por excel\u00eancia e, por poder ser mal falada e compreendida por quase todos, a ci\u00eancia e os empres\u00e1rios de todo o mundo adoptaram-na como l\u00edngua franca. Na verdade, a l\u00edngua t\u00e9cnica deveria ser o Alem\u00e3o, mec\u00e2nico e exacto, mas dif\u00edcil de falar bem, precisamente por n\u00e3o admitir muitas excep\u00e7\u00f5es \u00e0 norma. <\/p>\n<p>Para tarefas mais subtis, como na diplomacia, em que uma palavra mal compreendida ou com significados demasiado latos podem ditar a sorte de guerras e pa\u00edses, h\u00e1 outras l\u00ednguas mais adequadas. At\u00e9 \u00e0 Grande Guerra, por exemplo, cabia ao Franc\u00eas assegurar este servi\u00e7o. Como os americanos n\u00e3o o dominavam, mas tiveram um papel de peso no desfecho da guerra, acabou por ser a sua l\u00edngua a usada da\u00ed em diante para esta tarefa. <\/p>\n<p>O Portugu\u00eas, com a sua estrutura complicada e palavras que n\u00e3o existem em mais nenhuma l\u00edngua, \u00e9 l\u00edngua de poetas, \u00e9 a ferramenta delicada com que esculpem uma descri\u00e7\u00e3o do mundo sem que nele cheguem a falar. N\u00e3o \u00e9 mec\u00e2nica nem se presta a neologismos f\u00e1ceis, pois todos se parecem com acrescentos feios, marquises de alum\u00ednio em fachada de pal\u00e1cio. Perde em musicalidade para muitas, mas \u00e9 de conceitos lindos.<\/p>\n<p>Infelizmente, como povo, n\u00e3o gostamos dela. Fazemos os poss\u00edveis por a maltratar e menosprezar. \u00c0 m\u00ednima oportunidade, trocamo-la por um estrangeirismo, trocamos palavras de ouro por grunhidos de pl\u00e1stico mal acabados. Est\u00e1 na moda ter lemas de empresa em Ingl\u00eas, para parecer mais internacional, asseguram. Suspeito que na maioria das vezes seja apenas para armar ao fino.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Casa Fernando Pessoa\" border=\"0\" alt=\"Casa Fernando Pessoa\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/pessoa.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Casa Fernando Pessoa, mestre da l\u00edngua<\/p>\n<p>O Centro de Investiga\u00e7\u00e3o Champalimaud, por exemplo, n\u00e3o escapa a esta febre e, na Avenida de Bras\u00edlia, ostenta um letreiro em perfeito Ingl\u00eas e tamb\u00e9m num ensurdecedoramente omisso Portugu\u00eas.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Estado, que devia defender a l\u00edngua, nem que fosse como s\u00edmbolo de soberania, \u00e9 o primeiro a esquec\u00ea-la. Entre especula\u00e7\u00e3o editorial disfar\u00e7ada de acordo ortogr\u00e1fico e outras aventuras, pro\u00edbe a publicidade em l\u00edngua estrangeira, mas \u00e9 o primeiro a violar a proibi\u00e7\u00e3o ao apresentar uma lista de nomes aprovados para a constitui\u00e7\u00e3o de empresas por processo expedito pejada de nomes em Ingl\u00eas, seguramente para compensar as barbaridades escritas em Portugu\u00eas e se poder escolher o mal menor. O Instituto Nacional de Estat\u00edstica, para todos poderem apreciar a magn\u00edfica internacionalidade da institui\u00e7\u00e3o, fez constar no canto superior direito de cada boletim dos censos deste ano um modesto \u00abstatistics portugal\u00bb.<\/p>\n<p>At\u00e9 a minha companhia de seguros, portuguesa, foi incapaz de resistir a esta onda e, no recibo a ap\u00f3lice, toda escrita em Portugu\u00eas, dirige-se a mim, cidad\u00e3o Portugu\u00eas, morador em Portugal, com um fant\u00e1stico \u00abExmo. Senhor \/ Dear Sir\u00bb. Se n\u00e3o \u00e9 para armar ao pingarelho, \u00e9 para qu\u00ea?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com uma estrutura simples, facilitadora da cria\u00e7\u00e3o de neologismos de muito f\u00e1cil compreens\u00e3o, o Ingl\u00eas tornou-se a l\u00edngua t\u00e9cnica por excel\u00eancia e, por poder ser mal falada e compreendida por quase todos, a ci\u00eancia e os empres\u00e1rios de todo o mundo adoptaram-na como l\u00edngua franca. 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