{"id":5292,"date":"2011-04-12T00:00:00","date_gmt":"2011-04-11T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5292"},"modified":"2012-01-05T02:09:37","modified_gmt":"2012-01-05T01:09:37","slug":"o-vulco-adamastor-segunda-parte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/o-vulco-adamastor-segunda-parte\/","title":{"rendered":"O vulc&atilde;o Adamastor (segunda parte)"},"content":{"rendered":"<p>O presente artigo, por ser muito extenso, foi dividido em v\u00e1rias partes. Esta \u00e9 a segunda. A primeira pode ser lida <a title=\"O vulc\u00e3o Adamastor (primeira parte)\" href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5290\" target=\"_blank\">aqui<\/a>\u00a0e a \u00faltima <a title=\"O vulc\u00e3o Adamastor (terceira parte)\" href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5293\" target=\"_blank\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria foi interrompida exactamente quando ocorre um tremor de terra, o momento em que uma falha liberta toda a energia acumulada ao longo dos anos. Os edif\u00edcios come\u00e7am a tremer com um barulho surdo, alguns desmoronam-se e o p\u00e2nico instala-se.<\/p>\n<p>Nesses instantes que, aposto, parecem durar horas, o mundo fica virado do avesso. A confian\u00e7a na imutabilidade da Terra desaparece e a ideia de que h\u00e1 em funcionamento for\u00e7as mais poderosas do que imaginamos deve ocupar o esp\u00edrito. Est\u00e1 assegurada mat\u00e9ria-prima de primeira ordem para mitologias e hist\u00f3rias fant\u00e1sticas.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito disto, o meu primo J. enviou-me dois textos. Um pequeno excerto do Canto Quinto d&#8217;\u00abOs Lus\u00edadas\u00bb, e algumas p\u00e1ginas do livro \u00abDeuses, Mitos e Lendas\u00bb (ISBN: 9789724816197), onde se interpreta a mitologia da grande epopeia de Cam\u00f5es.<\/p>\n<p>Na passagem do Cabo das Tormentas, os portugueses enfrentam o sinistro Adamastor, um gigante que viu a sua carne transformada em penedo frio e escuro, como castigo por se ter apaixonado como uma ninfa. A sua f\u00faria cega, \u00e0 altura da sentida pelo c\u00edclope Polifemo contra Ulisses, \u00e9 alimentada pela desilus\u00e3o, pelas ondas que o fustigam e pelos cascos das naus que por ele se ro\u00e7am, como que fazendo mofa da sua imobilidade. Contra as naus e os viajantes se vinga do seu castigo injusto. Adamastor \u00e9 o guardi\u00e3o do Cabo das Tormentas e defend\u00ea-lo-\u00e1 com todas as suas for\u00e7as.<\/p>\n<p>A certas alturas, a descri\u00e7\u00e3o do gigante pode ser comparada com a de uma erup\u00e7\u00e3o no mar. A lava que escorre para o oceano e se transforma em penedos numa nuvem de vapor, o vento quente que sopra e as explos\u00f5es que projectam rochas pelo ar parecem encaixar na perfei\u00e7\u00e3o num Adamastor em f\u00faria. Teria Cam\u00f5es presenciado alguma erup\u00e7\u00e3o vulc\u00e2nica que o inspirasse?<\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o ser f\u00e1cil saber com certeza o que viu o poeta, pode-se tentar cruzar cronologias e procurar algumas provas que sustentem esta hip\u00f3tese. Para a refutar haver\u00e1 dezenas de outras interpreta\u00e7\u00f5es, mas a biografia de Cam\u00f5es tem tanto de desconhecido como de interessante.<\/p>\n<p>Sabemos que Cam\u00f5es viveu quase tr\u00eas lustres no Oriente, ao servi\u00e7o do rei. Em 1553, partiu de Lisboa numa nau comandada por D. Fern\u00e3o \u00c1lvares Cabral, ocupando o lugar de um escudeiro destacado para a \u00cdndia, possivelmente como maneira de sair da pris\u00e3o ap\u00f3s ter ferido um mo\u00e7o de arreios de D. Jo\u00e3o III \u2013 Cam\u00f5es era atreito a brigas e isso levou-o muitas vezes ao calabou\u00e7o.<\/p>\n<p>Chegou a Goa no ano seguinte, tendo sido de imediato enviado para a costa do Malabar e Golfo P\u00e9rsico. Mais tarde navegou para a China e, provavelmente, at\u00e9 Macau, onde se diz ter escrito parte da epopeia. Conhecendo estes destinos e as rotas comerciais da \u00e9poca, uma vez que apenas de barco se conseguia vencer tais dist\u00e2ncias rapidamente, podemos restringir a procura de pistas para uma eventual inspira\u00e7\u00e3o vulc\u00e2nica do Adamastor a algumas zonas espec\u00edficas.<\/p>\n<p>O Estreito de Malaca era a principal liga\u00e7\u00e3o entre os oceanos \u00cdndico e Pac\u00edfico. No s\u00e9c. XVI, quem deixava Goa aportava em Malaca e depois seguia viagem para norte, em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 China, ou continuava para Este, at\u00e9 um dos mais importantes entrepostos da \u00e9poca, o Forte de S\u00e3o Jo\u00e3o Baptista de Ternate, ou simplesmente, Fortaleza de Maluco. A ilha de Ternate faz parte das famosas Molucas, as ilhas da pimenta.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"display: inline; border: 0px;\" title=\"Rochas a entrar na \u00e1gua\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/rochas.jpg\" alt=\"Rochas a entrar na \u00e1gua\" width=\"600\" height=\"400\" border=\"0\" \/><br \/>\nOs dedos de Adamastor<\/p>\n<p>\u00c9 preciso n\u00e3o esquecer que a Indon\u00e9sia actual se localiza numa longa crista de vulc\u00f5es formados ao longo da zona de subduc\u00e7\u00e3o das placas Euroasi\u00e1tica e Indoaustraliana e foi precisamente nesta regi\u00e3o que ocorreu o grande sismo de Natal de 2004 e cujo maremoto associado causou perto de um quarto de milh\u00e3o de mortos (<a title=\"O vulc\u00e3o Adamastor (primeira parte)\" href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5290\" target=\"_blank\">ver a primeira parte<\/a>). Ao longo dos Estreitos de Malaca e Sunda h\u00e1 in\u00fameros vulc\u00f5es activos, alguns dos quais se sabe terem sofrido grandes erup\u00e7\u00f5es durante a passagem de Cam\u00f5es \u2013 Monte Merapi em 1554 e 1560, vulc\u00f5es Rajabasa e Kelud pela mesma altura. Infelizmente, quase todos se localizam no lado sul de Samatra ou muito no interior, pelo que s\u00e3o candidatos improv\u00e1veis.<\/p>\n<p>Na ponta oriental da ilha de Samatra havia um imponente vulc\u00e3o a rematar o Estreito de Sunda. Chamava-se Krakatoa e explodiu em 1883, embora se saiba que tenha havido grandes erup\u00e7\u00f5es nos s\u00e9culos anteriores. O Estreito de Sunda, n\u00e3o era rota habitual, pois obrigava a contornar Samatra pelo sul, por mares mais perigosos. Tamb\u00e9m o Krakatoa tem de ser descartado como inspira\u00e7\u00e3o para o Adamastor.<\/p>\n<p>Na outra ponta de Samatra, no mar de Andam\u00e3o, j\u00e1 parte do oceano \u00cdndico, a pequena ilha de Weh foi formada por um vulc\u00e3o e faria parte dos pontos de refer\u00eancia da navega\u00e7\u00e3o. Os seus penedos escuros e frios mergulham no mar, mas est\u00e3o adormecidos e silenciosos h\u00e1 mil\u00e9nios. Cam\u00f5es viu-os certamente, mas o gigante Adamastor n\u00e3o se escondia aqui.<\/p>\n<p>Continua\u00a0<a title=\"O vulc\u00e3o Adamastor (terceira parte)\" href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5293\" target=\"_blank\">aqui<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presente artigo, por ser muito extenso, foi dividido em v\u00e1rias partes. Esta \u00e9 a segunda. A primeira pode ser lida aqui\u00a0e a \u00faltima aqui. 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