{"id":5293,"date":"2011-04-15T00:00:00","date_gmt":"2011-04-14T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5293"},"modified":"2011-04-15T00:00:00","modified_gmt":"2011-04-14T23:00:00","slug":"o-vulco-adamastor-terceira-parte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/o-vulco-adamastor-terceira-parte\/","title":{"rendered":"O vulc&atilde;o Adamastor (terceira parte)"},"content":{"rendered":"<p>O presente artigo, por ser muito extenso, foi dividido em v\u00e1rias partes. Esta \u00e9 a terceira e \u00faltima. A primeira pode ser lida <a title=\"Artigo: O vulc\u00e3o Adamastor (primeira parte)\" href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5290\" target=\"_blank\">aqui<\/a> e a segunda <a title=\"Artigo: O vulc\u00e3o Adamastor (segunda parte)\" href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5292\" target=\"_blank\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria foi interrompida quando se ponderava se haveria algum vulc\u00e3o em actividade em meados do s\u00e9c. XVI capaz de inspirar a descri\u00e7\u00e3o do gigante Adamastor, o guardi\u00e3o do Cabo das Tormentas. V\u00e1rios vulc\u00f5es foram analisados e exclu\u00eddos. Merapi, Rajabasa, Kelud e Krakatoa estiveram em erup\u00e7\u00e3o na \u00e9poca certa, mas a sua localiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o se adequa \u00e0 biografia de Cam\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente nas ilhas Molucas que encontramos o candidato mais prov\u00e1vel para um vulc\u00e3o capaz de inspirar Cam\u00f5es na sua descri\u00e7\u00e3o do gigante Adamastor e da sua for\u00e7a tel\u00farica. A fortaleza de Ternate foi constru\u00edda \u00e0 sombra do vulc\u00e3o Gamalama, que sofreu uma violenta erup\u00e7\u00e3o em 1561, com nuvens de cinza, abalos e explos\u00f5es ruidosas e derramamento de lava no mar. Mesmo que Cam\u00f5es n\u00e3o a tenha presenciado directamente, o que \u00e9 prov\u00e1vel uma vez que, em 1560, naufragou na foz do Mekong, nas costas do actual Camboja, regressando a Goa em 1561, a import\u00e2ncia do lugar certamente lhe ter\u00e1 feito chegar relatos fidedignos da mesma. Por esta altura j\u00e1 tinha escrito a epopeia e, reza a lenda, ter\u00e1 nadado com um s\u00f3 bra\u00e7o para salvar o manuscrito de se perder no mar, mas tamb\u00e9m \u00e9 certo que lhe daria os \u00faltimos retoques em Mo\u00e7ambique, alguns anos depois.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u00abAssi contava, e c&#8217;um medonho choro      <br \/>S\u00fabito d&#8217;ante os olhos se apartou       <br \/>Desfez-se a nuvem negra, e c&#8217;um sonoro       <br \/>Bramido muito longe o mar soou.       <br \/>Eu, levantando as m\u00e3os ao santo coro       <br \/>Dos Anjos, que t\u00e3o longe nos guiou,       <br \/>A Deus pedi que removesse os duros       <br \/>Casos que Adamastor contou futuros.\u00bb<\/p>\n<p>Os Lus\u00edadas, Canto Quinto, estrofe 60 (o desaparecimento do Adamastor)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Um outro candidato a vulc\u00e3o Adamastor seria o Gamkonora, situado a algumas centenas de quil\u00f3metros a norte de Ternate, cuja primeira erup\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 registo data tamb\u00e9m do s\u00e9c. XVI, mais precisamente, em 1564. Esta, por\u00e9m, n\u00e3o ocorreu num local t\u00e3o importante como a anterior.<\/p>\n<p>Em Goa, Cam\u00f5es \u00e9 preso por se ter apropriado indevidamente dos bens que tinha \u00e0 sua guarda, por iner\u00eancia das fun\u00e7\u00f5es que desempenhou na China. Julga-se que esta pris\u00e3o ter\u00e1 sido injusta, mas n\u00e3o se conhecem provas em contr\u00e1rio. Ser\u00e1 libertado em 1562. Nos anos seguintes vive em Goa, sob protec\u00e7\u00e3o do vice-rei, mas sempre queixando-se da vida dif\u00edcil e sonhando regressar a Portugal.<\/p>\n<p>Em 1567, consegue embarcar numa nau ao servi\u00e7o de D. P\u00earo Barreto, novo capit\u00e3o de Mo\u00e7ambique, que lhe custeia a passagem para a Ilha de Mo\u00e7ambique e lhe promete emprego. Ao que consta, essa promessa ficou por cumprir, assim como o pagamento da d\u00edvida, pelo que Cam\u00f5es foi preso mais uma vez. Na pris\u00e3o, reescreve algumas partes d&#8217;\u00ab<em>Os Lus\u00edadas<\/em>\u00bb e, em 1569, consegue regressar a Portugal, com o aux\u00edlio de D. Diogo Couto e outros amigos, que lhe pagam as d\u00edvidas.<\/p>\n<p>Adamastor, ap\u00f3s longos anos de guerra em causa alheia (como Cam\u00f5es), apaixonou-se por uma ninfa que certa vez viu na praia. Era T\u00e9tis, um amor proibido (como aconteceu in\u00fameras vezes a Cam\u00f5es). Resolveu tom\u00e1-la pelas armas, mas foi enganado por D\u00f3ris, a filha de T\u00e9tis, que lhe armou uma cilada, prometendo-lhe um encontro com a ninfa desejada. Correu para os bra\u00e7os do que julgava ser T\u00e9tis, mas viu-se abra\u00e7ado a um duro penedo.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u00abConverte-se-me a carne em terra dura     <br \/>Em penedos os ossos se fizeram      <br \/>Estes membros que v\u00eas e esta figura      <br \/>Por estas longas \u00e1guas se estenderam;      <br \/>Enfim, minha grand\u00edssima estatura      <br \/>Neste remoto cabo converteram      <br \/>Os Deuses; e, por mais obradas m\u00e1goas,      <br \/>Me anda T\u00e9tis cercando destas \u00e1guas.\u00bb<\/p>\n<p>Os Lus\u00edadas, Canto Quinto, estrofe 59 (transforma\u00e7\u00e3o do Adamastor)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A Cam\u00f5es foi-lhe prometido regresso \u00e0 p\u00e1tria, mas acabou encarcerado, sabendo haver navios destinados a Portugal passando pelas paredes da sua pris\u00e3o. Esta \u00faltima visita ao c\u00e1rcere no Oriente pode explicar parte da caracteriza\u00e7\u00e3o do Adamastor, do sentimento de ter sido ludibriado, da resigna\u00e7\u00e3o e frustra\u00e7\u00e3o, qual Adamastor que sente a amada T\u00e9tis por perto. As descri\u00e7\u00f5es ouvidas da erup\u00e7\u00e3o em Ternate, as paisagens vulc\u00e2nicas que viu, a sua experi\u00eancia a dobrar o Cabo da Boa Esperan\u00e7a na d\u00e9cada anterior e a pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o em que se viu, preso por uma d\u00edvida que julgaria poder pagar se o emprego prometido n\u00e3o tivesse sido apenas um logro de P\u00earo Barreto, encaixam na imagem que nos deixa de um Adamastor amargurado e vingativo.<\/p>\n<blockquote>\n<p>&#8211; \u00abEu sou aquele oculto e grande cabo     <br \/>A quem chamais v\u00f3s outros Torment\u00f3rio      <br \/>Que nunca a Ptolomeu, Pomp\u00f3nio, Estrabo,      <br \/>Pl\u00ednio, e quantos passaram fui not\u00f3rio.      <br \/>Aqui toda a africana costa acabo      <br \/>Neste meu nunca visto promont\u00f3rio,      <br \/>Que para o P\u00f3lo Ant\u00e1rctico se estende,      <br \/>A quem vossa ousadia tanto ofende.\u00bb<\/p>\n<p>Os Lus\u00edadas, Canto Quinto, estrofe 50 (Adamastor narra a sua hist\u00f3ria)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O Cabo das Tormentas, com as suas escarpas abruptas e mares revoltos no encontro do Atl\u00e2ntico com o \u00cdndico era um desafio terr\u00edvel para a navega\u00e7\u00e3o, cuja descri\u00e7\u00e3o ficaria sempre incompleta caso Cam\u00f5es n\u00e3o ousasse criar um gigante tra\u00eddo, de f\u00faria inesgot\u00e1vel, que fizesse jus ao temor que aquela passagem causava aos navegadores.<\/p>\n<p>As rotas mais seguras, com um longo desvio para Sul, passavam ao largo do cabo, aproveitando as correntes fortes dos oceanos austrais que, sem continentes a impedir a passagem das \u00e1guas, circulam \u00e0 volta da Ant\u00e1rtida. Apesar disso, a grande diferen\u00e7a de temperaturas do Atl\u00e2ntico para o \u00cdndico, \u00e9 causa de grande agita\u00e7\u00e3o e tempestades. Uma rota mais austral n\u00e3o evitava as tempestades, mas evitaria um naufr\u00e1gio nas rochas.<\/p>\n<p>O poeta bebeu inspira\u00e7\u00e3o ao longo das suas muitas aventuras. Pelas descri\u00e7\u00f5es que faz dos lugares e das viagens temos a certeza que passou grande parte da vida naquelas paragens, sofrendo e lutando como aqueles sobre os quais escreve. Talvez tenha ouvido falar da erup\u00e7\u00e3o de Ternate, certamente viu muitas vezes escarpas vigorosas como dentes afiados a amea\u00e7ar os cascos, talvez haja ainda mais que tenha visto e que n\u00e3o saibamos pois, \u00e9 preciso n\u00e3o esquecer, Cam\u00f5es era personagem quase insignificante na \u00e9poca, membro da baixa nobreza ca\u00eddo em desgra\u00e7a, e o que sabemos da sua vida deve-se \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o de factos dispersos, da sua obra, de pequenos relatos de amigos que lhe reconheceram o g\u00e9nio ainda em vida. Tal n\u00e3o impediu que morresse na mis\u00e9ria, sustentado pelo fiel Ant\u00f3nio, o escravo jau.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u00abT\u00e3o temerosa vinha e carregada,     <br \/>Que p\u00f4s nos cora\u00e7\u00f5es um grande medo;      <br \/>Bramindo, o negro mar de longe brada,      <br \/>Como se desse em v\u00e3o nalgum rochedo.      <br \/>\u2013 \u00ab\u00d3 Potestade (disse) sublimada:      <br \/>Que amea\u00e7o divino ou que segredo      <br \/>Este clima e este mar nos apresenta,      <br \/>Que mor cousa parece que tormenta?\u00bb<\/p>\n<p>Os Lus\u00edadas, Canto Quinto, estrofe 38 (Adamastor anuncia-se)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Se Cam\u00f5es se inspirou num vulc\u00e3o para parte da caracteriza\u00e7\u00e3o do Adamastor \u00e9 incerto e at\u00e9 discut\u00edvel, mas comecei esta viagem sem saber o que encontraria. Sei agora que, apesar de rebuscado, \u00e9 poss\u00edvel que Cam\u00f5es tenha presenciado ou ouvido relatos em primeira m\u00e3o de uma erup\u00e7\u00e3o importante ocorrida na regi\u00e3o onde vivia na altura. Se essa experi\u00eancia moldou o Adamastor de alguma forma, s\u00f3 ele o poder\u00e1 explicar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presente artigo, por ser muito extenso, foi dividido em v\u00e1rias partes. Esta \u00e9 a terceira e \u00faltima. A primeira pode ser lida aqui e a segunda aqui. A hist\u00f3ria foi interrompida quando se ponderava se haveria algum vulc\u00e3o em actividade em meados do s\u00e9c. 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