{"id":5300,"date":"2011-05-04T00:00:00","date_gmt":"2011-05-03T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5300"},"modified":"2011-05-04T00:00:00","modified_gmt":"2011-05-03T23:00:00","slug":"a-tempestade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-tempestade\/","title":{"rendered":"A Tempestade"},"content":{"rendered":"<p>Marcando o final de um m\u00eas de Abril que quase n\u00e3o fazia jus ao nome, uma tempestade de chuva, rel\u00e2mpagos e granizo saldou as habituais promessas de pluviosidade primaveril. <\/p>\n<p>O dia come\u00e7ou abafado, com aquele calor desconfort\u00e1vel que precede as trovoadas. A meio da tarde o c\u00e9u escureu rapidamente e as primeiras gotas de chuva depressa deram lugar a granizo com pedras que cresceram at\u00e9 ao tamanho de berlindes.<\/p>\n<p>As muitas toneladas de gelo que ca\u00edram nos minutos seguintes fizeram a temperatura baixar cerca de quinze graus em menos de meia hora. As folhas e rebentos das \u00e1rvores, nascidos h\u00e1 poucas semanas, foram arrancados e arrastados pelo vento e pela \u00e1gua, deixando muitos carros quase camuflados de tantas folhas coladas nas portas e tejadilhos. As ruas no fundo das encostas, especialmente as que seguem ao longo de antigos leitos de ribeiras, encheram-se de <a title=\"Artigo: O caos da chuva\" href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=4233\" target=\"_blank\">lixo, folhas, \u00e1gua<\/a> e gelo.<\/p>\n<p>A enxurrada vinda da urbaniza\u00e7\u00e3o do Alto dos Moinhos, da zona do Califa e das transversais \u00e0 Conde de Almoster encheu por completo o quarteir\u00e3o da esta\u00e7\u00e3o de correios da Estrada de Benfica. A pequena praceta em frente, que serve de parque de estacionamento aos moradores, transformou-se num lago com carros e caixotes do lixo a flutuar em vez de patos e barcos.&#160; <\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Estrada de Benfica\" border=\"0\" alt=\"Estrada de Benfica\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/tempestade_1.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Rio da Estrada de Benfica<\/p>\n<p>Na altura dirigia-me para esse quarteir\u00e3o. Nas ruas circundantes, a \u00e1gua ainda n\u00e3o cobria os lancis e corria relativamente devagar, mas naquela parecia um rio. Parei o carro numa praceta fora da corrente, em cima do passeio j\u00e1 submerso, perfeitamente consciente que o carro n\u00e3o seria capaz de por ali navegar. Sa\u00ed e fui espreitar \u00e0 esquina como estava a rua seguinte. <\/p>\n<p>Seguindo pelo passeio, junto \u00e0s montras, consegui avan\u00e7ar alguns metros sem molhar muito os p\u00e9s. O panorama era desolador. V\u00e1rios carros flutuavam de encontro aos sinais de tr\u00e2nsito ou outros carros estacionados. No meio da rua, tr\u00eas condutores que arriscaram demasiado viam-se presos nos carros sem saber o que fazer. A cada m\u00e3o-cheia de minutos, outro condutor muito audaz ou apenas est\u00fapido avan\u00e7ava rua abaixo, directamente para o lago, certamente imaginando que conduzia uma lancha. Quando o motor parava, afogado, a\u00ed sim, preocupava-se, deitava as m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a e olhava em volta, para a \u00e1gua a subir e os carros a nadar no remoinho.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Estragos\" border=\"0\" alt=\"Estragos\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/tempestade_2.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Depois de esgotada a \u00e1gua avaliam-se os preju\u00edzos<\/p>\n<p>Por muito que os pe\u00f5es acenassem e gritassem para que n\u00e3o avan\u00e7assem, havia condutores, certamente hipnotizados pela cad\u00eancia dos limpa-p\u00e1ra-brisas, que pareciam p\u00f4r palas nos olhos e repetir para si mesmos, como se de uma f\u00f3rmula m\u00e1gica se tratasse, &quot;Tenho um cacilheiro. Tenho um cacilheiro.&quot; Teimavam que haveriam de passar at\u00e9 ser tarde demais e se verem presos na \u00e1gua gelada. S\u00f3 deixaram de tentar a loucura depois da pol\u00edcia lhes barrar a passagem, mas, mesmo assim, insistiam na urg\u00eancia que tinham em passar precisamente por aquela rua. <\/p>\n<p>As sarjetas, mesmo que n\u00e3o estivessem irremediavelmente entupidas como \u00e9 costume, foram incapazes de dar vaz\u00e3o a tamanho caudal. Lojas e garagens ficaram inundadas, alguns t\u00faneis da cidade transformaram-se em piscinas e o gelo foi-se acumulando por todo o lado. Parou de chover por volta das seis horas, duas horas depois de ter come\u00e7ado a tempestade. Pelos estragos que causou, poder-se-ia pensar que tivesse sido mais longa.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Gelo a cobrir as rodas dos carros\" border=\"0\" alt=\"Gelo a cobrir as rodas dos carros\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/tempestade_3.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Gelo acumulado<\/p>\n<p>Depois de esgotada a \u00e1gua, sobrou gelo em tamanha quantidade que parecia formar bancos de neve. Nalgumas ruas atingiu alturas superiores a meio metro. Demorar\u00e1 at\u00e9 que derreta todo, mesmo com os bombeiros e cantoneiros a usar agulhetas e escavadoras.&#160; <\/p>\n<p>Nas terras agr\u00edcolas em redor da cidade as culturas de primavera tamb\u00e9m sofreram grandes estragos, mas parece que, felizmente, o grosso da tempestade se restringiu \u00e0s zonas urbanas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcando o final de um m\u00eas de Abril que quase n\u00e3o fazia jus ao nome, uma tempestade de chuva, rel\u00e2mpagos e granizo saldou as habituais promessas de pluviosidade primaveril. O dia come\u00e7ou abafado, com aquele calor desconfort\u00e1vel que precede as trovoadas. A meio da tarde o c\u00e9u escureu rapidamente e as primeiras gotas de chuva [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[364,27,25],"tags":[527,1131,1132,704],"class_list":["post-5300","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-distrito-de-lisboa","category-lisboa","category-portugal","tag-clima","tag-granizo","tag-tempestade","tag-temporal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5300","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5300"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5300\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5300"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5300"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5300"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}