{"id":5307,"date":"2011-05-10T00:00:00","date_gmt":"2011-05-09T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5307"},"modified":"2011-05-08T12:56:45","modified_gmt":"2011-05-08T11:56:45","slug":"entretanto-em-berlim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/entretanto-em-berlim\/","title":{"rendered":"Entretanto, em Berlim"},"content":{"rendered":"<p>Em 1989 terminou a Guerra Fria. A linha da frente, devidamente assinalada com um muro de centena e meia de quil\u00f3metros, passava por Berlim e serpenteava por entre os bairros e canais, dividindo a cidade em duas. <\/p>\n<p>Desse muro de m\u00e1 mem\u00f3ria resta uma sec\u00e7\u00e3o \u00e0 beira do Rio Spree e uma linha no ch\u00e3o que marca a sua posi\u00e7\u00e3o junto da Porta de Brandenburgo. O resto foi transformado em entulho, que \u00e9 agora vendido em pedacinhos colados em postais tur\u00edsticos quase sempre pirosos. <\/p>\n<p>Antes de se tornar a frente da Guerra Fria, Berlim foi tamb\u00e9m a \u00faltima frente europeia da Segunda Guerra Mundial. Nos \u00faltimos dias de Abril de 1945, o centro da cidade foi conquistado rua a rua \u00e0s \u00faltimas for\u00e7as alem\u00e3s fi\u00e9is a Hitler por americanos, ingleses, franceses e russos. Passadas mais de seis d\u00e9cadas, as marcas dos tiros ainda s\u00e3o vis\u00edveis em quase todos os edif\u00edcios monumentais.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px; display: inline; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px\" title=\"Cicatrizes da guerra\" border=\"0\" alt=\"Cicatrizes da guerra\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/alemanha3.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Museu Pergamon<\/p>\n<p>Nota-se que h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o em n\u00e3o esquecer a Hist\u00f3ria. Reconstroem-se as pontes e as casas, mas n\u00e3o se apagam por completo as marcas da destrui\u00e7\u00e3o e, um pouco por todo o lado, pequenos monumentos prestam homenagem silenciosa \u00e0s v\u00e1rias v\u00edtimas das guerras &#8211; os homens, as ideias e as cidades. Nas primeiras categorias, os mais significativos s\u00e3o o memorial \u00e0s v\u00edtimas do Holocausto e a biblioteca vazia para dentro da qual se espreita por uma janela no ch\u00e3o em frente \u00e0 Universidade Humbolt, que assinala o local onde se queimaram os livros proibidos pelo Terceiro Reich.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px; display: inline; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px\" title=\"Ru\u00ednas do parlamento\" border=\"0\" alt=\"Ru\u00ednas do parlamento\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/alemanha1.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Velho parlamento<\/p>\n<p>O memorial \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da cidade \u00e9 mais emblem\u00e1tico. \u00c9 o velho edif\u00edcio do parlamento, cujo inc\u00eandio de 1933 serviu de pretexto para a suspens\u00e3o da constitui\u00e7\u00e3o e consequente subida ao poder de Adolf Hitler, \u00e9 tamb\u00e9m uma mem\u00f3ria da guerra. As suas ru\u00ednas ficaram numa zona de ningu\u00e9m, a fronteira entre os sectores americano e russo, numa situa\u00e7\u00e3o inc\u00f3moda e, a partir de 1961, passou a ter o Muro a poucos metros das traseiras. Com um parlamento instalado em Bona e outro na Embaixada da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, ficou abandonado durante quase cinquenta anos. Foi reconstru\u00eddo depois da queda do Muro.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px; display: inline; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px\" title=\"Nova arqutectura\" border=\"0\" alt=\"Nova arqutectura\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/alemanha2.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Novo parlamento<\/p>\n<p>No tempo das duas Alemanhas, os filmes de espi\u00f5es tinham passagem obrigat\u00f3ria pela cidade, e quase sempre faziam men\u00e7\u00e3o ponto de controlo \u00e0 sa\u00edda do sector americano da cidade, o Checkpoint Charlie. Hoje resta o s\u00edtio. O pequeno edif\u00edcio do posto de controlo foi colocado num museu e, dizem, a famosa placa branca com letras pretas que o assinalava foi roubada durante a noite. Uma nova marca o s\u00edtio. Mas qualquer berlinense sabe indicar como l\u00e1 se chega. <\/p>\n<p>A adapta\u00e7\u00e3o dos alem\u00e3es orientais ao capitalismo foi f\u00e1cil, contou-me um amigo que cresceu na metade socialista da Alemanha. O dif\u00edcil foi perder velhos h\u00e1bitos, como da primeira vez a seguir \u00e0 reunifica\u00e7\u00e3o em que foi ver uma partida de futebol ao lado ocidental. Confessou que todos os berlinenses orientais, como ele, n\u00e3o repararam nos lugares sentados e ficaram de p\u00e9, como sempre tinham feito.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m destas pequenas diferen\u00e7as de h\u00e1bitos, h\u00e1 ainda pormenores na cidade que nos relembram ter havido d\u00e9cadas de separa\u00e7\u00e3o. Os pr\u00f3prios sem\u00e1foros para pe\u00f5es podem ajudar a perceber se estamos na parte ocidental ou oriental da cidade. No lado ocidental usam-se os sinais estilizados do c\u00f3digo de estrada internacional. No lado oriental voltaram a ser instalados os antigos sinais, desenhados para que fossem facilmente percebidos at\u00e9 por crian\u00e7as, em 1961. Grande parte n\u00e3o s\u00e3o originais, mas sim fruto de algum revivalismo da iconografia da RDA.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Unter den Linden, Ampelmann\" border=\"0\" alt=\"Unter den Linden, Ampelmann\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/alemanha6.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/><em>Ampelmann<\/em> oriental<\/p>\n<p>No geral, as diferen\u00e7as entre as duas metades da cidade n\u00e3o s\u00e3o hoje t\u00e3o evidentes. Os centros comerciais com as lojas iguais \u00e0s do resto do mundo ofuscam e escondem a arquitectura caracter\u00edstica da RDA, como o centro de congressos e o colossal armaz\u00e9m socialista, que agora vende bens de consumo para capitalistas, parecem pequenos e antiquados ao lado das torres de vidro da nova era. Apenas a imensa torre de televis\u00e3o com 368 metros de altura resiste orgulhosamente no centro da Alexander Platz. Acede-se de elevador ao restaurante girat\u00f3rio instalado a 207 metros de altura.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px; display: inline; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px\" title=\"Fernsehturm\" border=\"0\" alt=\"Fernsehturm\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/alemanha4.jpg\" width=\"400\" height=\"600\" \/>    <br \/>Atr\u00e1s da Igreja de Santa Maria<\/p>\n<p>Sentado num banco alto junto da porta, o ascensorista de cabelos brancos repete, mecanicamente e com a voz cansada, que se sobe a seis metros por segundo, que a viagem demora pouco mais de meio minuto e a sa\u00edda \u00e9 a esquerda, obrigado. As \u00faltimas palavras s\u00e3o mais dif\u00edceis de perceber porque toda a gente, excepto o ascensorista, se queixa dos ouvidos.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 mais coisas curiosas acerca deste monumento. Segundo parece, a ideia da torre partiu de um dirigente socialista que j\u00e1 anteriormente tinha constru\u00eddo uma estrutura semelhante em Leipzig, mas que o tinha feito no lugar de uma igreja que mandou demolir, de acordo com a sua ideologia anti-religiosa. A torre de Berlim ficaria tamb\u00e9m no lugar da Igreja de Santa Maria, o pequeno edif\u00edcio de tijolo vermelho que se situa a poucos metros da base da torre, escondido atr\u00e1s de algumas \u00e1rvores, mas a contesta\u00e7\u00e3o popular, algo inaudito na Alemanha Oriental, fez com que se preservasse a igreja e a torre n\u00e3o dominasse por completo a Alexander Platz.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m desta hist\u00f3ria atribulada, a forma dos pain\u00e9is que revestem a esfera do restaurante e miradouro reflectem a luz do Sol sempre como uma cruz brilhante, o que levou alguns alem\u00e3es a dar-lhe uma alcunha curiosa, inspirada no nome e na anti-religiosidade do dirigente socialista \u2013 esta \u00e9 a Torre de S\u00e3o Mateus.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"A cruz de S\u00e3o Mateus\" border=\"0\" alt=\"A cruz de S\u00e3o Mateus\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/alemanha5.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>A cruz de S\u00e3o Mateus<\/p>\n<p>Deste que \u00e9 o mais alto edif\u00edcio alem\u00e3o, a vista sobre a cidade \u00e9 magn\u00edfica, embora fiquemos sempre com a sensa\u00e7\u00e3o de que umas colinas aqui e ali lhe dariam muito mais gra\u00e7a. \u00c0 semelhan\u00e7a de tantas outras grandes cidades europeias, \u00e9 completamente plana. Os rios sinuosos que atravessam a cidade apenas refor\u00e7am a ideia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1989 terminou a Guerra Fria. A linha da frente, devidamente assinalada com um muro de centena e meia de quil\u00f3metros, passava por Berlim e serpenteava por entre os bairros e canais, dividindo a cidade em duas. 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