{"id":5317,"date":"2011-05-30T00:00:00","date_gmt":"2011-05-29T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5317"},"modified":"2011-06-04T21:08:49","modified_gmt":"2011-06-04T20:08:49","slug":"devolutos-pintados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/devolutos-pintados\/","title":{"rendered":"Devolutos pintados"},"content":{"rendered":"<p>O \u00faltimo meio s\u00e9culo de Lisboa n\u00e3o lhe tem sido simp\u00e1tico. O crescimento desordenado dos sub\u00farbios e a reorganiza\u00e7\u00e3o da cidade em torno da circula\u00e7\u00e3o dos autom\u00f3veis levou a que o centro ficasse despovoado, e os bairros t\u00edpicos perdessem a sua alma, vazios de novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Hoje, o centro da capital est\u00e1 pejado de edif\u00edcios devolutos. Esvaziados lentamente, n\u00e3o s\u00f3 por n\u00e3o haver habitantes suficientes na pr\u00f3pria cidade, mas tamb\u00e9m porque se come\u00e7aram a degradar e a oferecer cada vez menos condi\u00e7\u00f5es, acabaram por ficar abandonados \u00e0 sorte de quem lhes arrombava as portas durante a noite.<\/p>\n<p>H\u00e1 poucas d\u00e9cadas eram frequentes os inc\u00eandios em pr\u00e9dios devolutos, quase sempre causados por mendigos que neles procuravam um tecto. Nalguns casos, pairava a suspeita de fogo posto para apressar a demoli\u00e7\u00e3o e libertar o espa\u00e7o para mais uma constru\u00e7\u00e3o de tra\u00e7a moderna\u00e7a \u2013 feia, alta e chapeada a vidro.<\/p>\n<p>Para acabar com os inc\u00eandios acidentais e evitar que os pr\u00e9dios devolutos servissem de abrigo para quem deseja mais do que pernoitar, passou a ser obrigat\u00f3rio entaipar portas e janelas at\u00e9 ao segundo andar. Os velhos edif\u00edcios vazios deixaram de ter os restos das portas penduradas nos gonzos. T\u00eam agora todos os v\u00e3os revestidos a cimento e tijolo.<\/p>\n<p>Degradam-se de uma forma mais discreta, primeiro com o apodrecimento do telhado, que acaba por cair, arrastando os pisos at\u00e9 que sobrem apenas as paredes. Apesar de tudo, o seu ar decr\u00e9pito n\u00e3o \u00e9 nada cativante. Os centros das cidades querem-se vivos, n\u00e3o com pr\u00e9dios mal embalsamados.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"display: inline; border: 0px;\" title=\"pinturas\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/pinturas.jpg\" border=\"0\" alt=\"Pinturas no devoluto\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nNa Av. Fontes Pereira de Melo<\/p>\n<p>Recentemente, tornou-se moda encomendar um pouco de maquilhagem para disfar\u00e7ar um pouco o ar engelhado ou espalhar c\u00e2nfora pelas esquinas, na tentativa de esconder o cheiro a morte do tecido urbano.<\/p>\n<p>O resultado final n\u00e3o disfar\u00e7a o pr\u00e9dio devoluto, pelo contr\u00e1rio, agora tornou-se o centro das aten\u00e7\u00f5es. Mal por mal, quem por l\u00e1 passava j\u00e1 nem lhe ligava, mas talvez tenha sido este o melhor efeito das pinturas gigantescas que adornam alguns edif\u00edcios tristemente vazios do centro de Lisboa. Agora \u00e9 imposs\u00edvel ignor\u00e1-los.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O \u00faltimo meio s\u00e9culo de Lisboa n\u00e3o lhe tem sido simp\u00e1tico. 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