{"id":5318,"date":"2011-06-06T00:00:00","date_gmt":"2011-06-05T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5318"},"modified":"2011-06-04T21:07:25","modified_gmt":"2011-06-04T20:07:25","slug":"o-poleiro-desaparecido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/o-poleiro-desaparecido\/","title":{"rendered":"O poleiro desaparecido"},"content":{"rendered":"<p>Cresci num pacato bairro dos arredores de Lisboa. Passei a inf\u00e2ncia a brincar no quintal, a escavar minhocas e a mostr\u00e1-las \u00e0 minha m\u00e3e, que me dizia, com um sorriso amarelo \u00abSim, sim, s\u00e3o muito bonitas, agora vai l\u00e1 p\u00f4-las outra vez.\u00bb<\/p>\n<p>As formigas, as lagartas e as aranhas eram entretenimento para uma tarde inteira, embora algumas tenham sido v\u00edtimas da crueldade inocente que alimenta a curiosidade das crian\u00e7as. Foram as suficientes para me lembrar disso, mas n\u00e3o tantas que me tenham deixado com problemas de consci\u00eancia \u2013 meras v\u00edtimas da curiosidade cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Recordar as maldades que fiz aos bichos trouxe-me \u00e0 mem\u00f3ria a primeira discuss\u00e3o filos\u00f3fica que tive com o meu pai. Foi exactamente sobre a licitude da experimenta\u00e7\u00e3o em animais e conclu\u00edmos que nalguns casos era admiss\u00edvel, mas quando feita apenas para demonstrar o que j\u00e1 se conhece resume-se a crueldade. Pouco depois desta conversa as aranhas do quintal deixaram de aparecer pernetas. J\u00e1 sabia que sem patas ficam surdas.<\/p>\n<p>Trepei aos ramos mais altos de todas as \u00e1rvores, mas a minha preferida sempre foi o limoeiro que, em momentos de maior afoiteza, dava para subir por um dos ramos finos e passar para o telhado do anexo. Os pardais usam-no como poleiro enquanto esperam pelo momento mais oportuno para ir saquear a tijela do c\u00e3o, isto \u00e9, pousam s\u00f3 para saber se h\u00e1 muito movimento, porque o rafeiro parece n\u00e3o se incomodar com os gatunos alados, quer sejam pardais, melros ou pombos.<\/p>\n<p>Este limoeiro, mais velho que eu, \u00e9 uma das \u00e1rvores que mais me preenche a mem\u00f3ria. Emoldurava a vista da janela da casa-de-banho e pareceu-se com uma \u00e1rvore normal at\u00e9 ao dia em que um dos ramos mais grossos se partiu. Ficou reduzido a um rid\u00edculo ponto de interroga\u00e7\u00e3o arb\u00f3reo, carregado de lim\u00f5es grandes e amarelos, que amea\u00e7ava partir-se a cada tempestade mais violenta. Resistiu a todas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Poleiro-limoeiro\" border=\"0\" alt=\"Poleiro-limoeiro\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/poleiro.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>O poleiro-limoeiro em dia de chuva, ainda com os ramos todos<\/p>\n<p>Esta semana, sem ventania merecedora desse nome, o \u00faltimo ramo tombou sem alarido. O ramo carcomido pela idade e pelos bichos torceu-se at\u00e9 cair por cima do muro do vizinho. Do limoeiro sobrou o tronco curto, quase oco, e um pequeno raminho coberto de folhas brilhantes.<\/p>\n<p>Encostado \u00e0 ombreira da porta da cozinha, tentei perceber porque raz\u00e3o a hera da parede do anexo preenche agora o lugar do limoeiro que me ensinou a trepar \u00e0s \u00e1rvores. Um s\u00edtio t\u00e3o familiar tornado estranho de um momento para o outro.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o fui o \u00fanico a estranhar a mudan\u00e7a. Nas horas seguintes, dezenas de pardais atrevidos, num cortejo cont\u00ednuo, foram chegando para se empoleirarem num dos ramos altos do limoeiro, mas ficavam a pairar por uns instantes, indecisos e confundidos pela falta do poleiro fiel, antes de optarem pelo telhado do anexo ou pelas \u00e1rvores do vizinho. Como os percebo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cresci num pacato bairro dos arredores de Lisboa. 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