{"id":5323,"date":"2011-06-27T00:00:00","date_gmt":"2011-06-26T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5323"},"modified":"2011-06-27T00:00:00","modified_gmt":"2011-06-26T23:00:00","slug":"os-holandeses-e-as-vedaes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/os-holandeses-e-as-vedaes\/","title":{"rendered":"Os holandeses e as veda&ccedil;&otilde;es"},"content":{"rendered":"<p>Tenho vindo a descobrir que a terra molda mais o car\u00e1cter das pessoas do que imaginava. A paisagem mais ou menos acidentada, a dureza do solo e o curso dos rios exercem uma influ\u00eancia semelhante \u00e0 da l\u00edngua na forma como determinam a maneira de pensar. Talvez seja at\u00e9 o meio que nos rodeia que acabe por moldar a l\u00edngua que, por sua vez, nos baliza as ideias.<\/p>\n<p>H\u00e1 conceitos que parecem perfeitamente naturais para certos povos mas que para outros n\u00e3o passam de exotismos improv\u00e1veis, especialmente quando esses outros tentam l\u00ea-los no contexto da sua terra natal. O melhor exemplo que disso conhe\u00e7o \u00e9 a primeira reac\u00e7\u00e3o dos holandeses aos muros de pedra solta que rendilham grande parte do Portugal rural.<\/p>\n<p>Nos idos de 2001, mais ou menos por altura dos atentados em Nova Iorque, estava nos A\u00e7ores. Connosco viajava um estudante holand\u00eas, que falava ingl\u00eas com um sotaque escoc\u00eas digno de Sean Connery. Estava fascinado com a fabulosa inefici\u00eancia dos muros de negra rocha vulc\u00e2nica que transformam a metade ocidental da ilha Terceira numa manta de retalhos verde.<\/p>\n<p>Perguntava-nos porque raz\u00e3o faziam os portugueses muros de pedra t\u00e3o altos. Deviam ser caros e demorar muito a construir. Uma veda\u00e7\u00e3o de arame ou madeira, como as que se faziam na Holanda, seria muito mais pr\u00e1tica, barata e, sobretudo, eficiente.<\/p>\n<p>A custo, tent\u00e1mos explicar que os muros n\u00e3o serviam apenas para delimitar as parcelas. Os campos n\u00e3o arroteados tinham mais pedras que mato e antes de se poderem cultivar era necess\u00e1rio ir empilhando as pedras em algum lado. Os muros altos, explic\u00e1mos, servem tamb\u00e9m para proteger as culturas dos ventos fortes e grandes varia\u00e7\u00f5es de temperatura, tal como se faz nas cepas do vinho do Pico.<\/p>\n<p>Para nosso desalento, n\u00e3o se mostrou convencido. Os nossos muros eram o paradigma da inefici\u00eancia quando comparados com as ordeiras veda\u00e7\u00f5es holandesas. Contrapunha todos os argumentos a favor dos muros com um displicente \u00abAinda assim&#8230;\u00bb A teimosia durou at\u00e9 que viu uma horta que n\u00e3o tinha sido limpa de pedras. Dois p\u00e9s de couve galega cresciam no meio de um imenso pedregal de bombas vulc\u00e2nicas, em pequenos caldeiros de pedras mais arrumadas. Entre as restante n\u00e3o cresciam ervas nem se conseguiam p\u00f4r os p\u00e9s. Depois de alguns passos desiquilibrados sobre as rochas de arestas afiadas come\u00e7ou a perceber a utilidade dos muros e deixou de nos falar da sua inefici\u00eancia.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Muros de pedra solta\" border=\"0\" alt=\"Muros de pedra solta\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/muros.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Muros de Vilar Maior <\/p>\n<p>Poderia pensar que este holand\u00eas era um caso isolado, mas eis que, passada uma d\u00e9cada, oi\u00e7o o mesmo argumento de um holand\u00eas diferente. \u00abEstes muros s\u00e3o bonitos, mas n\u00e3o s\u00e3o muito caros? Porque n\u00e3o fizeram uma veda\u00e7\u00e3o de arame ou madeira?\u00bb<\/p>\n<p>Parece-me que quem cresce numa terra sem rochas maiores que calhaus rolados \u00e9 incapaz de imaginar que as haja noutras partes do mundo, especialmente em grupos de mais de duas. Pilhas de pedras n\u00e3o conceitos estranhos e pilhas a formar muros \u00e9 coisa inconceb\u00edvel. Na Holanda, diz-me ele, h\u00e1 veda\u00e7\u00f5es de madeira que se espetam na terra com um martelo. S\u00e3o muito mais eficientes e devem demorar menos a fazer que estes nosso muros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho vindo a descobrir que a terra molda mais o car\u00e1cter das pessoas do que imaginava. A paisagem mais ou menos acidentada, a dureza do solo e o curso dos rios exercem uma influ\u00eancia semelhante \u00e0 da l\u00edngua na forma como determinam a maneira de pensar. Talvez seja at\u00e9 o meio que nos rodeia que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1012,25],"tags":[696,392,1144],"class_list":["post-5323","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-distrito-da-guarda","category-portugal","tag-identidade","tag-lingua","tag-muros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5323","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5323"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5323\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5323"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5323"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5323"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}