{"id":5328,"date":"2011-07-05T00:00:00","date_gmt":"2011-07-04T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5328"},"modified":"2011-07-05T00:00:00","modified_gmt":"2011-07-04T23:00:00","slug":"por-terras-de-basto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/por-terras-de-basto\/","title":{"rendered":"Por terras de Basto"},"content":{"rendered":"<p>As estradas que levam os autom\u00f3veis a todo o lado e a omnipresente televis\u00e3o quebram o isolamento que os vales e as serras impunham, diluindo as fronteiras que a topon\u00edmia insiste em preservar. As regi\u00f5es definidas por diferentes costumes e tradi\u00e7\u00f5es esvaziaram-se de significado. As pessoas mudam de ares com tanta facilidade que as gentes de cada aldeia e vila se tornam mais iguais a todas as outras.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Ginjas\" border=\"0\" alt=\"Ginjas\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/mondim3.jpg\" width=\"400\" height=\"600\" \/>    <br \/>Em Mondim de Basto<\/p>\n<p>Ainda assim, a topon\u00edmia antiga esclarece-nos quanto \u00e0 localiza\u00e7\u00e3o das terras, porque estas s\u00e3o, para j\u00e1, incapazes de se fazer \u00e0 estrada, um pouco como as \u00e1rvores, que se agarram tenazmente \u00e0s ra\u00edzes. Ami\u00fade, as regi\u00f5es herdam o nome do principal rio que por elas passa. <\/p>\n<p>Quase sempre s\u00e3o os rios mais importantes que d\u00e3o o nome \u00e0 regi\u00e3o. Algumas das mais c\u00e9lebres s\u00e3o as do Ave, do Corvo, do Douro, do Liz e do Tejo, mas h\u00e1 excep\u00e7\u00f5es, como acontece nas Terras de Basto, que devem o seu nome n\u00e3o ao Rio T\u00e2mega, importante rio internacional que passa pela cidade de Chaves, mas ao Rio Basto, um pequeno afluente deste \u00faltimo.<\/p>\n<p>A Regi\u00e3o de Basto resume-se a quatro Concelhos e, apesar de pequena, tinha uma identidade muito pr\u00f3pria, encravada entre as serras da Cabreira e do Alv\u00e3o. Hoje em dia, como tantas outras, perdeu muito da sua singularidade e, em termos humanos, confunde-se agora com grande parte do Minho e Douro Litoral.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Mondim de Basto\" border=\"0\" alt=\"Mondim de Basto\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/mondim2.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Mondim de Basto<\/p>\n<p>A cidade de Mondim de Basto fica encavalitada numa pequena eleva\u00e7\u00e3o \u00e0 beira da foz do Rio Cabril, e o Rio T\u00e2mega separa-a do Concelho de Celorico de Basto. Por aqui a \u00e1gua nunca falta, como atestam as levadas que se v\u00eaem \u00e0 sa\u00edda da cidade, mas, segundo dizem os mais velhos, a terra ar\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 muita nem das mais f\u00e9rteis. Os cereais eram produzidos nos Concelhos vizinhos e trazidos para serem mo\u00eddos nas muitas azenhas que juncam os vales em redor da cidade, junto dos rios ou das levadas. As \u00faltimas azenhas deixaram de funcionar h\u00e1 poucas d\u00e9cadas e nos Moinhos de Piscaredo h\u00e1 um interessante conjunto de ru\u00ednas de azenhas que aproveitavam a \u00e1gua umas das outras.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Levada do Piscaredo\" border=\"0\" alt=\"Levada do Piscaredo\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/mondim4.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Levada do Piscaredo<\/p>\n<p>Nem sempre a ideia de que as povoa\u00e7\u00f5es resistem \u00e0 mudan\u00e7a de h\u00e1bitos est\u00e1 correcta. O plano de constru\u00e7\u00e3o de barragens ao longo de todo o curso do rio T\u00e2mega ir\u00e1 tornar grande parte dos vales que conferiram as caracter\u00edsticas \u00fanicas da regi\u00e3o em grande albufeiras. Grande parte da mem\u00f3ria da sua identidade perdura nestes vales, nos monumentos, nas pontes medievais, nos caminhos rurais e nas casas com tra\u00e7a caracter\u00edstica.<\/p>\n<p>Uma visita urgente \u00e0 regi\u00e3o imp\u00f5e-se. Dentro de poucos meses, a Barragem do Frid\u00e3o fechar\u00e1 o vale a montante de Amarante, escondida por uma curva do T\u00e2mega. Os vales de Celorico, Mondim e Cabeceiras come\u00e7ar\u00e3o a ser limpos de \u00e1rvores e matos, e alguns monumentos, muito poucos, desmontados e mudados de s\u00edtio. A Senhora da Gra\u00e7a, etapa de montanha incontorn\u00e1vel da Volta a Portugal em Bicicleta passar\u00e1 a dominar um lago em vez de vales pedregosos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Mondim de Basto - Rio Cabril\" border=\"0\" alt=\"Mondim de Basto - Rio Cabril\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/mondim.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>A ponte sobre o Rio Cabril<\/p>\n<p>O delicioso vale do Cabril, cheio de velhas azenhas e bosques \u00e0 beira-rio deixar\u00e1 de existir, bem com a sua ponte medieval. Talvez a desmontem e reconstruam noutro lugar, como fizeram com o Cromeleque do Xer\u00eas, em \u00c9vora. Pode-se dizer que \u00e9 melhor que nada, mas o patrim\u00f3nio sem contexto fica sempre coxo.<\/p>\n<p>Algumas aldeias, encarrapitadas em pequenas colinas, passar\u00e3o a ser ilhas. Muitas estradas e pontes ter\u00e3o de ser constru\u00eddas em substitui\u00e7\u00e3o das que ficarem submersas e, \u00e0 primeira vista, o impacto social desta barragem ser\u00e1 muito maior que os das Barragem de Alqueva e Vilarinho das Furnas, que implicaram a destrui\u00e7\u00e3o de duas povoa\u00e7\u00f5es, mas se localizavam em zonas menos povoadas.<\/p>\n<p>As gentes da terra n\u00e3o querem a barragem. Mondim vive muito do turismo e albufeiras h\u00e1 muitas. A principal escola de canoagem de \u00e1guas bravas do pa\u00eds, a Pista do Frid\u00e3o, ser\u00e1 destru\u00edda, no seu lugar est\u00e1 prometida uma pista artificial para daqui a alguns anos \u2013 se a chegarem a construir. Por outro lado, as gentes da terra querem mais electricidade e empregos durante a constru\u00e7\u00e3o da barragem. N\u00e3o se pode ter tudo e o progresso nem sempre chega sem custos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As estradas que levam os autom\u00f3veis a todo o lado e a omnipresente televis\u00e3o quebram o isolamento que os vales e as serras impunham, diluindo as fronteiras que a topon\u00edmia insiste em preservar. As regi\u00f5es definidas por diferentes costumes e tradi\u00e7\u00f5es esvaziaram-se de significado. 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