{"id":5334,"date":"2011-07-15T00:00:00","date_gmt":"2011-07-14T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5334"},"modified":"2011-07-15T13:05:35","modified_gmt":"2011-07-15T12:05:35","slug":"a-cabea-de-so-gonalo-primeira-parte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-cabea-de-so-gonalo-primeira-parte\/","title":{"rendered":"A cabe&ccedil;a de S&atilde;o Gon&ccedil;alo (primeira parte)"},"content":{"rendered":"<p>O presente artigo, por ser muito extenso, foi dividido em v\u00e1rias partes. Esta \u00e9 a primeira.<\/p>\n<p>As \u00e1guas calmas do Douro escondem um rio muito fundo e perigoso e as barragens que o tentam domar apenas incutem uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a. \u00c9 o terceiro maior rio da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, alimentado por uma bacia hidrogr\u00e1fica que se estende de Soria ao Porto e de Verin \u00e0 Guarda.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do Tejo, que se pode espraiar pelas plan\u00edcies do Ribatejo quando chove muito, o Douro corre encaixado num vale profundo e \u00e9 alimentado por muitos afluentes importantes e qualquer tempestade fora do normal far\u00e1 com que o seu n\u00edvel suba, impar\u00e1vel.<\/p>\n<p>As cheias do Douro marcaram a vida de todas as povoa\u00e7\u00f5es ribeirinhas ao longo dos s\u00e9culos, desafiando as solu\u00e7\u00f5es que o Homem inventou para o domar. Durante as cheias mais importantes as pr\u00f3prias barragens parecem n\u00e3o ter nenhum efeito no rio, com a mesma altura de \u00e1gua a montante e a jusante. At\u00e9 a Ponte D. Lu\u00eds, a imagem do Douro na cidade do Porto, por pouco n\u00e3o perdia o tabuleiro inferior no Natal de 1909. A \u00e1gua do rio quase lhe tocava e chegou-se a ponderar cortar a ponte com explosivos para que o tabuleiro superior n\u00e3o fosse arrastado.<\/p>\n<p>Quando o Douro est\u00e1 em regime de cheia, eclipsa quaisquer cheias dos seus afluentes. Um destes, o Rio T\u00e2mega, tamb\u00e9m corre em vales apertados e \u00e9 alimentado por uma rede de afluentes densa, tal como o Douro onde desagua. As suas cheias marcam a hist\u00f3ria de Chaves e Amarante. Curiosamente, marcam tamb\u00e9m a Hist\u00f3ria de Vila Nova de Gaia.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"display: inline; border: 0px;\" title=\"Foz do Douro\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/porto.jpg\" alt=\"Foz do Douro\" width=\"600\" height=\"400\" border=\"0\" \/><br \/>\nFoz do Douro em dia de bonan\u00e7a<\/p>\n<p>O T\u00e2mega nasce na prov\u00edncia espanhola de Ourense, em Verin, no extremo norte da falha activa que passa por Chaves, R\u00e9gua e Penacova. Segue ao longo dessa falha at\u00e9 Chaves, famosa pelas suas nascentes quentes, e inflecte para Oeste poucos quil\u00f3metros a jusante, em direc\u00e7\u00e3o a Amarante.<\/p>\n<p>Antes de chegar a Amarante passa no estreito vale do Frid\u00e3o onde, em caso de cheia, sobe rapidamente. Assim que se v\u00ea livre do aperto deste vale, uma torrente furiosa galga as margens e espalha-se pelos terrenos mais baixos, invadindo toda a zona ribeirinha de Amarante.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma m\u00e3o-cheia de s\u00e9culos, numa destas ocasi\u00f5es em que o T\u00e2mega deixou o seu leito, a \u00e1gua chegou \u00e0 Capela de S\u00e3o Gon\u00e7alo de Amarante e, at\u00e9 pr\u00f3pria imagem do santo foi arrastada pelas \u00e1guas, deixando a capela vazia. Este santo do final do s\u00e9c. XII, curiosamente, de santo nem o nome tem, porque \u00e9 s\u00f3 Beato. Ca\u00edu em esquecimento e o processo de santifica\u00e7\u00e3o parou, talvez por todos assumirem que j\u00e1 se alcan\u00e7ou a santifica\u00e7\u00e3o por usucapi\u00e3o religioso.<\/p>\n<p>Diz-se que \u00e9 santo casamenteiro, que casa velhas e novas por, em vida, ter oficializado muitas uni\u00f5es de facto. Em Aveiro, onde \u00e9 conhecido por S\u00e3o Gon\u00e7alinho, as donzelas que procuram marido fazem-lhe promessas e pagam-nas atirando cavacas do alto da torre da igreja durante as festas em sua homenagem.<\/p>\n<p>Est\u00e1 associado a cultos ainda mais antigos, como atesta a Dan\u00e7a dos Mancos realizada s\u00f3 por homens em Aveiro, celebrando a cura de maleitas \u00f3sseas com falsos estropiados que se curam milagrosamente durante a cerim\u00f3nia, e tamb\u00e9m a ritos de fertilidade que antecedem o pr\u00f3prio cristianismo. Em Amarante as cavacas assumem uma forma f\u00e1lica, qual ex-votos, mais de acordo com ritos pag\u00e3os e dignos de figurar ao lado da cer\u00e2mica t\u00edpica das Caldas da Rainha. S\u00e3o os <em>caralhinhos de S\u00e3o Gon\u00e7alo<\/em> embora sejam pedidos s\u00f3 pelo apelido para n\u00e3o ofender os restantes clientes das pastelarias. Durante o Estado Novo chegaram a ser proibidos mas, como sempre em Portugal, apenas com a convic\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para que parecesse que sim.<\/p>\n<p>Mas houve um dia aziago em que o S\u00e3o Gon\u00e7alo de Amarante foi rio abaixo, fazendo companhia ao recheio de muitas casas e gente menos afortunada. Em Castelo de Paiva virou \u00e0 direita e continuou pelo Douro, juntando-se aos destro\u00e7os do Peso da R\u00e9gua porque se o T\u00e2mega vai cheio, o Douro vai mais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presente artigo, por ser muito extenso, foi dividido em v\u00e1rias partes. Esta \u00e9 a primeira. 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