{"id":5342,"date":"2011-07-20T00:00:00","date_gmt":"2011-07-19T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5342"},"modified":"2011-07-20T00:00:00","modified_gmt":"2011-07-19T23:00:00","slug":"a-cabea-de-so-gonalo-segunda-parte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-cabea-de-so-gonalo-segunda-parte\/","title":{"rendered":"A cabe&ccedil;a de S&atilde;o Gon&ccedil;alo (segunda parte)"},"content":{"rendered":"<p>O presente artigo, por ser muito extenso, foi dividido em v\u00e1rias partes. Esta \u00e9 a segunda. A primeira pode ser lida <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5290\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p>A imagem de S\u00e3o Gon\u00e7alo de Amarante foi arrastada da sua capela para o Rio Douro depois de uma grande cheia do T\u00e2mega. Entretanto, a tempestade abrandou e as \u00e1guas revoltas acalmaram-se. A sorte ditou que a imagem fosse encontrada a flutuar perto do que hoje \u00e9 o cais de Vila Nova de Gaia, em frente \u00e0s caves do vinho do Porto.<\/p>\n<p>A chegada de uma imagem de forma t\u00e3o invulgar foi de imediato classificada como milagrosa e apressaram-se a encontrar-lhe um cantinho numa das capelas da Vila Nova. At\u00e9 1834 Gaia e Vila Nova eram duas povoa\u00e7\u00f5es distintas, uma voltada para o mar e outra para a agricultura. Vila Nova ocupava a zona ribeirinha e o centro de Gaia localizava-se perto do que \u00e9 hoje a freguesia de Mafamude.<\/p>\n<p>Nos primeiros dias dos anos seguintes a imagem de S\u00e3o Gon\u00e7alo fazia prociss\u00f5es regulares entre a Vila Nova e Gaia. Os da Vila Nova, quase todos barqueiros ou gente ligada ao rio, adoptaram-no como padroeiro e, talvez por necessidade de afirma\u00e7\u00e3o, a posse e exibi\u00e7\u00e3o da rel\u00edquia seria uma forma de o fazerem, ao mesmo tempo que feriam o orgulho de Gaia.<\/p>\n<p>Ora acontece que durante uma destas prociss\u00f5es provocat\u00f3rias a imagem visitou a Igreja de Mafamude. Para grande infort\u00fanio d\u00f3s de Vila Nova, o S\u00e3o Gon\u00e7alo entrou de frente para o altar e a popula\u00e7\u00e3o de Gaia apressou-se a invocar uma tradi\u00e7\u00e3o antiga: santo que entra de frente no templo n\u00e3o volta a sair. O S\u00e3o Gon\u00e7alo tinha escolhido nova morada e os de Vila Nova nada podiam fazer. Certamente que a decis\u00e3o n\u00e3o acatada pacificamente, mas o certo \u00e9 que, resignados, os da Vila Nova perderam o S\u00e3o Gon\u00e7alo para a Igreja de Mafamude.<\/p>\n<p>Os anos de provoca\u00e7\u00e3o n\u00e3o passaram em claro e no Janeiro seguinte saiu uma prociss\u00e3o de Mafamude em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 Vila Nova. Levavam com eles n\u00e3o a imagem, mas apenas a cabe\u00e7a do S\u00e3o Gon\u00e7alo para n\u00e3o arriscar que os mareantes agora sem padroeiro a tentassem reaver enquanto lhes faziam pirra\u00e7a. Regressavam a Mafamude tendo sempre o cuidado de entrar e sair nas capelas com a cabe\u00e7a do S\u00e3o Gon\u00e7alo voltada de costas para o altar, n\u00e3o fosse algu\u00e9m tornar a invocar a tradi\u00e7\u00e3o e o santo escolhesse nova morada. A prociss\u00e3o anual de Vila Nova era agora de Gaia e estes \u00faltimos faziam quest\u00e3o de relembrar aos primeiros a perda da imagem ano ap\u00f3s ano.<\/p>\n<p>Chegados \u00e0s margens do Douro come\u00e7ava o povo a gritar \u00abO Santo \u00e9 nosso! O Santo \u00e9 nosso! O corno \u00e9 vosso!\u00bb enquanto pavoneavam o S\u00e3o Gon\u00e7alo decapitado.<\/p>\n<p>A dada altura, talvez para aumentar o tom da provoca\u00e7\u00e3o, juntaram \u00e0 cabe\u00e7a do S\u00e3o Gon\u00e7alo, a do S\u00e3o Cristov\u00e3o. A prociss\u00e3o fazia-se agora com o protector dos barqueiros e com o protector dos mareantes, profiss\u00f5es de quase todos os habitantes da Vila Nova. O bairrismo t\u00edpico da regi\u00e3o era exacerbado ao \u00faltimo grau. \u00abO Santo \u00e9 nosso! O corno \u00e9 vosso!\u00bb<\/p>\n<p>Muitos j\u00e1 sabiam que a prociss\u00e3o terminaria com cenas de pancadaria e troca de insultos e alguns usavam-na apenas como pretexto para resolver ofensas antigas. At\u00e9 ao dia em que algu\u00e9m resolveu levar uma barrica de vinho e uns petiscos para retemperar as for\u00e7as. Uma zaragata podia ser apetec\u00edvel, mas comida e bebida causam menos mazelas. O pretexto da prociss\u00e3o passou a ser a festa. A provoca\u00e7\u00e3o original foi sendo esquecida, mesmo que a tradi\u00e7\u00e3o diga que os de Gaia gritem bem alto aos da Vila Nova \u00abO Santo \u00e9 nosso!\u00bb<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Vila Nova de Gaia\" border=\"0\" alt=\"Vila Nova de Gaia\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/Gaia.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Vila Nova junto ao Douro, Gaia l\u00e1 no alto<\/p>\n<p>Procurei mais pormenores sobre esta invulgar tradi\u00e7\u00e3o de levar em prociss\u00e3o apenas a cabe\u00e7a do santo, mas nem nas informa\u00e7\u00f5es da C\u00e2mara Municipal de Vila Nova de Gaia adiantam muito mais que o percurso e a constitui\u00e7\u00e3o do cortejo. Tenho a agradecer ao meu primo Jorge os detalhes coloridos da festa de S\u00e3o Gon\u00e7alo, especialmente no que toca ao motivo do preg\u00e3o muito pouco condizente com a solenidade que deve rodear uma prociss\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00abO Santo \u00e9 nosso, o Santo \u00e9 nosso. O corno \u00e9 vosso! E ele \u00e9 nosso! E \u00e9, \u00e9, \u00e9!\u00bb<\/p>\n<p>J\u00e1 percebi que o S\u00e3o Gon\u00e7alo de Amarante, beato santificado por usucapi\u00e3o, que cura mancos, resolve problemas de fertilidade como nenhum outro e casa mulheres velhas, novas e assim-assim, \u00e9 um extraordin\u00e1rio elo de liga\u00e7\u00e3o entre ritos cat\u00f3licos e cren\u00e7as mais antigas que se recusam a desaparecer. Os <em>caralhinhos <\/em>de S\u00e3o Gon\u00e7alo em Amarante, a Dan\u00e7a dos Mancos em Aveiro e a exibi\u00e7\u00e3o da rel\u00edquia perdida em Gaia s\u00e3o as faces mais evidentes desta interessante mistura que revela um pouco do que nos molda como povo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presente artigo, por ser muito extenso, foi dividido em v\u00e1rias partes. Esta \u00e9 a segunda. A primeira pode ser lida aqui. A imagem de S\u00e3o Gon\u00e7alo de Amarante foi arrastada da sua capela para o Rio Douro depois de uma grande cheia do T\u00e2mega. Entretanto, a tempestade abrandou e as \u00e1guas revoltas acalmaram-se. 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