{"id":55,"date":"2008-06-19T00:00:17","date_gmt":"2008-06-18T23:00:17","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=55"},"modified":"2011-10-10T19:42:56","modified_gmt":"2011-10-10T18:42:56","slug":"cuecas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/cuecas\/","title":{"rendered":"Cuecas"},"content":{"rendered":"<p>Ontem foi o dia em que conheci a realidade da vida nos musseques. Vi os do Norte de Luanda e revi a imagem mental que tinha da cidade. Fiquei surpreendido por tudo, umas vezes pela positiva, outra pela negativa.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/061908-2120-cuecas13.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nOs sal\u00f5es de beleza est\u00e3o por todo o lado<\/p>\n<p>Hoje fui conhecer os da parte Sul. S\u00e3o diferentes mas muito iguais. H\u00e1 semelhan\u00e7as \u00f3bvias, quer seja no lixo, quer seja na quantidade de pessoas que se amontoam. Ao passar de uma parte da cidade para outra, sinto que mudei de bairro, mas n\u00e3o me consigo aperceber dos seus limites porque as fronteiras s\u00e3o graduais. N\u00e3o basta passar a <em>vala<\/em> para a paisagem mudar porque ela \u00e9 igual em ambas as margens, no entanto, os bairros s\u00e3o <em>diferentes<\/em> de cada lado. Sente-se a diferen\u00e7a c\u00e1 dentro. N\u00e3o s\u00e3o melhores ou piores, ali\u00e1s, s\u00e3o t\u00e3o maus como o vizinho, mas sabemos que s\u00e3o diferentes.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/061908-2120-cuecas22.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nA omnipresente fruta \u00e0 venda<\/p>\n<p>Os musseques mais pr\u00f3ximos da cidade t\u00eam mais gente, mais confus\u00e3o, mais lixo. \u00c0 medida que nos afastamos do centro, as casas come\u00e7am a ser um pouco maiores. H\u00e1 bairros onde quase todas as casas est\u00e3o isoladas umas das outras. Nalguns s\u00edtios, h\u00e1 mesmo uns pequenos quintais com um esbo\u00e7o de horta. No m\u00ednimo t\u00eam uma mangueira plantada.<\/p>\n<p>Nestas zonas n\u00e3o h\u00e1 tr\u00e2nsito e os mi\u00fados ainda n\u00e3o desenvolveram o sexto sentido que os faz desviar dos carros. N\u00e3o h\u00e1 vendedores de tudo e mais alguma coisa no meio dos carros. N\u00e3o h\u00e1 carros nem ningu\u00e9m que compre. Bancas h\u00e1, muitas. Mais pequenas e com invent\u00e1rios bem mais modestos que as da cidade. N\u00e3o se v\u00eaem mulheres a transportar a mercadoria \u00e0 cabe\u00e7a. Cada um vende \u00e0 porta de casa os artigos que se consomem no bairro. O habitual s\u00e3o as bolachas, as barras de sab\u00e3o azul-esverdeado, as amostras de detergente Skip, Ariel, Sunlight, algod\u00e3o e doces. N\u00e3o vi pilhas \u00e0 venda, que muita falta me fizeram. Nestes bairros h\u00e1 menos lixo. H\u00e1 menos gente a produzi-lo e um pouco mais de preocupa\u00e7\u00e3o (quase nenhuma, diga-se) em geri-lo. De quando em vez, v\u00ea-se um buraco para onde se deita o lixo e que deveria ser tapado (mas n\u00e3o \u00e9) assim que estivesse cheio. Os c\u00e3es t\u00eam um ar menos doente. E vi mesmo uma menina com um cachorro preto ao colo, como um b\u00e9b\u00e9.<\/p>\n<p>Desta vez tirei algumas fotografias. O choque da v\u00e9spera j\u00e1 passou e consigo moderar o instinto de fotografar tudo. Os locais devem perguntar-se porque querem os brancos fotografar o seu dia-a-dia t\u00e3o igual. Haver\u00e1 mais oportunidades de ver mis\u00e9ria.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/061908-2120-cuecas32.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nCrian\u00e7as a transportar lixo e terra<\/p>\n<p>Nas zonas mais movimentadas vi tudo e mais alguma coisa ser transportado \u00e0 cabe\u00e7a. Vi garrafas de g\u00e1s, alguidares cheios de garraf\u00f5es de lix\u00edvia, de tubos de pasta de dentes, de outros alguidares. Vi cantinas inteiras (uma d\u00fazia de panelas ou mais), que faziam uma pilha maior que a mulher que a trazia.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/061908-2120-cuecas42.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nCheias ou vazias, v\u00e3o \u00e0 cabe\u00e7a<\/p>\n<p>Outras transportavam um alguidar grande cheio de outros alguidares mais pequenos, ou um guarda-sol atravessado, ou uma caixa de cart\u00e3o com mandiocas. Assisti a proezas de equil\u00edbrio enquanto atravessavam a estrada a correr com uma bilha de g\u00e1s \u00e0 cabe\u00e7a e depois apanhavam qualquer coisa do ch\u00e3o, mantendo a carga perfeitamente horizontal.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/061908-2120-cuecas52.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nP\u00e3o fresco<\/p>\n<p>Num dos bairros a que j\u00e1 n\u00e3o consigo chamar musseque vi um edif\u00edcio em ru\u00ednas que me parecia familiar. Quando nos aproxim\u00e1mos mais vi que era uma antiga capela portuguesa que se mantinha de p\u00e9. N\u00e3o entrei. Mais \u00e0 frente foi preciso arranjar caminho para o outro lado da omnipresente <em>vala<\/em>. Numa margem havia uma esp\u00e9cie de lavagem em s\u00e9rie de carros, onde pedimos indica\u00e7\u00f5es para as ru\u00ednas da ponte ou do vau que nos permitiria seguir para a margem Norte. Navegando de indica\u00e7\u00e3o em indica\u00e7\u00e3o acab\u00e1mos por ir dar a um recanto absolutamente encantador. Numa curva do rio havia umas dezenas de embondeiros seculares que emprestavam ao local uma atmosfera de repouso a que ainda n\u00e3o tinha assistido nesta roda-viva que \u00e9 Luanda. Consegui mesmo esquecer-me de que o rio que por ali passava afinal era mais uma <em>vala<\/em>, com as suas margens cheias de peda\u00e7os de pl\u00e1stico colorido. Depois percebi que o aspecto vi\u00e7oso que as copas dos embondeiros apresentavam contrastava com os seus troncos cheios de <em>graffiti<\/em> e cercados de lixo e sucata. Deste lado da margem era o Benfica, exactamente igual ao bairro do outro lado do rio, mas completamente diferente.<\/p>\n<p>Foi por esta altura que fiquei com a imagem do dia: Cuecas!<\/p>\n<p>Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, ainda n\u00e3o vi mais que meia d\u00fazia de mi\u00fados a correr nus de um lado para o outro. Reparei que todos os mi\u00fados, desde que aprendem a andar at\u00e9 que me d\u00e3o pela cintura, andam sempre de cuecas. Podem n\u00e3o ter roupa nenhuma no corpo, mas andam sempre com umas cuecas garridas, quase que a condizer com as margens das <em>valas<\/em>. Ao contr\u00e1rio dos mi\u00fados a correr, esta imagem n\u00e3o me trouxe nenhuma revela\u00e7\u00e3o. N\u00e3o me senti mudado. Mas deve ser um pormenor importante\u2026<\/p>\n<p>Como as crian\u00e7as brincam porque s\u00e3o crian\u00e7as, n\u00e3o pude deixar de reparar nos seus brinquedos. As meninas apanham a \u00e1gua negra que escorre pelas ruas e transportam-na \u00e0 cabe\u00e7a em latas de leite em p\u00f3, para a despejarem um pouco mais acima e voltarem a correr para a po\u00e7a a jusante. Os meninos correm com capas feitas dos pl\u00e1sticos de bolhinhas que v\u00eam a embrulhar electrodom\u00e9sticos, ou enchem garrafas de \u00f3leo com lama.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/061908-2120-cuecas62.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nAs frotas de candongueiros t\u00eam nomes originais<\/p>\n<p>Perto da cidade o tr\u00e2nsito torna-se mais ca\u00f3tico. As obras constantes v\u00e3o cortando os acessos dos bairros perif\u00e9ricos ao centro da cidade. Grandes movimentos de terras para a instala\u00e7\u00e3o de <em>valas<\/em> em bet\u00e3o, para a abertura ou alargamento de estradas, sempre dirigidas por chineses, que se destacam dos oper\u00e1rios por usarem um curioso chap\u00e9u de, imagine-se, chin\u00eas. Toda a gente quer passar a <em>vala<\/em> e as poucas passagens v\u00e3o sendo cortadas com o avan\u00e7o das obras. \u00c0s vezes s\u00e3o repostas, mas geralmente ficam para outra empreitada\u2026 Bairros inteiros ficam reduzidos a duas ou tr\u00eas sa\u00eddas e algumas ruas s\u00e3o transformadas em becos com v\u00e1rios quil\u00f3metros de extens\u00e3o. \u00c9 \u00f3bvio que estes acessos est\u00e3o sempre atulhados. Milhares de carros v\u00e3o afunilando e arrastando-se durante horas para vencer algumas centenas de metros. Para tentar fugir deste caos h\u00e1 sempre a alternativa de fazer algumas dezenas de quil\u00f3metros em m\u00e1s picadas e chegar a outro estrangulamento. A \u00fanica regra que h\u00e1 neste tr\u00e2nsito \u00e9 a de que n\u00e3o se chega a lado nenhum. Se a rua est\u00e1 vazia ou at\u00e9 se consegue engatar a segunda velocidade, \u00e9 porque a rua vai dar a nenhures. Ou ent\u00e3o j\u00e1 deu, mas agora est\u00e1 cortada porque caiu um poste, porque o lodo da <em>vala<\/em> \u00e9 muito fundo ou porque as obras j\u00e1 l\u00e1 chegaram. Se a estrada tem sa\u00edda, os carros est\u00e3o colados uns aos outros e n\u00e3o andam.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/061908-2120-cuecas72.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nBuracos e obras<\/p>\n<p>Sim, h\u00e1 ruas nas quais corre a <em>vala<\/em>\u2026 numa delas decorre o mercado das pe\u00e7as novas, usadas e roubadas. Na verdade s\u00f3 h\u00e1 duas categorias. Vendem pe\u00e7as roubadas ou pe\u00e7as em vias de o ser. Nesta rua h\u00e1 quarteir\u00f5es inteiros que s\u00f3 se podem percorrer a p\u00e9 porque as \u00e1guas v\u00e3o enchendo os buracos maiores e nem os todo-o-terreno se atrevem a passar. A alternativa \u00e9 percorrer alguns quil\u00f3metros at\u00e9 chegar ao outro lado da rua.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/061908-2120-cuecas82.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nPe\u00e7as originais<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/061908-2120-cuecas92.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nA concorr\u00eancia<\/p>\n<p>Porque o tr\u00e2nsito \u00e9 infernal, demor\u00e1mos mais de duas horas at\u00e9 chegar ao nosso primeiro destino. Em linha recta dever\u00e3o ser uns cinco quil\u00f3metros. A hora de almo\u00e7o foi sendo adiada a cada desvio provocado por estradas cortadas, tr\u00e2nsito parado, lodos fundos ou mercados cheios. Perto das duas da tarde era imperioso comer. Regressar ao centro de Luanda estava fora de quest\u00e3o. S\u00f3 pelas quatro horas chegar\u00edamos a um qualquer restaurante. A op\u00e7\u00e3o era s\u00f3 uma, comer o que houvesse, num dos muitos s\u00edtios que t\u00eam &#8220;Sopa e Almo\u00e7o&#8221;. Confiei no motorista para escolher um mais asseado. A escolha n\u00e3o foi m\u00e1. A primeira coisa para onde olhei foi para as m\u00e3os da cozinheira. Estavam limpas e segurava um pano limpo. Uma ajudante lavava loi\u00e7a e talheres em \u00e1gua ainda limpa. Bons sinais. A comida estava tapada embora fosse cozinhada ali mesmo\u2026<\/p>\n<p>Bem sei que n\u00e3o se deve abusar da sorte, mas desde o pequeno-almo\u00e7o que n\u00e3o comia nada\u2026 Resumindo, a ementa consistiu num funge bem batido (embora com algumas bolhas), num feij\u00e3o em \u00f3leo de palma e em carne fresca estufada. O funge e o feij\u00e3o estavam \u00f3ptimos. A carne provei, mas n\u00e3o lhe dei muita confian\u00e7a. \u00c9 que aqui matam o bicho e cortam-no em dois. Vendem esses dois bocados que s\u00e3o divididos e revendidos, voltando a ser vendidos, cortados e revendidos at\u00e9 que os peda\u00e7os tenham o tamanho de uma noz. Nessa altura s\u00e3o cozinhados. N\u00e3o se sabe muito bem qual era o aspecto do bicho antes de morto e como o corte \u00e9 sempre com cutelo, h\u00e1 muitos ossinhos partidos no meio da carne. Ainda provei um pouco de calulu de raia.<\/p>\n<p>Reparei num pormenor curioso: quando nos puseram os pratos na mesa havia algumas moscas pelo ar, que se foram aproximando da comida, naturalmente. No entanto, tiveram a cortesia de nunca pousar na comida at\u00e9 que acab\u00e1ssemos. Ou ent\u00e3o fugiam dela\u2026<\/p>\n<p>Apesar do risco que \u00e9, a comida era muito saborosa e posso dizer que a gastronomia local est\u00e1 aprovada (e provada). Amanh\u00e3 logo vejo como tenho a barriga\u2026<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/061908-2120-cuecas102.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nOs filmes de ac\u00e7\u00e3o s\u00e3o sempre os que saem mais<\/p>\n<p>Nalguns recantos vemos pequenas oficinas que se dedicam a transformar tiras de sucata em carrinhos para transportar os garraf\u00f5es amarelos de \u00f3leo de palma que s\u00e3o usados para armazenar \u00e1gua, gas\u00f3leo ou gasolina.<\/p>\n<p>Estou em Angola h\u00e1 menos de uma semana e j\u00e1 vi uma Luanda muito diferente do que a maioria dos ocidentais tem oportunidade de conhecer. Na verdade nem sei se est\u00e3o interessados em ver o que vi, ou saber como sobrevivem as pessoas \u00e0 volta da cidade.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/061908-2120-cuecas112.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nIncinera\u00e7\u00e3o de lixo<\/p>\n<p>Os meus colegas est\u00e3o c\u00e1 quase h\u00e1 dois meses. T\u00eam consci\u00eancia de que h\u00e1 mis\u00e9ria e de que a vida nos musseques \u00e9 algo de muito diferente, mas ainda n\u00e3o se aperceberam do qu\u00e3o diferente \u00e9 a vida dos outros 95% da popula\u00e7\u00e3o. Espero que continuem na ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Cheguei a casa coberto de p\u00f3. P\u00f3 no corpo e p\u00f3 na alma. N\u00e3o havia \u00e1gua\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ontem foi o dia em que conheci a realidade da vida nos musseques. Vi os do Norte de Luanda e revi a imagem mental que tinha da cidade. 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