{"id":5731,"date":"2012-01-07T01:00:00","date_gmt":"2012-01-07T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5731"},"modified":"2012-01-09T22:55:40","modified_gmt":"2012-01-09T21:55:40","slug":"auto-destruio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/auto-destruio\/","title":{"rendered":"Auto-destrui&ccedil;&atilde;o"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 muitos anos, n\u00e3o sei bem quantos, comprei um telefone um pouco mais apropriado para o trabalho de campo. Na altura eram quase todos delicados como os modernos, e avariavam-se se houvesse boatos de chuva na cidade vizinha ou se fossem enfiados no bolso com menos cuidados que os merecidos por um diamante valioso. A grande diferen\u00e7a para os de hoje \u00e9 que s\u00f3 faziam chamadas e mostravam mensagens 20 caracteres de cada vez.<\/p>\n<p>Na altura anunciavam-se telefones topo de gama, car\u00edssimos, que at\u00e9 tinham uma m\u00e1quina fotogr\u00e1fica miser\u00e1vel acoplada. Ningu\u00e9m conseguia perceber exactamente para que serviria, mas todos ficavam boquiabertos com as imagens que capturavam. E que m\u00e1s imagens eram.<\/p>\n<p>Dizia eu que comprei um telefone novo. Era robusto. Resistia a quedas maiores e at\u00e9 andava \u00e0 chuva com uma certa confian\u00e7a. Foi usado e abusado por muitos anos e s\u00f3 passou \u00e0 reforma quando se tornou arcaico e limitado.<\/p>\n<p>No entanto, quando fui \u00e0 <a title=\"Artigo: Sotaque nativo\" href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2399\" target=\"_blank\">Tun\u00edsia<\/a>, o ar robusto mas transport\u00e1vel do pequeno Nokia 5550 mostrou ser cativante para muita gente. Em Douz, conhecida cidade no meio do deserto onde os turistas v\u00e3o dar uma voltinha de dromed\u00e1rio como se num carrossel, houve at\u00e9 um vendedor de rosas do deserto que mo quis comprar. Veio a regatear comigo uma centena de metros, carregando um pesad\u00edssimo balde cheio de cristais de gesso e oferecendo mais do que o telefone me tinha custado novo. Devo ter sido parvo, mas preferi ficar com o telefone.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito de Douz, a cidade que j\u00e1 foi a porta do deserto e o primeiro ind\u00edcio de \u00e1gua fresca depois de atravessar o imenso lago salgado de Ch\u00f6tt-el-Jerid, \u00e9 tamb\u00e9m o local onde se assiste ao mais estranho espect\u00e1culo de todos. Muitos dos que v\u00e3o passear de dromed\u00e1rio podem optar por alugar uma jelaba, uma esp\u00e9cie de roup\u00e3o leve com capuz que cobre uma pessoa da cabe\u00e7a aos p\u00e9s e muito confort\u00e1vel em climas quentes, ou um turbante para proteger a cabe\u00e7a do Sol. Algumas pessoas torcem o nariz \u00e0 jelaba &#8211; \u00abSabe-se l\u00e1 quem \u00e9 que j\u00e1 vestiu isso!\u00bb, mas depois sorriem e agradecem que lhes ajeitem o turbante alugado. Estranhamente, vestem a jelaba por cima da roupa, mas o turbante vai-lhes absorver o suor da cabe\u00e7a, tal como j\u00e1 o tinha feito a dezenas de pessoas antes. N\u00e3o percebo porque raz\u00e3o o turbante lhes faz menos confus\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas voltando ao telefone. Apesar de j\u00e1 estar na reforma, foi comigo para Angola. Poderia haver necessidade de o usar. Como a bateria, mesmo velha, durava mais de uma semana, foi o telefone de emerg\u00eancia sempre que n\u00e3o podia carregar o outro. O resto do tempo, passava-o na minha mesinha de cabeceira, \u00e0 espera de serventia.<\/p>\n<p>Ora acontece que l\u00e1 na Mutamba era costume aparecerem-nos <a title=\"Artigo: Pisadelas, palmadas e pontap\u00e9s\" href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=4008\" target=\"_blank\">um ou dois ratos por m\u00eas<\/a>. \u00c0s vezes mais, outras vezes menos. Depressa descobrimos que durante o dia exploravam a casa toda, deixando marcas aqui e ali. A que mais me irritou foi a de apreciarem a borracha macia da protec\u00e7\u00e3o exterior do telefone \u00e0 prova de tudo. Rataram-no bem ratado. O telefone passou a ostentar tr\u00eas fundas cicatrizes que comprovam a visita a Luanda.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"display: inline; border: 0px;\" title=\"Telefone ratado\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/telefone1.jpg\" alt=\"Telefone ratado\" width=\"600\" height=\"400\" border=\"0\" \/><br \/>\nCom as cicatrizes de Luanda<\/p>\n<p>Regressei, e voltou \u00e0 gaveta. At\u00e9 ao dia em que fosse preciso. Ao contr\u00e1rio de outros, nunca deixou de funcionar. Voltou ao trabalho durante uma repara\u00e7\u00e3o ao telefone novo, um daqueles com mais uma tonelada de mariquices, inclu\u00edndo um autoclismo de \u00e1gua morna e mesa de matraquilhos, mas fr\u00e1gil e delicado.<\/p>\n<p>Por ser t\u00e3o robusto, achei que estaria pronto para uma ou duas semanas de uso. O que n\u00e3o contei foi com a protec\u00e7\u00e3o de borracha ter ressequido de tal forma que todos os bot\u00f5es se desfazem assim que lhes toco. Talvez a Nokia lhe tenha inclu\u00eddo um prazo de validade findo o qual o telefone se desintegra lentamente. Infelizmente para eles, \u00e9 s\u00f3 a capa que sofre desse mal e a electr\u00f3nica continua perfeita. Devia-o ter vendido ao tunisino.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"display: inline; border: 0px;\" title=\"Telefone em auto-destrui\u00e7\u00e3o\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/telefone2.jpg\" alt=\"Telefone em auto-destrui\u00e7\u00e3o\" width=\"600\" height=\"400\" border=\"0\" \/><br \/>\nAgora caem-lhe os bot\u00f5es<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 muitos anos, n\u00e3o sei bem quantos, comprei um telefone um pouco mais apropriado para o trabalho de campo. Na altura eram quase todos delicados como os modernos, e avariavam-se se houvesse boatos de chuva na cidade vizinha ou se fossem enfiados no bolso com menos cuidados que os merecidos por um diamante valioso. 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