{"id":5759,"date":"2012-02-07T01:00:00","date_gmt":"2012-02-07T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5759"},"modified":"2012-02-06T20:48:22","modified_gmt":"2012-02-06T19:48:22","slug":"tu-voc-o-senhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/tu-voc-o-senhor\/","title":{"rendered":"Tu. Voc&ecirc;. O senhor."},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 certas mem\u00f3rias que se enraizam em n\u00f3s sem que saibamos exactamente porque raz\u00e3o. S\u00e3o mem\u00f3rias simples, que devem fazer vibrar o nosso diapas\u00e3o interior de tal forma que destronam o que achamos ser verdadeiramente importante recordar e acabamos por esquecer.<\/p>\n<p>Se calhar, s\u00e3o estas as verdadeiramente importantes, as que nos moldam a personalidade e a consci\u00eancia. As outras sejam meras ferramentas para o c\u00e9rebro, uma simples colec\u00e7\u00e3o de conhecimentos adquiridos.<\/p>\n<p>Esta pequena introdu\u00e7\u00e3o deve-se ao despertar de uma dessas mem\u00f3rias simples mas marcante que foi despertada quando quase dava uma cabe\u00e7ada num novo cartaz publicit\u00e1rio que instalaram no meio do passeio. Vinha distra\u00eddo, como \u00e9 evidente.<\/p>\n<p>Reparei que o an\u00fancio tratava o futuro cliente do produto em quest\u00e3o por um demasiado familiar tu. Decalque do ingl\u00eas original, em que o <em>tu<\/em> e o <em>voc\u00ea<\/em> s\u00e3o substitu\u00eddos por um <a title=\"Artigo: Verbos ser e estar\" href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5711\" target=\"_blank\">singelo you<\/a><em><\/em> que n\u00e3o compromete ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Esta demasiada familiaridade senti-a como uma invas\u00e3o ao meu espa\u00e7o pessoal, um pouco como a sensa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel que se tem quando o vendedor de carros usados insiste em tratar-nos pelo primeiro nome, como se f\u00f4ssemos amigos de longa data.<\/p>\n<p>A publicidade sizuda, que tratava os clientes por Vexa., e assinava com sinete e rebicoques j\u00e1 l\u00e1 vai. Desapareceu ao mesmo tempo que as lojas come\u00e7aram a perder os balc\u00f5es que separavam os clientes dos comerciantes. Desapareceu com a chegada do pronto-a-vestir, mas um pouco de respeito ainda \u00e9 o m\u00ednimo que se pode pedir. Ningu\u00e9m pede que continuem a escrever \u00abQueiram fazer a gentileza de experimentar os nossos produtos\u00bb, mas um modesto \u00abExperimente os nossos produtos\u00bb demonstra um bocadinho mais de fineza no trato que um \u00abExperimenta, p\u00e1!\u00bb Chega a ser grosseiro.<\/p>\n<p>Parece que os an\u00fancios para crian\u00e7as e adolescentes t\u00eam de usar apenas o <em>tu<\/em>. Diz que as crian\u00e7as se identificam mais com a mensagem. Talvez seja, mas parece-me mais que seja um daqueles dogmas das ag\u00eancias de publicidade. Insistir neste tratamento demasiado informal para outras faixas et\u00e1rias \u00e9 assumir uma rela\u00e7\u00e3o de proximidade que n\u00e3o existe, ou insinuar que os poss\u00edveis clientes n\u00e3o passam de crian\u00e7as.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Crian\u00e7as\" border=\"0\" alt=\"Crian\u00e7as\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/tu.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Tratam-se por tu<\/p>\n<p>Nestes poucos segundos de reflex\u00e3o logo a seguir \u00e0 cabe\u00e7ada evitada, veio-me \u00e0 mem\u00f3ria um texto reproduzido num livro da instru\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria de cujo autor n\u00e3o me recordo \u2013 uma das caracter\u00edsticas destas mem\u00f3rias importantes \u00e9 a de serem destiladas de todo o acess\u00f3rio.<\/p>\n<p>O texto descrevia um sargento a fazer um exame de matem\u00e1tica aos mancebos para lhes aferir as compet\u00eancias. Como o mancebo vulgar tem uma categoria abaixo de desprez\u00edvel, o sargento chamou um ao acaso com um quase grosseiro \u00abTu a\u00ed!\u00bb<\/p>\n<p>O problema era complicado, mas o mancebo de ar fr\u00e1gil come\u00e7ou a resolv\u00ea-lo de uma forma diferente da habitual. Antes que o sargento tivesse oportunidade de reclamar, chegou ao resultado certo. Embasbacado, o sargento perguntou \u00abMas quem \u00e9 voc\u00ea?\u00bb<\/p>\n<p>O mancebo explicou que era licenciado em matem\u00e1tica aplicada pela Universidade de Coimbra, o que deixou o sargento bastante embara\u00e7ado e capaz apenas de se desculpar com um \u00abO senhor j\u00e1 podia ter dito\u00bb.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que os portugueses levam grada\u00e7\u00f5es de tratamento de defer\u00eancia quase ao extremo, mas tamb\u00e9m n\u00e3o se pode cair no exagero para o outro lado e tratar tudo e todos por <em>tu<\/em>. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 certas mem\u00f3rias que se enraizam em n\u00f3s sem que saibamos exactamente porque raz\u00e3o. S\u00e3o mem\u00f3rias simples, que devem fazer vibrar o nosso diapas\u00e3o interior de tal forma que destronam o que achamos ser verdadeiramente importante recordar e acabamos por esquecer. 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