{"id":5768,"date":"2012-03-22T01:00:00","date_gmt":"2012-03-22T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5768"},"modified":"2012-03-21T10:18:52","modified_gmt":"2012-03-21T09:18:52","slug":"os-miliares-os-quilometricos-e-os-descartaveis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/os-miliares-os-quilometricos-e-os-descartaveis\/","title":{"rendered":"Os miliares, os quilom\u00e9tricos e os descart\u00e1veis"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 matutava no assunto h\u00e1 alguns meses, mas ainda n\u00e3o tinha arranjado uma linha condutora para a ideia. Um artigo publicado no <a title=\"Bic Laranja: Um marco\" href=\"http:\/\/biclaranja.blogs.sapo.pt\/592198.html\" target=\"_blank\">Bic Laranja<\/a> foi o catalisador.<\/p>\n<p>Uma tradi\u00e7\u00e3o que os romanos exportaram para todo o mundo, ou pelo menos at\u00e9 onde chegaram as suas estradas, foi a da coloca\u00e7\u00e3o de marcos miliares ao longo das vias que abriam ou renovavam. Talvez n\u00e3o tenham sido os primeiros a ter essa ideia, mas foram com certeza quem mais a difundiu.<\/p>\n<p>O marco miliar, uma grande rocha toscamente talhada com a forma de uma coluna, era cravado na berma da estrada a cada mil passos romanos, ou cerca de 1&#8217;800 metros. \u00c9 preciso n\u00e3o esquecer que um passo romano s\u00f3 termina quando a mesma perna inicia um novo movimento. O marco identificava a estrada, com a direc\u00e7\u00e3o das v\u00e1rias povoa\u00e7\u00f5es que ligava e, acima de tudo, identificava o nome do imperador que a tinha mandado construir ou reparar. Os marcos auxiliavam os viajantes, mas tamb\u00e9m gravavam em pedra os nomes que fazem a nossa Hist\u00f3ria. Acima de tudo, mostravam que autoridade se estendia at\u00e9 \u00e1quele recanto do Imp\u00e9rio. Gostaria de poder ilustrar este artigo com uma fotografia de um marco romano da estrada de Braga, sei que a tenho, mas n\u00e3o me recordo onde a guardei.<\/p>\n<p>Durante a Idade M\u00e9dia, esse per\u00edodo conturbado em que a organiza\u00e7\u00e3o romana sucumbiu e a Hist\u00f3ria se torna confusa, as velhas vias romanas foram perdendo import\u00e2ncia. O movimento das legi\u00f5es atrav\u00e9s do Imp\u00e9rio cessou e com a falta de uma capital que importava luxos de toda a Europa e Mediterr\u00e2neo, as trocas comerciais restringiram-se cada vez mais a circuitos regionais e locais. Os marcos perderam o interesse. N\u00e3o mais havia que mostrar o poder imperial nem t\u00e3o pouco indicar o destino da estrada percorrida apenas pelos locais.<\/p>\n<p>Os marcos voltaram a ganhar import\u00e2ncia com o ressurgimento das linhas de comunica\u00e7\u00e3o a longa dist\u00e2ncia. O primeiro servi\u00e7o regular de Malaposta em Portugal foi estabelecido no final do s\u00e9c. XVIII, durante o reinado de D. Maria I, ligando Lisboa a Coimbra com a nova Estrada Real, em macadame. A cada l\u00e9gua desta estrada foram colocados marcos monumentais, obras de escultura ao gosto da \u00e9poca, mas que deixam transparecer a ideia deixada pelos romanos, identificar a estrada, mas sobretudo o autor da obra. O servi\u00e7o de dilig\u00eancias e malaposta funcionou intermitentemente nas d\u00e9cadas seguintes, at\u00e9 o comboio o destronar definitivamente. Tamb\u00e9m esta estrada foi sendo esquecida \u00e0 medida que outras vias eram abertas. Curiosamente, alguns destes marcos eram coroados por um rel\u00f3gio de Sol, que est\u00e1 sempre certo e n\u00e3o gasta pilhas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Marco da IV l\u00e9gua\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/marco_real.jpg\" alt=\"Marco da IV l\u00e9gua\" width=\"400\" height=\"600\" \/><br \/>\nMarco da IV L\u00e9gua, Alverca<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No s\u00e9c. XX, o autom\u00f3vel implicou uma grande mudan\u00e7a nos h\u00e1bitos enraizados. Constru\u00edram-se estradas como nunca antes visto, mas os marcos continuaram a ser implantados nas bermas. J\u00e1 n\u00e3o ostentavam o nome do soberano, mas indicavam a exist\u00eancia de um governo central, mostravam o alcance do tent\u00e1culo da administra\u00e7\u00e3o. Como sempre, eram feitos de pedra. A pedra, que serve de mem\u00f3ria \u00e0s civiliza\u00e7\u00f5es at\u00e9 nas bermas das estradas que se rasgam.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/marco_Alcacer.jpg\" alt=\"Marco quilom\u00e9trico\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nMarco do s\u00e9c. XX<\/p>\n<p>Muitas das velhas estradas nacionais que foram reconstru\u00eddas administrativamente, isto \u00e9, reclassificadas, viram os seus velhos marcos de pedra gravada ser pintados de branco e as novas inscri\u00e7\u00f5es pintadas de preto por cima, \u00e0 espera que os elementos as fa\u00e7am desaparecer. Na grande maioria dos casos, a informa\u00e7\u00e3o constante nos lados perpendiculares \u00e0 estrada migrou para a face paralela \u00e0 berma, resultando num\u00a0estranho contorcionismo do marco. Claramente, n\u00e3o h\u00e1 interesse em que durem e a palavra de ordem \u00e9 gastar dinheiro parecendo que se poupa. N\u00e3o se fazem novos marcos de pedra nem se grava as novas inscri\u00e7\u00f5es porque sai caro, mas pintam-se milhares de marcos regularmente com indica\u00e7\u00f5es que diferem das antigas quase s\u00f3 pela posi\u00e7\u00e3o que ocupam.<\/p>\n<p>Mas em termos de estradas, \u00e0 Idade da Pedra n\u00e3o se seguiu a do Bronze, como aconteceu na Hist\u00f3ria Humana, veio sim a do a\u00e7o galvanizado, alum\u00ednio lacado e pl\u00e1stico colorido, mais conhecida como a Idade das Auto-estradas. Os marcos quilom\u00e9tricos ainda existem, por serem auxiliares indispens\u00e1veis para avaliar o progresso das viagens em que s\u00f3 o destino importa. Deixaram de ser de pedra, que \u00e9 cara e dura mais que a nova estrada. N\u00e3o se querem perp\u00e9tuos para poderem ser esquecidos e reciclados sem esfor\u00e7o. Um pequeno rect\u00e2ngulo de a\u00e7o pintado aparafusado ao <em>rail<\/em> de protec\u00e7\u00e3o serve perfeitamente. \u00c9 o ideal para quando for necess\u00e1rio mudar o nome \u00e0 estrada e mostrar obra feita.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 matutava no assunto h\u00e1 alguns meses, mas ainda n\u00e3o tinha arranjado uma linha condutora para a ideia. Um artigo publicado no Bic Laranja foi o catalisador. 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