{"id":5778,"date":"2012-02-16T01:00:00","date_gmt":"2012-02-16T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5778"},"modified":"2012-02-15T10:52:56","modified_gmt":"2012-02-15T09:52:56","slug":"o-rival","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/o-rival\/","title":{"rendered":"O rival"},"content":{"rendered":"<p>De h\u00e1 uns dias para c\u00e1 come\u00e7\u00e1mos a ouvir martelar nas traseiras todo o dia. Pelo som abafado, suspeit\u00e1mos de algum vizinho que estivesse a pendurar quadros ou a cortar lenha com pouca convic\u00e7\u00e3o, mas o ritmo era estranho e durou o dia inteiro. Felizmente, assim que o Sol se punha, o barulho parava.<\/p>\n<p>Para nosso infort\u00fanio, recome\u00e7ava bem cedo e a manh\u00e3 fazia-se tarde e a tarde fazia-se noite sempre acompanhadas de um poc-poc. Seria chuva? Seria gente? Gente n\u00e3o era certamente e, apesar do muito frio, n\u00e3o chovia h\u00e1 semanas. Tamb\u00e9m descart\u00e1mos a hip\u00f3tese de neve, nem que seja porque a neve n\u00e3o bate assim. Mas, qual tortura chinesa da \u00e1gua, as pancadinhas sucediam-se sem ritmo ou padr\u00e3o aparente.<\/p>\n<p>Numa tarde, n\u00e3o resistindo \u00e0 curiosidade de saber o que fazia este barulho irritante e parecendo-me ser mais forte no quarto dos fundos, abri a porta de rompante. Deparo-me com um lustroso melro empoleirado na guarda da varanda, contemplando o seu pr\u00f3prio reflexo na vidra\u00e7a como se enfrentasse um rival.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/melro_A.jpg\" alt=\"Melro encarando o rival\" title=\"Melro encarando o rival\" width=\"600\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p>Este \u00e9 o meu territ\u00f3rio. Capisce?<\/p>\n<p>Infelizmente para ele, este rival \u00e9 do mais teimoso que existe. Mostra-se irado quando ele se zanga. Olha-o em desafio quando ele lhe tenta mostrar que \u00e9 mais forte mas, acima de tudo, ataca exactamente ao mesmo tempo que ele. Ao fim de alguns dias, a disputa territorial com o reflexo tornou-se uma obsess\u00e3o para o pobre melro. Passa l\u00e1 tanto tempo que at\u00e9 a floreira come\u00e7a a mostrar uma clareira no meio dos rebentos de menta.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/melro_B.jpg\" alt=\"Um ataque\" title=\"Um ataque\" width=\"600\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p>Linguagem mais forte<\/p>\n<p>Quando a intimida\u00e7\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o chega, lan\u00e7a-se numa nuvem de penas, garras e bico de encontro ao rival. Saem os dois quase ilesos. O do reflexo vai aparentando ficar com as penas em maior desordem e algo cansado. Deve ser bom sinal. Mais uns ataques e abandona a escaramu\u00e7a. Mas \u00e9 mais teimoso do que parece. Nunca cede.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/melro_C.jpg\" alt=\"Nova intimida\u00e7\u00e3o\" title=\"Nova intimida\u00e7\u00e3o\" width=\"600\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p>A fazer cara de poucos amigos<\/p>\n<p>Quando um ataque falha, coisa que acontece sempre, a intimida\u00e7\u00e3o \u00e9 o passo a seguir. Baixa a cabe\u00e7a, faz inchar um pouco as penas para parecer maior e lan\u00e7a um olhar furioso. O rival faz exactamente o mesmo. H\u00e1-de tentar atac\u00e1-lo outra vez.<\/p>\n<p>A Cristina bem me dizia que a janela se sujava mais depressa que as outras. Agora j\u00e1 sabemos que \u00e9 uma mistura de sebo, poeira e saliva de melro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De h\u00e1 uns dias para c\u00e1 come\u00e7\u00e1mos a ouvir martelar nas traseiras todo o dia. 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