{"id":5803,"date":"2012-03-09T01:00:00","date_gmt":"2012-03-09T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5803"},"modified":"2012-03-05T13:17:11","modified_gmt":"2012-03-05T12:17:11","slug":"despertador-de-quarto-vazio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/despertador-de-quarto-vazio\/","title":{"rendered":"Despertador de quarto vazio"},"content":{"rendered":"<p>N&atilde;o s&atilde;o s&oacute; os <a title=\"Artigo: Chulipas, creosote e tire-fonds\" href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=4767\" target=\"_blank\">cheiros que despertam mem&oacute;rias<\/a> gravadas bem fundo, que trazem &agrave; tona os factos embrulhados em emo&ccedil;&otilde;es. Um elemento essencial da paisagem sonora moderna &eacute; a campainha dos telefones m&oacute;veis. Nas cidades j&aacute; n&atilde;o se ouvem p&aacute;ssaros, ouvem-se melodias mais ou menos discretas que marcam o in&iacute;cio de uma breve conversa.<\/p>\n<p>Como cada um pode escolher a sua melodia preferida, &eacute; f&aacute;cil associar alguns toques a certas pessoas. Mesmo que seja o telefone de um desconhecido a tocar, lembramo-nos imediatamente de algu&eacute;m. Curiosamente, acontece-me lembrar-me apenas das pessoas que me marcaram negativamente. Como exemplo, h&aacute; um certo toque irritante, que felizmente est&aacute; a cair em desuso, que me causa arrepios e cabelos eri&ccedil;ado porque imagino logo a voz de um antigo patr&atilde;o que todos juram merecer internamento em hosp&iacute;cio de quartos almofadados. Nem todas as recorda&ccedil;&otilde;es s&atilde;o t&atilde;o m&aacute;s, obviamente.<\/p>\n<p>Hoje apercebi-me que o meu despertador me traz a sensa&ccedil;&atilde;o de quarto vazio e de cama desconhecida. Habitualmente &eacute; o da Cristina que toca e a esse j&aacute; associo a fam&iacute;lia. O meu s&oacute; toca quando preciso de me levantar muito mais cedo que o normal ou em situa&ccedil;&otilde;es especiais. Durante muito tempo tocou porque estava longe e acordava sozinho numa cama que n&atilde;o era a minha, num quarto que n&atilde;o era meu e num pa&iacute;s onde era estrangeiro.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/berlim.jpg\" title=\"Terras distantes\" alt=\"Terras distantes\" width=\"600\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p>Se o meu toca, naqueles segundos em que j&aacute; estou desperto mas ainda n&atilde;o completamente acordado sou invadido por um sentimento de desorienta&ccedil;&atilde;o e solid&atilde;o. Como ser&aacute; este quarto de hotel? Terei de desembara&ccedil;ar-me do mosquiteiro? Quando regresso a casa? O meu despertador traz-me mem&oacute;rias estranhas. A Cristina est&aacute; ao meu lado, mas tenho de confirmar com o bra&ccedil;o esticado que o despertador me fez acordar em casa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N&atilde;o s&atilde;o s&oacute; os cheiros que despertam mem&oacute;rias gravadas bem fundo, que trazem &agrave; tona os factos embrulhados em emo&ccedil;&otilde;es. Um elemento essencial da paisagem sonora moderna &eacute; a campainha dos telefones m&oacute;veis. Nas cidades j&aacute; n&atilde;o se ouvem p&aacute;ssaros, ouvem-se melodias mais ou menos discretas que marcam o in&iacute;cio de uma breve conversa. 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