{"id":5863,"date":"2012-05-07T00:00:00","date_gmt":"2012-05-06T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5863"},"modified":"2012-05-01T12:46:07","modified_gmt":"2012-05-01T11:46:07","slug":"avenida-antonio-enes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/avenida-antonio-enes\/","title":{"rendered":"Avenida Ant\u00f3nio Enes"},"content":{"rendered":"<p>Queluz cresceu \u00e0 sombra do Pal\u00e1cio. Durante duzentos anos foi este o centro em torno do qual orbitava a vida da povoa\u00e7\u00e3o. Sem ele, Queluz seria apenas o lugar do cruzamento da estrada de Sintra com a de Alg\u00e9s a Belas, no que ainda hoje \u00e9 conhecido como \u00abOs Quatro Caminhos\u00bb, o largo materializado pelas avenidas Elias Garcia, da Rep\u00fablica, D. Pedro IV e Ant\u00f3nio Enes.<\/p>\n<p>Com a chegada do comboio e o fim da Monarquia, o centro do lugar tornou a ser o cruzamento. O centro da povoa\u00e7\u00e3o afastou-se do Pal\u00e1cio. O com\u00e9rcio e as pequenas vilas onde se vinha passar f\u00e9rias cresceram entre os quatro caminhos e a linha de caminho-de-ferro, no tro\u00e7o da estrada de Belas a que se deu o nome de Ant\u00f3nio Enes, em homenagem ao importante escritor, deputado e Comiss\u00e1rio R\u00e9gio em Mo\u00e7ambique que morreu em Queluz em 1901.<\/p>\n<p>Conheci a Avenida Ant\u00f3nio Enes ainda com poucos pr\u00e9dios e muitas ru\u00ednas das antigas vilas. Na altura, era ladeada de grandes pl\u00e1tanos, cujas copas se tocavam e fechavam a rua num t\u00fanel verde, o que a tornava muito apetec\u00edvel nos dias de Ver\u00e3o. A ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica consistia numa s\u00e9rie de candeeiros pendurados em cabos que atravessavam as copas, por ser imposs\u00edvel usar postes normais. \u00c9 uma mem\u00f3ria de inf\u00e2ncia v\u00edvida.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/antonio_enes_1.jpg\" alt=\"Avenida Ant\u00f3nio Enes\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nAs \u00e1rvores cortadas<\/p>\n<p>Entretanto, a cada vila que era demolida para dar lugar a mais um pr\u00e9dio de v\u00e1rios andares encostado ao do lado, v\u00e1rias \u00e1rvores eram abatidas, muitas com o pretexto de que era a \u00fanica forma de movimentar as m\u00e1quinas e outras apenas porque se aproveitavam as estremas do lote para erguer as paredes em vez de usar a \u00e1rea de implanta\u00e7\u00e3o da casa demolida. A avenida foi perdendo as \u00e1rvores aos poucos, at\u00e9 restarem apenas uns exemplares miser\u00e1veis e maltratados. O t\u00fanel verde tornou-se um deserto est\u00e9ril de tinta pl\u00e1stica e marquises de alum\u00ednio. Ficou horrorosa.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/antonio_enes_2.jpg\" alt=\"Avenida Ant\u00f3nio Enes\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\n\u00c1rvores novas substituem as velhas<\/p>\n<p>Recentemente descobri que as \u00faltimas destas resistentes foram tamb\u00e9m cortadas. Subi a avenida e contei dois ou tr\u00eas cepos com os an\u00e9is ainda bem vis\u00edveis. Os \u00faltimos testemunhos do que tinha sido a avenida desapareciam. Felizmente que o fizeram por outros motivos que n\u00e3o o corte cego. Pouco mais \u00e0 frente, novas \u00e1rvores ocupavam o lugar das que tinham sido abatidas h\u00e1 d\u00e9cadas e alguns caldeiros abertos no passeio de novo ostentavam tamb\u00e9m o seu rebento. Volta a haver \u00e1rvores estimadas na Ant\u00f3nio Enes. Talvez regressem os candeeiros pendurados num fio e as tardes de Ver\u00e3o fresquinhas. Talvez.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/antonio_enes_3.jpg\" alt=\"Avenida Ant\u00f3nio Enes\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nEsperemos que n\u00e3o as deixem secar<\/p>\n<p>Neste momento sobra apenas uma \u00e1rvore adulta, das muitas dezenas que bordejavam a rua. Era a mais pequena das seis que ficavam junto ao armaz\u00e9m da esta\u00e7\u00e3o de comboio. Quando construiram a nova esta\u00e7\u00e3o, o pior, menos funcional e mais feio mamarracho do mundo, as \u00e1rvores quase centen\u00e1rias estavam contempladas no projecto arquitect\u00f3nico. Ficariam a esconder o edif\u00edcio e disfar\u00e7avam a pequenez do largo, mas o argumento de que as m\u00e1quinas n\u00e3o passavam foi mais forte e abateram cinco \u00e1rvores colossais. Curiosamente, as m\u00e1quinas raramente por ali andaram. Os desaterros e funda\u00e7\u00f5es especiais foram todos feitos mais a oeste.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Queluz cresceu \u00e0 sombra do Pal\u00e1cio. Durante duzentos anos foi este o centro em torno do qual orbitava a vida da povoa\u00e7\u00e3o. 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