{"id":5913,"date":"2012-07-06T00:00:00","date_gmt":"2012-07-05T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5913"},"modified":"2012-07-05T09:55:22","modified_gmt":"2012-07-05T08:55:22","slug":"caminhos-de-ferro-com-nome-de-rios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/caminhos-de-ferro-com-nome-de-rios\/","title":{"rendered":"Caminhos-de-ferro com nome de rios"},"content":{"rendered":"<p>Muitas das primeiras linhas de caminho-de-ferro no norte de Portugal foram constru\u00eddas \u00e0 beira de rios. Seguiam as velhas estradas que se lhes colavam \u00e0s margens, nas quais das vilas e cidades se situavam. As linhas mais curtas, que acompanhavam um rio da foz at\u00e9 quase \u00e0 sua nascente, herdaram o nome do curso de \u00e1gua. Eram estas as linhas que ligavam as grandes rotas do litoral \u00e0s sedes de munic\u00edpio do interior, como ramos cada vez mais finos de uma \u00e1rvore enraizada em S\u00e3o Bento ou Santa Apol\u00f3nia. O seu nome remetia de imediato para a regi\u00e3o que serviam, mas hoje linha ferrovi\u00e1ria com nome de rio \u00e9 sin\u00f3nimo de linha suprimida, carris vendidos a peso e esta\u00e7\u00f5es arruinadas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-5918\" title=\"Esta\u00e7\u00e3o de Mondim de Basto\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/mondim1.jpg\" alt=\"Esta\u00e7\u00e3o de Mondim de Basto\" width=\"600\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/mondim1.jpg 600w, https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/mondim1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\nEsta\u00e7\u00e3o de Mondim de Basto<\/p>\n<p>A sul, com topografias menos acentuadas e povoamento mais disperso, os comboios percorriam livremente as plan\u00edcies na sua migra\u00e7\u00e3o di\u00e1ria, buscando sempre os declives mais suaves. Aqui, as linhas esqueciam os rios e ganhavam o nome das cidades das esta\u00e7\u00f5es terminais ou da regi\u00e3o que atravessavam. Linhas com nome de rio s\u00e3o quase todas no Norte, com a not\u00e1vel excep\u00e7\u00e3o da linha do Sado.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-5915\" title=\"Painel de azulejos\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/mondim4.jpg\" alt=\"Painel de azulejos\" width=\"600\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/mondim4.jpg 600w, https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/mondim4-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\nPain\u00e9is de azulejos caracter\u00edsticos<\/p>\n<p>As linhas do Corgo, D\u00e3o, Tua, Sabor e T\u00e2mega, bem como grandes tro\u00e7os das linhas do Vouga e Douro, entre outras, j\u00e1 n\u00e3o funcionam. Faltam comboios e, em muitos casos, at\u00e9 os carris foram arrancados para selar e lacrar o encerramento definitivo. Carris arrancados a frio e sem anestesia quase sempre, e algums at\u00e9 mesmo roubados \u00e0 descarada. Algumas foram encerradas assumindo que assim seria, mas outras tiveram um processo de fecho eivado de m\u00e1-f\u00e9. \u00abVamos fazer obras de conserva\u00e7\u00e3o\u00bb, diziam. \u00abEncerra-se a linha por uns meses e depois volta a funcionar com mais comboios e melhores hor\u00e1rios\u00bb, acrescentavam. \u00abTiramos os carris velhos e pomos novos\u00bb. Passados alguns meses, as obras paravam e os comboios desapareciam. \u00abAgora j\u00e1 n\u00e3o vale a pena. Sem carris nem comboios, mais vale fechar\u00bb.<\/p>\n<div><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-5916\" title=\"Esta\u00e7\u00e3o de Mondim de Basto\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/mondim3.jpg\" alt=\"Esta\u00e7\u00e3o de Mondim de Basto\" width=\"600\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/mondim3.jpg 600w, https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/mondim3-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\nAbandono<\/div>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o de recurso, que garantem ser milagrosa, \u00e9 transformar a linha numa ciclovia. Aproveitam-se os fracos declives para tornar o passeio de bicicleta mais agrad\u00e1vel e finge-se que n\u00e3o se desperdi\u00e7a o patrim\u00f3nio nem se fecha a via de comunica\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 com ciclovias que se combate a desertifica\u00e7\u00e3o do interior.<\/p>\n<p>Um padr\u00e3o caracter\u00edstico no processo de encerramento de quase todas estas pequenas linhas foi a da supress\u00e3o das composi\u00e7\u00f5es mais concorridas e a falta de manuten\u00e7\u00e3o dos comboios. Reduzindo a oferta reduz-se a procura e, com a procura reduzida, justifica-se a falta de rentabilidade e a inevitabilidade do encerramento &#8211; pescadinha-de-rabo-na-boca. Curiosamente, a decis\u00e3o de encerrar linhas come\u00e7ou a ser tomada no auge do cavaquismo, em que o sucesso do governo se media em quil\u00f3metros de auto-estrada pagos com fundos europeus. Talvez houvesse que justificar a necessidade de novas estradas por n\u00e3o haver linhas f\u00e9rreas suficientes&#8230;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-5917\" title=\"Caminhos-de-Ferro do Estado\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/mondim2.jpg\" alt=\"Caminhos-de-Ferro do Estado\" width=\"600\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/mondim2.jpg 600w, https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/mondim2-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\nCaminhos-de-Ferro do Estado<\/p>\n<p>A imagem que melhor define o sentimento invocado pelas linhas abandonadas e esventradas \u00e9 a das esta\u00e7\u00f5es arruinadas com os pain\u00e9is de azulejos mostrando cenas da vida rural de cada regi\u00e3o entregues ao vandalismo. L\u00e1 em cima, coroando este quadro de abandono, l\u00ea-se \u00abCaminhos-de-ferro do Estado\u00bb &#8211; \u00e9 a legenda apropriada, que descreve perfeitamente o estado do Estado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitas das primeiras linhas de caminho-de-ferro no norte de Portugal foram constru\u00eddas \u00e0 beira de rios. Seguiam as velhas estradas que se lhes colavam \u00e0s margens, nas quais das vilas e cidades se situavam. 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