{"id":592,"date":"2008-08-13T00:00:23","date_gmt":"2008-08-12T23:00:23","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=592"},"modified":"2009-09-05T23:22:50","modified_gmt":"2009-09-05T22:22:50","slug":"esticando-as-pernas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/esticando-as-pernas\/","title":{"rendered":"Esticando as pernas"},"content":{"rendered":"<p>Vindos l\u00e1 da prov\u00edncia de Benguela, tivemos de parar algumas vezes no caminho para esticar as pernas. A foz do Cubal e a Canjala foram os locais eleitos. A escolha n\u00e3o se deveu apenas ao cansa\u00e7o, mas tamb\u00e9m \u00e0 exist\u00eancia de mercados agr\u00edcolas em ambos.<\/p>\n<p>Na foz do Rio Cubal vende-se essencialmente bananas. H\u00e1 grandes planta\u00e7\u00f5es ali perto. S\u00e3o baratas e bem boas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080908-2320-esticandoas1.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nVendedoras de bananas<\/p>\n<p>Os atractivos deste s\u00edtio s\u00e3o mais do que comerciais, h\u00e1 tamb\u00e9m forma\u00e7\u00f5es geol\u00f3gicas muito interessantes. As camadas sedimentares que formam as arribas junto \u00e0 costa v\u00e3o sendo cortadas pelos rios que conseguem atingir o Atl\u00e2ntico. H\u00e1 outros que se perdem nas areias do deserto do Kalahari. Aqui o espect\u00e1culo \u00e9 magn\u00edfico!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080908-2320-esticandoas2.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nO Rio Cubal bem encaixado<\/p>\n<p>Quem aqui p\u00e1ra, geralmente n\u00e3o contempla a paisagem tecendo considera\u00e7\u00f5es acerca da sua beleza. Daqui apenas tiram o magro sustento.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080908-2320-esticandoas3.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nGuardador de bananas e de sonhos<\/p>\n<p>Junto das vendedoras de bananas tamb\u00e9m h\u00e1 lavadeiras, que aproveitam a sombra da ponte para tratar da roupa, que depois fica a corar ao sol nas moitas em redor.<\/p>\n<p>Com esta aglomera\u00e7\u00e3o de gente, h\u00e1 sempre algu\u00e9m que prepara refei\u00e7\u00f5es, ganhando mais alguns Kwanzas e enganando a fome.<\/p>\n<p>Onde h\u00e1 mulheres, h\u00e1 crian\u00e7as. At\u00e9 terem idade para ir \u00e0 escola acompanham a m\u00e3e. \u00c9 costume ver as mulheres com tr\u00eas filhos. Um pela m\u00e3o, outro \u00e0s costas e mais um na barriga.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080908-2320-esticandoas4.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nO sono dos justos, o almo\u00e7o e a roupa a corar<\/p>\n<p>Na Canjala, mais uma zona martirizada pela \u00faltima guerra, o mercado \u00e9 maior. Tem mais variedade e quantidade. Tem tamb\u00e9m dezenas de mi\u00fados que cercam os carros a tentar vender sacos de pl\u00e1stico, guardar o carro, limpar-lhe o p\u00f3 ou s\u00f3 receber dinheiro para n\u00e3o ser t\u00e3o chatos. Fazem pela vida da maneira que podem.<\/p>\n<p>Assim que se p\u00e1ra o carro, \u00e9-se cercado por uma multid\u00e3o de caras novas. Os rapazes, que ainda n\u00e3o t\u00eam idade para conduzir um t\u00e1xi, vendem sacos de pl\u00e1stico para as compras. As raparigas, algumas j\u00e1 com filhos \u00e0s costas vendem sacos de ginguba, garrafas de \u00f3leo de palma e farinha. As mulheres ficam nas bancas onde vendem quantidades maiores.<\/p>\n<p>As carreiras regulares de autocarros que ligam Luanda \u00e0s prov\u00edncias do Sul param sempre aqui e o neg\u00f3cio \u00e9 feito atrav\u00e9s das janelas para n\u00e3o se perder muito tempo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080908-2320-esticandoas5.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nO cerco<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080908-2320-esticandoas6.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nAs bancas<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080908-2320-esticandoas7.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nArranjando o cabelo<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080908-2320-esticandoas8.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nEsperando os clientes<\/p>\n<p>Mesmo nas v\u00e1rias bancas se notam diferen\u00e7as. H\u00e1 bancas mais bem abastecidas, com produtos vi\u00e7osos e de aspecto fresco. Outras, mais modestas, compram a mercadoria \u00e0s anteriores e vendem mais barato.<\/p>\n<p>Os pre\u00e7os n\u00e3o s\u00e3o os mesmos de Luanda. Este \u00e9 um mercado de prov\u00edncia, afinal. Comprei alguns quilos de mandioca por apenas 200 Kz. A maior de todas media quase 80 cm.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080908-2320-esticandoas9.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nRoendo uma laranja<\/p>\n<p>Fui convencido a experimentar banana-p\u00e3o. Comprei uma quantidade incr\u00edvel por 1000 Kz. Sozinho n\u00e3o teria comprado tanta, mas o condutor insistiu que era bom e que valia mesmo a pena. Depois conto como foi.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080908-2320-esticandoas10.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nAs compras feitas<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080908-2320-esticandoas11.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nO cerco, outra vez<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m me convenceram a experimentar uma fruta c\u00e1 da terra, o mabok. H\u00e1 com cada coisa mais estranha por estes lados\u2026 A melhor maneira que tenho para descrever o mabok \u00e9 que se trata do cruzamento entre um coco, um maracuj\u00e1 e um prato de moelas. Parece um maracuj\u00e1 grande, \u00e9 t\u00e3o duro que s\u00f3 se abre \u00e0 pedrada e depois est\u00e1 cheio de uns peda\u00e7os muito escorregadios com um caro\u00e7o que n\u00e3o se separa com facilidade. \u00c9 \u00e1cido e com um sabor caracter\u00edstico que n\u00e3o \u00e9 desagrad\u00e1vel.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080908-2320-esticandoas12.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nO elo perdido<\/p>\n<p>Depois desta \u00faltima paragem, metemo-nos \u00e0 estrada para chegar a Luanda l\u00e1 pela hora do jantar. A longa viagem deu-me tempo para meditar acerca do que une e separa as gentes da Canjala e da foz do Cubal.<\/p>\n<p>Ambos os locais partilham uma ponte do tempo do colono destru\u00edda, uma ponte met\u00e1lica apoiada nos pilares antigos e uma ponte nova alguns metros a jusante do rio. Ter\u00e1 sido a falta de ponte que tornou poss\u00edvel a exist\u00eancia dos mercados?<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080908-2320-esticandoas13.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nAntiga ponte da Canjala<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080908-2320-esticandoas14.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nAntiga ponte do Cubal<\/p>\n<p>O rio tinha de se atravessar, nem que fosse de barco. A necessidade de trocar os produtos deve ter obrigado a que as gentes se fossem juntando nas margens. Os mercados estabeleceram-se e cimentaram-se\u2026 mas isto \u00e9 tudo especula\u00e7\u00e3o minha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vindos l\u00e1 da prov\u00edncia de Benguela, tivemos de parar algumas vezes no caminho para esticar as pernas. A foz do Cubal e a Canjala foram os locais eleitos. 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