{"id":5979,"date":"2012-10-09T00:00:00","date_gmt":"2012-10-08T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5979"},"modified":"2012-10-09T00:17:04","modified_gmt":"2012-10-08T23:17:04","slug":"o-quebra-molas-marca-do-progresso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/o-quebra-molas-marca-do-progresso\/","title":{"rendered":"O quebra-molas, marca do progresso"},"content":{"rendered":"<p>H&aacute; poucas d&eacute;cadas, o primeiro sinal de que o progesso tinha chegado a uma qualquer vil&oacute;ria de Portugal era um orgulhoso conjunto de sem&aacute;foros. Terra sem sem&aacute;foros era sin&oacute;nimo de tempos medievos, com carros de bois e homens de chap&eacute;u. O progresso anunciava-se com luzes verdes, amarelas e vermelhas perto do largo da C&acirc;mara ou em frente &agrave; Junta de Freguesia. Grande parte deles era in&uacute;til, ou atrapalhava mais o tr&acirc;nsito do que as regras de prioridade que vinham substituir, mas eram um investimento absolutamente necess&aacute;rio para se ganhar as elei&ccedil;&otilde;es seguintes &#8211; a civiliza&ccedil;&atilde;o chegou &agrave; vila, j&aacute; temos sem&aacute;foros!<\/p>\n<p>Hoje em dia, os sem&aacute;foros est&atilde;o ultrapassados. Qualquer lugarejo tem os seus, com controlo de velocidade por radar, apitos para os pe&otilde;es (mesmo que n&atilde;o haja passeios por perto) e j&aacute; n&atilde;o representam a modernidade. O &uacute;ltimo grito s&atilde;o as rotundas. Uma rotunda, mesmo que mal encaixada na estrada antiga, permite sempre que se descerre uma placa comemorativa enaltecendo o Presidente da C&acirc;mara e ainda sobra espa&ccedil;o para l&aacute; por uma qualquer escultura de gosto duvidoso que se encomendou ao primo de algu&eacute;m do partido. Uma rotunda &eacute; a verdadeira marca do progresso. Cada terra da era moderna almeja ter a sua.<\/p>\n<p>Por ser moda, tamb&eacute;m qualquer lugar com mais de duas casas come&ccedil;a a ter mais rotundas por habitante que Viseu, famosa h&aacute; largos anos pela sua ind&uacute;stria de rotundas e redond&eacute;is. Daqui a uns tempos ter&atilde;o de encontrar outra forma de marcar a chegada do progresso &agrave; cidade. Talvez venham a&iacute; rotundas com sem&aacute;foros e portagens.<\/p>\n<p>J&aacute; no Brasil, o primeiro sinal de que a civiliza&ccedil;&atilde;o chegou &agrave;s aldeias mais remotas &eacute; o modesto quebra-molas. Pode n&atilde;o haver electricidade, nem &aacute;gua pot&aacute;vel, mas se l&aacute; chega um trilho onde passam mais do que motorizadas, os habitantes pedem ao prefeito que mostre trabalho e l&aacute; instale uma lomba alta. Se n&atilde;o houver coopera&ccedil;&atilde;o da prefeitura, abate-se uma palmeira e deixa-se atravessada na estrada com uma pequena rampa de terra de cada lado. Faz o mesmo efeito e transporta instantaneamente a povoa&ccedil;&atilde;o do tempo dos jumentos &agrave; idade do motor de combust&atilde;o interna.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/quebra-molas.jpg\" alt=\"Quebra-molas\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nPare, chegou o progresso<\/p>\n<p>Talvez o modesto quebra-molas pare&ccedil;a n&atilde;o servir para mais do que testar a paci&ecirc;ncia dos condutores ou criar oportunidades de neg&oacute;cio para os mec&acirc;nicos especializados em trav&otilde;es e suspens&otilde;es, mas diz-nos logo que aquela povoa&ccedil;&atilde;o &eacute; suficientemente importante para que forasteiros l&aacute; passem sem parar. N&atilde;o &eacute; o fim da estrada, h&aacute; locais ainda mais remotos, assim o promete a lomba. Como benef&iacute;cio adicional, os carros abrandam ao passar, o que faz a povoa&ccedil;&atilde;o parecer maior.<\/p>\n<p>Mas neste jogo de querer mostrar que o progresso j&aacute; chegou sob a forma&nbsp;de quebra-molas acaba por revelar que algumas aldeias s&atilde;o t&atilde;o pequenas que se enquadram na categoria de povoados de um quebra-molas s&oacute;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H&aacute; poucas d&eacute;cadas, o primeiro sinal de que o progesso tinha chegado a uma qualquer vil&oacute;ria de Portugal era um orgulhoso conjunto de sem&aacute;foros. Terra sem sem&aacute;foros era sin&oacute;nimo de tempos medievos, com carros de bois e homens de chap&eacute;u. 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