{"id":5995,"date":"2012-12-03T01:00:00","date_gmt":"2012-12-03T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=5995"},"modified":"2012-12-02T13:32:19","modified_gmt":"2012-12-02T12:32:19","slug":"as-botas-do-tio-torres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/as-botas-do-tio-torres\/","title":{"rendered":"As botas do Tio Torres"},"content":{"rendered":"<p>Nunca conheci o Tio Torres. E s&oacute; consultando a &aacute;rvore geneal&oacute;gica da fam&iacute;lia consigo perceber qual o remoto grau de parentesco que nos une. Era homem do s&eacute;c. XIX e morreu muito antes de eu nascer.<\/p>\n<p>&Eacute; presen&ccedil;a ass&iacute;dua nas hist&oacute;rias e lendas de um dos ramos da fam&iacute;lia, em parte por ter terminado a vida hipocondr&iacute;aco, mas principalmente por ser casado com a Tia Capitulina, personagem merecedora de v&aacute;rios volumes no anais familiares &#8211; segundo um primo, por sinal sobrinho da dita senhora, era maluca mas ningu&eacute;m o queria admitir.<\/p>\n<p>Esse primo, que morreu muito recentemente, tamb&eacute;m esteve envolvido nalgumas hist&oacute;rias, ou n&atilde;o fosse homem ligado &agrave;s Artes, ao Teatro, ao Cinema e ao Circo, entre tantas outras coisas. Era arquitecto de forma&ccedil;&atilde;o e &eacute; por causa dele que as botas do Tio Torres s&atilde;o chamadas &agrave; baila.<\/p>\n<p>Como todas as hist&oacute;rias, precisa de uma pequena introdu&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o se pode come&ccedil;ar a falar directamente nas hero&iacute;nas da hist&oacute;ria, neste caso as botas, sem introduzir as personagens secund&aacute;rias que, por inveros&iacute;mil que pare&ccedil;a, s&atilde;o uma ag&ecirc;ncia de viagens, um restaurante falido e um poeta. Tudo come&ccedil;a no Porto.<\/p>\n<p>No topo oriental da Avenida dos Aliados, h&aacute; uma ag&ecirc;ncia de viagens igual a tantas outras. A &uacute;nica coisa que a distingue &eacute; uma escadaria a meio da loja, encostada &agrave; parede direita, que d&aacute; acesso a uma sobreloja. Recuando ao in&iacute;cio da d&eacute;cada de 1950, a loja n&atilde;o era uma ag&ecirc;ncia de viagens. Era o Restaurante Garrett, de cujo projecto arquitect&oacute;nico era autor este meu primo. Dele tamb&eacute;m era as aguarelas que decoravam as ementas do dia de abertura e a imensa pintura a &oacute;leo de Almeida Garret que ocupava todo o p&eacute;-direito da parede esquerda da loja. Das mesas da sobreloja via-se o poeta da cintura para cima. Das mesas do fundo da sala apenas da cintura para baixo. Para a contemplar devidamente era necess&aacute;rio parar em frente &agrave;s escadas ou espreitar pela montra.<\/p>\n<p>Do restaurante pouca mem&oacute;ria ficou. Fechou ao fim de algum tempo por desinteresse dos s&oacute;cios. Dizia-se que, ao fim da primeira semana, jantavam frequentemente no Montenegro, o da c&eacute;lebre Mamuda, ali para os lados da Pra&ccedil;a da Batalha.<\/p>\n<p>Com o fecho do restaurante, perdeu-se o paradeiro da tela. Certamente foi destru&iacute;da para dar lugar a outra decora&ccedil;&atilde;o. Pelas poucas fotografias da &eacute;poca, percebe-se um Almeida Garrett de p&eacute;, voltando as costas a uma tempestade que lhe despenteia o cabelo. Sendo este primo um perfeccionista nas quest&otilde;es de trajes &#8211; escreveu a Hist&oacute;ria do traje (cujo manuscrito est&aacute; a cargo do Museu Militar do Porto), retratou o poeta com roupa da &eacute;poca. Infelizmente, os retratos conhecidos de Almeida Garret representam-no apenas da cintura para cima, na melhor das hip&oacute;teses, cortado pelos joelhos. Para evitar cair nos erros do cinema em que os legion&aacute;rios de J&uacute;lio C&eacute;sar correm de t&eacute;nis ou ver o Errol Flynn a mostrar o seu cabelo do s&eacute;c. XX na corte do Rei Jo&atilde;o, foi perciso encontrar cal&ccedil;ado da &eacute;poca. &Eacute; aqui que entra o Tio Torres, que em novo tinha sido oficial de Marinha, com farda e respectivas botas contempor&acirc;neas do pr&oacute;prio Almeida Garrett, requisitadas para servir de modelo.<\/p>\n<p>E foi assim que as botas do Tio Torres se viram imortalizadas nos p&eacute;s de Almeida Garrett.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nunca conheci o Tio Torres. E s&oacute; consultando a &aacute;rvore geneal&oacute;gica da fam&iacute;lia consigo perceber qual o remoto grau de parentesco que nos une. Era homem do s&eacute;c. 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