{"id":6034,"date":"2014-01-10T00:00:55","date_gmt":"2014-01-09T23:00:55","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=6034"},"modified":"2014-01-09T12:08:27","modified_gmt":"2014-01-09T11:08:27","slug":"a-excepcao-cultural-francesa-plim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-excepcao-cultural-francesa-plim\/","title":{"rendered":"A excep\u00e7\u00e3o cultural francesa &#8211; Plim!"},"content":{"rendered":"<p>Como forma de defenderem o que acham ser verdadeiramente seu, os franceses costumam invocar a excep\u00e7\u00e3o cultural. Dizem que s\u00e3o diferentes porque encaram a sua interpreta\u00e7\u00e3o de arte ou bom-gosto como algo subtilmente mais refinado que as interpreta\u00e7\u00f5es dos demais b\u00e1rbaros que os rodeiam. Est\u00e1-lhes t\u00e3o inculcado no sangue como o desenrascan\u00e7o nos portugueses. Uns e outros crescem a ouvir isso e acabam por acreditar que lhes \u00e9 inato.\u00a0A verdade \u00e9 que uns e outros t\u00eam raz\u00e3o para defender as suas excep\u00e7\u00f5es culturais. Os portugueses s\u00e3o, de facto, desenrascados, e o franceses encaram as coisas de forma diferente, nem que seja porque se acham excepcionais &#8211; e por vezes s\u00e3o-no.<\/p>\n<p>O que os franceses mais adoram s\u00e3o os pequenos detalhes. Talvez seja porque o trauma de serem a excep\u00e7\u00e3o cultural os obrigue a mostr\u00e1-lo em cada canto, ou somente porque cada um quer provar que \u00e9 mais excepcionalmente franc\u00eas que o anterior.<\/p>\n<p>O exemplo mais famoso desta obsess\u00e3o pelos pormenores talvez seja a alta cozinha francesa. Falo na alta-cozinha porque \u00e9 essa a destila\u00e7\u00e3o gastron\u00f3mica do que entendem ser a excep\u00e7\u00e3o cultural. A cozinha do dia-a-dia \u00e9 relativamente parecida com a dos restantes europeus, se bem que haja tend\u00eancia para incluir um toque final que distinga o cozinheiro.<\/p>\n<p>A fama da alta-cozinha \u00e9 a do prato vazio com tr\u00eas ervilhas e uma raspa de cenoura a formar um quadrado que rodeia uma gota de molho colorido. Nada se costuma pensar do paladar, ou da combina\u00e7\u00e3o dos ingredientes no palato, que \u00e9 quase sempre agrad\u00e1vel. O que nos fica \u00e9 esta imagem do prato vazio com as ervilhas calibradas e dispostas no prato a r\u00e9gua e esquadro. Fica-nos ainda a sensa\u00e7\u00e3o de que o cozinheiro se est\u00e1 a esfor\u00e7ar demasiado para mostrar que \u00e9 franc\u00eas e \u00a0excepcional, ou excepcionalmente franc\u00eas, que \u00e9 quase o mesmo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se nota a excep\u00e7\u00e3o cultural em marcha\u00a0s\u00f3 na cozinha. Est\u00e1 em todo o lado. Se, num qualquer projecto houver uma pausa de alguns segundos para reflectir, \u00e9 seguro que algu\u00e9m se encarregar\u00e1 de aproveitar o tempo para refinar a orienta\u00e7\u00e3o das cabe\u00e7as de parafuso e garantir que o reflexo das luz que lhe incide forme um padr\u00e3o agrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>Os franceses talvez j\u00e1 n\u00e3o o notem, mas uma viagem de transportes p\u00fablicos para um estrangeiro torna-se cansativa n\u00e3o pelo trajecto, mas pelo constante bombardear de excep\u00e7\u00f5es culturais, de pormenorzinhos que demonstram termos o prazer de viajar num el\u00e9ctrico ou autocarro desenhado por um excepcional franc\u00eas (ou franc\u00eas excepcional) que se preocupou em garantir que as tr\u00eas ervilhas eram de facto as melhores ervilhas do mundo (francesas, certamente). N\u00e3o \u00e9 que haja ervilhas nos autocarros, mas aquilo que \u00e9 comum em muitas partes do mundo, sofre um subtil toque franc\u00eas, como os avisos das paragens seguintes.<\/p>\n<p>Na maioria dos s\u00edtios, estes avisos podem, ou n\u00e3o, ser precedidos de um sinal sonoro, mais ou menos parecido com um sinal hor\u00e1rio. Se tivermos sorte, uma sequ\u00eancia de duas ou tr\u00eas notas antecede o nome da esta\u00e7\u00e3o e respectivas correspond\u00eancias. Em Fran\u00e7a, h\u00e1 um pequeno trecho musical que tenta, de forma excepcional claro, captar a ess\u00eancia da viagem e comprimi-la numa c\u00e1psula de refinamento e bom-gosto com menos de dois segundos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-6035\" alt=\"Concorde\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/concorde.jpg\" width=\"640\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/concorde.jpg 640w, https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/concorde-300x225.jpg 300w, https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/concorde-600x450.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><br \/>\nA excep\u00e7\u00e3o francesa<\/p>\n<p>Com sorte, termina por aqui. Com algum azar, viaja-se num dos el\u00e9ctricos modernos de Brest onde, a cada paragem, se tem direito a um ou dois trechos musicais diferentes consoante a direc\u00e7\u00e3o da viagem, para que sejam harmoniosos com os anteriores. Cada um destes trechos procura sintetizar a emo\u00e7\u00e3o de ser depositado no cais respectivo envolto numa onda de serenidade. Entre paragens, somos banhados por uma suave luz azul, proveniente de grandes lumin\u00e1rias em forma de aqu\u00e1rio no tecto, qual manto di\u00e1fano de tranquilidade e contempla\u00e7\u00e3o. Para al\u00e9m disso, o nome das esta\u00e7\u00f5es \u00e9 repetido duas vezes, com entoa\u00e7\u00f5es diferentes para que n\u00e3o haja problema de compreens\u00e3o de pron\u00fancias. Adicionalmente, para que n\u00e3o se tornem viagens mon\u00f3tonas, a ordem das entoa\u00e7\u00f5es usadas tamb\u00e9m varia. E, demonstrando uma excepcional aten\u00e7\u00e3o aos detalhes, ao longo da viagem as vozes alternam de forma aleat\u00f3ria entre masculino e feminino. S\u00e3o verdadeiras ervilhas sonoras polidas com camur\u00e7a e dispostas a r\u00e9gua e esquadro por um excepcional cozinheiro franc\u00eas. De vez em quando, ouvem-se grava\u00e7\u00f5es em Franc\u00eas, Ingl\u00eas e Bret\u00e3o. S\u00e3o vozes serenas e compreensivas, verdadeiros pin\u00e1culos da compaix\u00e3o em forma de aviso de correspond\u00eancias. \u00c9 enlouquecedor.<\/p>\n<p>N\u00e3o contentes com isso, o projecto destes el\u00e9ctricos modernos procura manter-se fiel \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o. Em quase todos os el\u00e9ctricos do mundo, o sinal sonoro de aviso \u00e9 uma campainha que os torna inconfund\u00edveis. A interpreta\u00e7\u00e3o francesa tamb\u00e9m inclui uma campainha, mas usar uma como a dos outros seria uma ofensa \u00e0 excep\u00e7\u00e3o cultural, por isso \u00e9 necess\u00e1rio garantir que a nova campainha seja um bom aviso e, simultaneamente, capaz de nos inundar com uma onda de bom-gosto. Em vez da campainha usam uma grava\u00e7\u00e3o de um sino, certamente percutido com delicadeza no ponto certo por um pequeno martelinho de pau-preto &#8211; Plim! \u00c9 refinado. \u00c9 chique. Plim! N\u00e3o assusta as pessoas nem os pombos. Plim! \u00c9 fino. Plim! Empresta uma certa serenidade aos ru\u00eddos da cidade. Plim! Plim! Plim! N\u00e3o transmite qualquer urg\u00eancia. Plim! S\u00f3 serenidade. Plim! Ningu\u00e9m o ouve. Se ouve, n\u00e3o lhe liga.\u00a0P\u00f3\u00f3\u00f3! Pelo sim, pelo n\u00e3o, tamb\u00e9m instalaram uma buzina de ar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como forma de defenderem o que acham ser verdadeiramente seu, os franceses costumam invocar a excep\u00e7\u00e3o cultural. Dizem que s\u00e3o diferentes porque encaram a sua interpreta\u00e7\u00e3o de arte ou bom-gosto como algo subtilmente mais refinado que as interpreta\u00e7\u00f5es dos demais b\u00e1rbaros que os rodeiam. Est\u00e1-lhes t\u00e3o inculcado no sangue como o desenrascan\u00e7o nos portugueses. 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